As Empresas e a Financeirização - TNOnline
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Escrito por Paulo Cruz
Publicado em 14.08.2020, 08:49:50 Editado em 14.08.2020, 08:49:43
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O capital começa com a mercadoria – Mercadoria-Dinheiro-Mercadoria – e desconhece-se que se trata da forma ou valor que já circula, desdobrando-se como mini regime de produção, com estrutura e dinâmica própria. Acumulação financeira, no entanto, não está em oposição à produtiva, depende de regulação para não ir só para a abstração que é a forma puramente monetária. Tem-se que compreender a construção do capital, que passa pelo desdobramento de suas formas, partindo da mercadoria e da sociedade em suas próprias bases. Aqui vamos da mercadoria para o capital, passando por dimensões de forças produtivas, que carecem de política econômica de crédito para indução, para organizar os fluxos de renda, produção, consumo e preservar a capacidade competitiva das empresas. O exemplo são as recentes guerras tarifárias entre EUA e China.

Nesta construção, a propriedade se insere em construções tecnológicas e se emerge em capital fictício, que pode retornar à produção futura. Quando a acumulação produtiva cai é porque os valores dos capitais fixos estão se desvalorizando, mas depende de cada setor. A acumulação tende ao desequilíbrio na forma financeira. Após a Segunda Guerra Mundial teve-se repúdio à financeirização, por causa da crise de 1929 que ainda estava recente. Não se condena, contudo, o que pode ser redirecionado, principalmente em países menos desenvolvidos. A crise de 2008, levou os juros abaixo nos EUA e com a desregulação abriu-se à financeirização, assim como nos anos 80, quando se teve a crise do petróleo com forte implicação. Naquele período, os chineses estavam iniciando sua vida econômica, para competir agora com os EUA. Um movimento que se intensificou no pós anos 90, com a globalização que favoreceu o caráter financeiro.

Como constituição, capital financeiro e produtivo estão interrelacionados, mas o avanço desmedido de um lado, ou de outro, pode levar a bolhas e crises graves como as de 1929 e 2008, o que evidencia movimentos contraditórios e, como tudo na vida precisa de regras depende de regulação, porque se descola do capital produtivo. O cálculo do valor com supercapitalização é o que desregula e estrangula as partes, levando a crise. O valor é o de mercado, mas tem-se o problema da liquidez. O ativo tem rendimento próprio e, o ativo real tem custos de manutenção, com um prêmio de liquidez no final do ciclo. Assim, os ativos em seu rendimento real dependem do desconto da taxa de juros reais, que varia ciclo a ciclo. Olhando para a incerteza, cada ativo tem sua forma própria de retorno e formam-se parâmetros, é o que governa a demanda efetiva para as empresas. O valor presente é a sua capacidade de atrair rendimentos diante da taxa de juros de mercado. A financeirização muda a forma de governança das empresas e mexe com o consumo das famílias, à medida que a taxa de juros mexe com a liquidez e os avanços patrimoniais.

Os investimentos se tornam líquidos quando incertezas prejudicam as expectativas de longo prazo, quer dizer, para regular o sistema, precisa-se criar um ambiente regulatório das expectativas, para manter segurança sobre os projetos de investimentos empresariais vigentes, garantir a renda dos que consomem e reduzir o poder do sistema financeiro sobre o conjunto da economia para preservar as expectativas em longo prazo. Chega-se à eutanásia do rentista que prefere os ganhos fora da produção. A desregulação com avançada tecnologia pode levar a lógica especulativa com resquício inflacionário. Aqui, precisa-se fortalecer as instituições para preservar a regulação e as expectativas empresariais de longo prazo, do contrário, a falência do sistema pode avançar, contaminando o setor empresarial produtivo como um todo. A riqueza é registrada no balanço de pagamentos em dinheiro e bens de capitais duráveis que pode ser melhorada de diferentes formas. As empresas podem comprar suas próprias ações, para assegurar a valoração fora da produção, o que está a ocorrer a olhos vistos nesta pandemia.

Com a pandemia, a China ganhou força e os EUA e outras economias encontraram dificuldades para itens diversos necessários ao combate da pandemia, justamente pelo diferencial em relação à produção e a financeirização. Os dois principais instrumentos são o crédito e os derivativos. Criam-se processos fictícios de valorização e tem-se mercados não de ativos, mas de variação de preços de ativos, quase uma desconexão da realidade. Aqui, o capitalismo apresenta indícios de fortes vertentes de ruptura, convivendo com a eminência de crises sistêmicas e a pandemia ao lado, com ciclos quase inconsequentes e perigosos, para a insolvência e concentração de riquezas, com poderes de ameaças à produção e financeirização. Os excessos de concentração podem sair dos trilhos, intensificar bolhas e ameaçar riquezas. Com a articulação tecnológica e a financeirização da proteção social, individualizou-se o risco. O cidadão foi contaminado e todos sistematicamente estão subordinados à precarização, com avanços da incerteza e insegurança pessoal com 65% da população negativada.

Aqui, entra a importância do Estado – como participante ativo do processo – que não pode ser coadjuvante, assumindo seu papel de agente principal do sistema, como reparador de crises, porque, se não regulou satisfatoriamente e adequadamente o processo, não pode deixar a Economia quebrar. A emissão de dívida pública pode ser a saída para uma situação vista como sem saída. Nos Estados Unidos, essa foi a solução encontrada em 1929 e em 2008. O que fazer com um sistema quase desgovernado? Pede-se equilíbrio sobre a emissão de títulos, o que pode não ser possível, a não ser pela recondução de recursos fiscais novos, e isso o governo já entendeu. No meio da financeirização, a corrida por títulos também aumentou, o setor público não está alheio e o auxílio emergencial é quase um lançamento contraditório. Por outro lado, reconhece-se que o auxílio volta por meio do consumo e dá produção às empresas que alimentam o processo financeiro. O capitalismo, tal como está, não atende aos interesses de produção, distribuição e consumo da maioria e precisa de regulação, com estado forte para preservar as expectativas empresariais, prevenir bolhas e crises de insolvências inerentes ao sistema.

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