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    O “LEGADO” DA PANDEMIA: DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS E ESTRESSE

    O “LEGADO” DA PANDEMIA: DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS E ESTRESSE
    Foto por Reprodução
    Escrito por Da Redação
    Publicado em 19.05.2021, 19:35:49 Editado em 19.05.2021, 19:35:54
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    Os transtornos mentais consistem em um fenômeno que é atravessado por diversas representações sociais, culturais, religiosas e científicas. Na antiguidade e no medievo, eles eram compreendidos por meio de explicações místicas que envolviam ideais de possessões demoníacas, maldições e castigos advindo de Deus.

    A história das representações sociais de saúde e doença foi marcada por um processo de rupturas e continuidades dessas visões deterministas e preconceituosas acerca das enfermidades que envolvem o aparelho psíquico, o que contribui para que as pessoas que passam por essas situações sejam acometidas por sentimentos de vergonha, medo, discriminação e solidão.

    Quando uma pessoa tem diabetes, pressão alta ou qualquer outra doença desse tipo, a medicação diária é vista como uma necessidade e representação de cuidado. Com relação às doenças mentais, o preconceito e a permanência de paradigmas fazem com que haja, no senso comum, a ideia de que é preciso enfrentar a doença mental apenas com a fé ou força de vontade. A medicação é sinal de necessidade de libertação de algo que “faz mal” ao indivíduo.

    De grupos de oração a livros de autoajuda, o fato é que a última coisa que o sujeito com transtornos psiquiátricos busca é a medicina e a psicologia. Geralmente, essa busca acontece quando os casos se agravam, o que atrapalha, e muito, o processo de cura e recuperação do doente.

    A psicóloga e psicanalista Chiara Ferreira afirma que a pandemia intensificou um problema que já era latente: “Houve um aumento de crises de ansiedade, e o que temos visto e imaginado é que os efeitos são impactantes, uma vez que tudo que o aparelho psíquico não viveu, ele não consegue representar, é algo que não é palpável, há ansiedades em decorrência dessa superinformação que potencializa o medo. A ansiedade é um sentimento, emoção, afeto saudável, que nos ajuda a fugir de perigos, mas quando não conseguimos dosá-la, ela se excede e temos crises, não conseguimos representá-la por meio do aparelho psíquico e não conseguimos fazer ligações. A compreensão se dará mesmo a posteriori, no depois mesmo, quando poderemos representá-la. Cada sujeito vai manifestá-la de acordo com sua história, ou seja, com sua constituição subjetiva, uma maneira de enfrentamento e, também, os sintomas se darão de maneira particular”.

    A psicóloga Karinne Nathallie Mareze Carleto, que atua no ambulatório de alto risco em saúde mental do CISVIR, nos faz uma breve reflexão sobre o trabalho que desenvolve em relação às demandas do contexto da pandemia e aconselha os leitores: “A pandemia prejudicou a saúde mental da maioria das pessoas. Pessoas que tinham a saúde mental estabilizada, hoje não estão mais, outras, que tinham transtornos mentais, estão com seus quadros acentuados. Algo que era uma situação mínima se tornou grande. A ansiedade é parte de nossa vida, porém, em determinados contextos, essa ansiedade pode evoluir para um transtorno mais grave. Hoje eu atuo no CISVIR e, pela minha experiência no ambulatório de saúde mental, é nítido o aumento da demanda em termos de agendamentos de consultas, a procura ao departamento de saúde mental foi intensificada. Em relação ao motivo desse contexto, percebemos que a ansiedade, a preocupação e o nervosismo aumentaram, uma vez que os estágios da pandemia e a falta de informação sobre a doença e o próprio término dessa situação são incertos. Toda essa falta de informações concretas e de tratamento específico gera um contexto de medo e angústia bastante preocupante. Uma coisa que percebi que aumentou muito depois da pandemia foi a questão da violência doméstica. Essa intensificação do convívio e uma rotina mais intensa levou a um processo de aumento de agressões física, psicológica e moral, o que fica evidente nos atendimentos. As pessoas que trabalham no serviço público precisam estar atentas aos sinais e sintomas, e se há necessidade de auxílio. Também houve um aumento das tentativas e da ideação suicidas. É necessário buscar ajuda ao menor sinal de que nosso psicológico está em processo de adoecimento. Busque se autoconhecer e perceber como se sente, se seus pensamentos estão mais pessimistas ou compulsivos, busque ajuda na rede privada ou pública. Busque ao menos uma orientação. Vá a postos de saúde, serviços de assistência, educação, na autarquia municipal de saúde. Todo município conta com dispositivos de auxílio gratuito nesses casos. Fique atento e não deixe a situação chegar a um grau avançado”.

    A psicóloga e especialista em análise do comportamento Juliani Naiara Almeida Pinto nos traz uma visão completa da situação entre adultos e jovens, ela nos leva a uma importante reflexão:

