Região

Casos de violência contra o idoso crescem no Vale do Ivaí

Da Redação ·
É na janela que Rosa Francisco, 64 anos, passa seus domingos: “Fico olhando as pessoas caminhar” - Abandono também é uma forma de violência
fonte: André Veronez
É na janela que Rosa Francisco, 64 anos, passa seus domingos: “Fico olhando as pessoas caminhar” - Abandono também é uma forma de violência

Cabelos brancos, rosto esculpido pelo tempo e passos vagarosos. Características de um personagem que a cada ano se torna mais presente na sociedade brasileira: o idoso. Segundo o último censo são 20 milhões de indivíduos com mais de 60 anos, o que representa 10,8% da população brasileira. O avanço deste segmento populacional impõe desafios nas esferas pública e privada. Se por um lado o estado precisa ajustar suas ações, a família também tem o desafio de aprender a respeitar seus idosos. Nos últimos oito anos, o Disque Idoso Paraná registrou 30 mil notificações de desrespeito. Saltou de 58 casos em 2003 para 2.365 em 2011. Na região não é diferente. O número de casos de violência física registrados pela 16ª Regional de Saúde de Apucarana aumentou em mais de 200% entre 2010 e 2011.

continua após publicidade

O número de casos de violência entre 50 a 64 anos aumentou 216% nos 17 municípios da área da 16ª Regional de Saúde. Em 2010, foram registrados 6 casos. No ano seguinte, foram 19 ocorrências do gênero. Na faixa etária dos 65 a 79, no primeiro ano foi registrada uma notificação, no ano seguinte foram 9 situações. Os casos envolvem exclusivamente casos de agressão física, cujas vítimas acabam sendo atendidas na rede pública de saúde e o profissional identifica os ferimentos como fruto de maus tratos.

continua após publicidade

De acordo com a supervisora do Disque Idoso Paraná, Dulce Maria Darolt, as denúncias mais recorrentes registradas se referem à agressão verbal e psicológica, negligência e abandono, apropriação indébita e agressão física. “Ainda não conseguimos identificar se o aumento de situações é decorrente de uma conscientização dos direitos dos idosos ou se os idosos estão sendo mais desrespeitados”, diz.
Contudo, ela sustenta que as agressões são cometidas sempre por familiares ou pessoas muito próximas do idoso. “A agressão é cometida, geralmente, por filhos, netos, genros e noras, nesta graduação”, afirma.

continua após publicidade

Quanto ao perfil social das famílias, Dulce Maria observa que as ocorrências são mais comuns em lares com até quatro salários mínimos. Contudo, classes mais abastadas também não estão isentas do desrespeito. Neste caso, a apropriação de bens se sobressai. “Se tem a ideia que o idoso não sabe decidir. A opinião dele não é respeitada, mas enquanto ele tiver discernimento, a família tem que respeitar as suas decisões”, defende.
A supervisora, no entanto, observa que a postura do idoso não é de denunciar, mas de se calar para não ter problemas familiares agravados ou ser abandonado. “A maior aspiração do idoso é que a família esteja unida. Que os filhos não fiquem bravos, por isso, muitas vezes acaba negando as agressões”, revela.
Ela explica que para evitar que o idoso fique inseguro é acionada uma equipe com assistentes sociais que entram em contato com a família para verificar a situação. “A equipe também faz um trabalho de aconselhamento com a família para melhorar a convivência no âmbito familiar, somente quanto não temos uma resposta positiva, o caso só é encaminhado ao Ministério Público e, em alguns casos, o idoso precisa ser retirado da casa”, diz.
Segundo Maria Dulce, o trabalho de identificação do idoso em situação de risco é feito através de mecanismos municipais como o Programa Estratégia Saúde da Família (PSF). São os agentes, nas visitas domiciliares, os responsáveis por identificar a vulnerabilidade dos pacientes. Há dois anos, o Ministério da Saúde (MS) inclui a em sua lista de notificações, a violência, que deve ser registrado pelos profissionais de saúde.

