Política

Brasileiro salvou vida de líder do Timor Leste

Da Redação ·

O mercado de Díli estava lotado quando a mão de um homem com uma faca avançou em direção de Xanana Gusmão, o líder da independência do Timor Leste. Quarto dan em caratê, o cabo Marcelino José Conceição deteve o golpe com a mão, desarmando o agressor. Enquanto a faca caía no chão e o terrorista fugia em meio à confusão, um dos homens da escolta apanhou o líder pela calça com uma das mãos e com a outra empurrou suas costas, guiando-o através da multidão.

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O chefe da escolta, o então tenente Fabiano Augusto Cunha da Silva, reuniu seus dez homens e saiu com Xanana nos três carros da comitiva. Foram para Aileu, cidade a 1,2 mil metros de altitude, nas montanhas que dividem a ilha entre a parte indonésia e a que se tornara independente com o referendo de 1999. O agressor escapou. "Não havia como garantir a segurança de Xanana e deter o homem ao mesmo tempo", conta o hoje coronel Fabiano.

A facada que podia ter mudado o destino do país de língua portuguesa foi um dos primeiros episódios da experiência timorense do coronel. Quinze dias antes, ele escapara do cerco das forças da Falintil, a guerrilha liderada por Xanana, em um dos fatos mais dramáticos do período da libertação do país.

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Após salvar Xanana da facada, Fabiano se tornou, duas décadas depois, um dos responsáveis pela segurança do Palácio do Planalto e do presidente Jair Bolsonaro. "Nós fazíamos o planejamento toda vez que o Xanana ia deixar Aileu. Mas ele buscava o contato com o povo, queria abraçar as pessoas e não respeitava as nossas orientações." Era um tempo em que milícias pró-Indonésia tentavam impor o terror aos timorenses.

Foi um país dilacerado e arrasado que Fabiano conheceu 1999. Na primeira patrulha em Díli, a capital do Timor Leste, ele viu uma picape incendiada e uma nuvem de moscas em cima do carro. No veículo estavam nove corpos decapitados, com notas de rúpias, o dinheiro indonésio, em cima. Era parte da vingança das milícias contra a população - 80% dos timorenses votaram pela independência do país após 25 anos de ocupação indonésia. "A ilha estava devastada. Tinha mais de 20 mil mortos e cabeças cortadas. A gente encontrava corpos de mulheres, crianças e idosos."

Fabiano chegou em outubro ao Timor com outros 50 homens da Polícia do Exército. O Brasil fazia parte de um força multinacional para defender a independência do Timor. Em 18 de novembro, o tenente recebeu a ordem para assumir a segurança de Xanana. Para tanto, rumou para Aileu com sete brasileiros e dois australianos. "Às 18 horas, um dos cabos do meu grupo me abordou: 'Tenente, tem algo errado por aqui!'."

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Uma centena de guerrilheiros da Falintil estava cercando a casa que abrigava Fabiano e sua equipe. Pelo rádio, recebeu ordens para manter a posição e soube que um batalhão australiano havia capturado um grupo armado que trajava peças de uniformes indonésios. Levados a Díli, descobriu-se que eram guerrilheiros de Xanana. Em represália, a Falintil cercou Fabiano e seus homens. "Minha missão era resistir e sobreviver."

Fabiano distribuiu os homens pelos dez cômodos da casa. À meia-noite, surpreendeu-se pensando na família e decidiu ir ver como seus homens estavam. Encontrou um cabo sentando em um banco com um fuzil ao lado e um Novo Testamento aberto no colo. "O cabo sempre foi convicto em afirmar que era ateu. Ao me ver, ele falou que estava arrependido de seus pecados, que passaria a respeitar mais a mulher e seus filhos."

Em seguida, achou homens calmos, mas também um australiano que mirava um guerrilheiro e repetia que ia morrer, mas mataria aquele sujeito primeiro; um cabo só de sunga, que daquele jeito acreditava conseguir correr para fugir ao cerco e um sargento com os olhos fechados, ouvindo um CD de Zeca Pagodinho. "Tenente, a gente não tem saída, e a música está me acalmando." Fabiano respirou fundo. "Expliquei que o êxito do grupo dependia dele também."

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Do lado de fora, os guerrilheiros arrastavam facões no asfalto e davam gargalhadas. Pela manhã, o brasileiro viu a Falintil se reunir. Xanana resolveu ir para Díli com seus homens, apesar da proibição dos australianos. Tudo levava a crer que haveria combate. Mas o general australiano Peter Cosgrove resolveu não enfrentar os guerrilheiros, que entraram em Díli e chegaram a um acordo com a missão da ONU. O grupo de Fabiano foi mantido na segurança do líder guerrilheiro.

Em março de 2000, Fabiano voltou ao Brasil. Ele reveria Xanana duas vezes. Em 2001, quando o timorense visitou o país e pediu ao presidente Fernando Henrique Cardoso para rever os brasileiros que cuidaram de sua segurança. No Planalto, Xanana cumprimentou a todos, mas abraçou dois: Marcelino e Fabiano. Em 2007, em uma missão no Timor, Xanana novamente o recebeu. E recordou o dia em que a Falintil 'tomou' Díli. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.