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Política

Universidade de Brasília adota medidas de segurança para aula sobre 'golpe'

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NATÁLIA CANCIAN

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - "Como vocês devem saber, essa disciplina causou um certo alvoroço", disse o professor Luiz Felipe Miguel logo ao início da primeira aula da disciplina sobre "o golpe de 2016", na UnB (Universidade de Brasília).

"Há males que vêm para bem: nos deram uma sala de aula com ar condicionado, o que é uma vantagem", brincou. "Mas também existe uma preocupação para que esse curso ocorra da maneira mais tranquila e normal possível."

Alvo de polêmica, a primeira aula de "Tópicos Especiais em Ciências Políticas: o golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil", disciplina optativa do curso de graduação em Ciências Políticas, foi cercada de medidas extras de segurança.

A sala inicialmente separada para as atividades, que fica no Pavilhão João Calmon, foi trocada por outra em um prédio ao lado, no Instituto de Ciência Política, em uma área menos movimentada. 

Logo ao início das aulas, o professor também informou que a participação de alunos "ouvintes" -ou seja, aqueles que não estivessem formalmente matriculados na disciplina- também seria vetada, conforme decisão tomada em reunião na reitoria.

A lista de participantes foi verificada um a um antes das atividades. A reportagem tentou acompanhar o início das aulas, mas saiu após ouvir que a participação de não matriculados na disciplina não seria permitida.

Segundo a universidade, a mudança de sala ocorreu como estratégia de segurança, devido ao receio de tumultos que pudessem afetar alunos e professores. A instituição alega ainda que os regulamentos não preveem a possibilidade de ouvintes.

Em outra medida, alunos também foram orientados a não gravar o conteúdo. A justificativa era o temor de que falas fossem deturpadas.

POLÊMICA

A discussão em torno da disciplina ganhou destaque há cerca de duas semanas, depois do ministro da Educação, Mendonça Filho, pedir uma apuração para verificar se houve "improbidade administrativa" dos criadores da disciplina.

Para isso, afirmou ter encaminhado à AGU (Advocacia-Geral da União), ao TCU (Tribunal de Contas da União) e ao MPF (Ministério Público Federal) um pedido para avaliar se a universidade pode alocar professores "para promover uma disciplina que não tem nenhuma base na ciência, é apenas a promoção de uma tese de um partido político". 

A medida gerou reações. Em nota, o Instituto de Ciência Política da universidade disse ter recebido a repercussão sobre o tema e a reação do Ministério da Educação com "estranheza". Segundo o instituto, a decisão pela oferta de disciplinas ocorre de forma colegiada. 

"Somos uma comunidade acadêmica bastante produtiva e diversa, que trabalha com temas e perspectivas analíticas plurais e muitas vezes conflitantes entre si, como pensamos que deve ser a Ciência Política e a universidade", informou.

Na última semana, a Comissão de Ética da Presidência da República abriu um processo para verificar se o ministro Mendonça Filho ameaçou a autonomia da UnB ao anunciar recurso contra a disciplina. 

Em meio à repercussão, ao menos outras dez universidades decidiram criar disciplinas ou atividades sobre o "golpe de 2016".

Na UnB, a procura pela disciplina, prevista para ser ofertada todas as segundas e quartas, também cresceu: além das 41 vagas ofertadas, há ao menos 40 alunos na lista de espera.

No início das aulas nesta segunda, ao menos 30 deles estavam presentes.

'ALVOROÇO'

Para o professor Luis Felipe Miguel, existe um "alvoroço artificial" em torno da disciplina.

"É uma aula normal, o que existe é um alvoroço artificial. Vou dar minha aula normalmente, da forma como sempre fiz", afirmou a jornalistas após o fim das aulas. Ele evitou comentar mais sobre o tema. 

Aluna de história, Aline Nóbrega, 34, aprovou a primeira aula -na ementa inicial, a programação previa uma revisão dos conceitos e bibliografia sobre "golpe de Estado", feita com base em um texto de Alvaro Bianchi. 

"Foi mais um apanhado histórico de alguns conceitos. Acho importante, pois as pessoas discutem tanto a palavra [golpe] e não têm esses conceitos básicos do que é golpe e do que ao longo da história essa palavra representa", diz.

Ela elogiou o aviso dado pelo professor de que estava aberto a discordâncias e que estas questões não seriam observadas na avaliação dos alunos, apenas os conceitos dos textos. "Ele deixou bem claro que estava aberto a qualquer oposição de pensamento", disse. 

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