    “O medo, a ansiedade e a atenção foram comportamentos importantes para o desenvolvimento do homem e para a evolução de nossa sociedade, ou seja, precisamos deles para nossa defesa e sobrevivência, entretanto, estamos vivendo um momento em que tais comportamentos estão sendo vivenciados quase que ininterruptamente, produzindo no indivíduo uma sensação de atenção e estresse constante. A exposição prolongada ao estresse pode produzir, no individuo, a depender de sua história de vida e aprendizado, em curto e médio prazos, a instalação de algumas psicopatologias, como Transtorno de Ansiedade, Depressão, Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) — no caso da pandemia, o ritual de lavar, higienizar as mãos, trocar de roupas etc.), entre outros. Outro evento que tenho observado de modo bastante expressivo é a Fobia Social. Estamos vendo um número significativo e crescente na população jovem quanto à dificuldade em relacionar-se com os demais, optando pelas atividades virtuais e, assim, isolando-se da família e sociedade. Podemos concluir que os efeitos da pandemia, com exceção das questões físicas advindas da doença, bem como o óbito, sem diminuí-los de modo algum, por si só, já carregam suas implicações e, também, já são vistos de modo impactante nos atendimentos clínicos. Não significa que todos terão consequências de ordem psicopatológicas, como já mencionado, a depender do histórico de vida e aprendizado de cada um, o resultado desta pandemia é variável e particular. Outro ponto que podemos observar à luz da psicologia é quanto aos comportamentos desenvolvidos pelas pessoas ao enfrentar a finitude da vida, desafiando regras e orientações a fim de, numa tentativa de controle de sua própria vida, determinar suas próprias regras, colocando em risco os demais. Vemos, com muita frequência, pessoas apresentando comportamento de resistência à adesão às regras sociais, o que nos mostra através desta ação uma dificuldade em controlar, em entender e em reagir diante da possibilidade de contaminação e suas consequências. O fato é que, de um modo geral, todos estão tentando de alguma forma lidar ou enfrentar a situação da melhor forma possível, e os aumentos dos índices de contágio e mortes geram no indivíduo um sentimento de frustração, decepção e desesperança, fazendo com que muitos acabem por se descuidar.  Neste momento da pandemia, é necessário que os cuidados se mantenham, entretanto, os cuidados com sua saúde psicológica também devem ser observados. Nesse sentido, surge como uma boa saída para investir em si: fazer caminhadas, procurar estar ao livre, encontrar poucas pessoas nesse mesmo ambiente, dividir experiências. Expor-se, na medida do possível, a essas condições é definitivamente de grande ajuda, lembrando que, mesmo em ambientes abertos, como praças, parques, entre outros, o uso da máscara é indispensável, bem como evitar o contato físico. A procura por ajuda especializada e certificada deve ser sempre uma prioridade para levar o indivíduo ao autoconhecimento e ao desenvolvimento de habilidades adequadas para enfrentar esta situação”.

    Nesse contexto, outros problemas também estão surgindo, como os relacionados à saúde nutricional das pessoas, aspecto que exige cuidado e atenção. É o que aponta e orienta a nutricionista, com mais de quinze anos de experiência em nutrição clínica, Natália Brandão: “Com a pandemia, eu tenho recebido muitos casos em meu consultório de pessoas que estão se sentindo mais ansiosas e que, por conta disso, estão descontando mais essa ansiedade na alimentação. Inclusive até em crianças, com ganho de peso excessivo, quadro de hipercolesterolemia (colesterol alto) e pré-diabetes. Muita gente, de uma hora para a outra, teve que ficar mais em casa e ficou mais tempo exposta a telas (jogos, TV, aulas remotas, teletrabalho e celular) e, com isso, se movimentou menos e ficou mais entediada. Nesse sentido, acredito que tentar manter uma rotina em casa é essencial. Ter horários definidos para o tempo de tela e, também (ou até principalmente), para as refeições e evitar comer entre elas, as famosas "beliscadas". Melhorar a hidratação também é essencial para os quadros de ansiedade. Muita gente só pensa em comer quando está em casa e/ou ansioso, mas muitas vezes o corpo está pedindo água. E vale consumir sucos naturais, água de coco e água com gás. Outra estratégia que oriento meus clientes a seguirem é ter uma oferta maior de frutas em casa, já que são fontes de fibras e dão mais saciedade e incluir frutas mais duras e crocantes à alimentação, como o coco fresco in natura e as castanhas. Por exigirem uma maior mastigação, acabam contribuindo para a saciedade. Claro que muitas vezes vai precisar de uma orientação nutricional mais individualizada, pois cada pessoa possui uma rotina e hábitos, e todas estas questões, bem como sua saúde de um modo geral, devem ser levadas em consideração”.                                                 

     Diante disso, é perceptível a necessidade de estar atento aos menores sintomas de instabilidade emocional nesse contexto de pandemia, além de ser necessário um olhar amoroso para a sua própria rotina. É preciso buscar, neste momento, fazer atividades que estávamos protelando. Cuidar de plantas, ler um livro, ver filmes, fazer atividades físicas, buscar uma conexão espiritual maior com Deus e passar um tempo de qualidade com quem amamos podem ser boas saídas.

    Mas o que fazer em caso de precisar de ajuda e perceber algum sintoma persistente?

    O fluxo de atendimento de saúde mental começa na unidade básica de saúde (UBS ou posto de saúde) ou em qualquer outro serviço da rede. Inicialmente, deve ser realizada a consulta com um clínico geral, que preencherá um formulário chamado de estratificação de risco em saúde mental para mensurar como está a saúde mental dessa pessoa. Além disso, esse médico vai fazer um documento, uma referência e contrarreferência para o departamento de saúde mental, e o paciente vai para uma fila de espera do departamento. Assim que são liberadas as vagas, as consultas vão sendo agendadas no CISVIR, no Hospital Regional e em outros espaços. Em contrapartida, também temos os CAPES, que também estão preparados para atender a qualquer tipo de demanda em transtornos mentais.  

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    Camilla Bolonhezi

    Camilla Bolonhezi

    Camilla Samira de Simoni Bolonhezi. Graduada em História pela UEM, é doutoranda em História Política pela mesma universidade. Possui especialização em gestão, organização e orientação escolar, bem como em psicopedagogia clínica e institucional. Trabalha com pesquisas na área de Relações Étnico-raciais, Direitos Humanos e Políticas Públicas. É professora da Faculdade de Apucarana (FAP) desde 2015 e também atua como docente na SEED PR lecionando no Ensino Médio e Fundamental.

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