 

Asilamento: o vilão da velhice

O distanciamento progressivo entre o idoso e seus familiares acaba, em alguns casos, no completo abandono. Segundo a coordenadora da Saúde do Idoso, da 16ª RS, a psicóloga Ângela Blanski, a solidão é um dos maiores medos dos idosos, é o que os impede de denunciar as situações de abusos, como a apropriações dos bens e as agressões físicas e verbais. “A falta de atenção com a pessoa idosa dentro de casa ocasiona o asilamento da mesma forma como em uma instituição de longa permanência”, diz.

continua após publicidade

Ela observa que o abandono e o desrespeito são os principais desencadeadores de casos de depressão. “Ao se apropriar da aposentadoria do idoso, o filho ou o neto tira dele o direito ao lazer e até mesmo negligencia sua saúde com falta de medicamentos”, pontua.
Segundo Ângela, os idosos em situação de abandono ficam vulneráveis às doenças psicológicas. “Não querem participar de nenhuma ação social, se entregam. Criam um mundo próprio, aonde se fecham. Com o emocional abalado, as consequências não demoram a aparecer, inclusive na parte física”, assinala.

continua após publicidade

Ela avalia que esta situação acontece por causa da rotina acelerada dos filhos, mas também pela própria personalidade do idoso. Contudo, em todos os casos, ela aconselha que a família não deixe seus idosos perderem o convívio social. “É importante e necessário manter o contato com amigos ou participar de atividades em grupo, como roda de conversa, artesanato ou arte mesmo participar de bailes específicos para a terceira idade”, sugere.
O administrador do Lar São Vicente de Paula, de Apucarana, Marcelo Douglas Pereira, afirma que 90% dos internos da instituição chegam com problemas mentais e mobilidade reduzida. “Mesmo quando o idoso chega bem, se a família não vem visitar, depois de um mês ele começa a mudar e, geralmente, acaba depressivo mesmo com atividades”, analisa.

continua após publicidade

Ainda segundo ele, cerca de 60 a 70% dos internos recebem pelo menos uma visita a cada dois meses. “São raros os casos de idosos que recebem visitas de familiares toda semana. Temos outros casos de familiares que simplesmente não aparecem mais para vê-los”, assegura.
 


A rotina longe dos familiares

A última morada na velhice nem sempre é o lar com a família com quem cresceu e estabeleceu laços afetivos. É aos 60 anos que muitos descobrem as instituições de longa permanência para viver os últimos anos. Rosa Francisco, 64 anos, vive há cinco no Lar São Vicente de Paulo em Apucarana. “Morava com uma irmã, mas o meu cunhado implicava demais comigo. Ele me mandava embora da casa dele. E olha que eu ajudava no serviço da casa”, recorda.

No Lar, ela não perdeu o traquejo com os afazeres domésticos. “Sempre estou ajudando na lavanderia. Ajuda a passar o tempo”, diz. No último domingo, ela teve um dia diferente. “A almocei na casa da enfermeira que trabalha aqui. Foi muito bom”, afirma. Mas a maioria de seus finais de semana, ela desfruta pela janela do quarto a vista do Lago Jaboti. “Fico olhando as pessoas caminhar. Dá vontade de ir lá também”, confidencia. Quando perguntada se gostaria de mais visitas da família ela diz que não. “Perde um pouco o contato”, diz. “Eles me buscam somente no Natal e na Páscoa”.

A colega de quarto, Lourdes Jacinto da Silva, 67, também passou o final do ano com a família, mas diferente de Francisca, ela gostaria de receber mais visitas. “Eu sinto muita saudades deles, mas não tem como eu ficar com eles. Meus irmãos trabalham muito e também têm filhos doentes”, diz.
Já Antônio Benedito da Silva, 60, que mora no lar há um ano, não informou à família, que é São Paulo, que está vivendo em instituição de longa permanência. “Sempre vivi sozinho. De vez em quando entro em contato e falo com eles, mas acho que não daria certo viver com meus irmãos, gosto de fazer as coisas do meu jeito”, diz.

Ele acha que o Lar São Vicente é a melhor opção. “Um aposentado vivendo sozinho fica muito visado pela bandidagem”, diz. O colega José Luiz da Silva, 67, também acredita que a instituição é mais segura. “Não quero morar com filho, eles tem muitas ocupações, criança pequena. Acabaria atrapalhando. Aqui é melhor”, avalia.