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Pessoas trans  também podem assumir posições de liderança, diz Meredith Talusan

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PATRÍCIA CAMPOS MELLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Liderar uma publicação para o público LGBTQ, feita por jornalistas que vêm das diversas comunidades LGBTQ e que conseguem cobrir questões que afetam essas comunidades com muito mais profundidade e nuance do que alguém que está de fora. Esse é o objetivo de Meredith Talusan, editora transexual da "Them", publicação LGBTQ da Condé Nast.

Em talk show no 2º Encontro Folha de Jornalismo, em comemoração do 97º aniversário do jornal e do lançamento do novo Manual da Redação, Talusan falou sobre a importância de dar oportunidades para pessoas trans. "Dadas oportunidade a pessoas trans, elas também podem assumir posições de liderança", disse Talusan, em conversa com Chico Felitti, repórter do UOL, empresa do Grupo Folha, que edita a Folha de S.Paulo.   

Nascida e criada nas Filipinas, Talusan foi para os EUA aos 15 anos e fez a transição aos 20. Ela fazia um doutorado em Literatura Comparada e preparava-se para uma carreira acadêmica quando "acidentalmente" se tornou jornalista. "Um amigo de faculdade me convenceu a escrever um artigo sobre ser transgênero, o texto fez muito sucesso e, quando vi, estava escrevendo para diversas publicações", diz.

Talusan foi contratada em 2015 pelo BuzzFeed. Como era a única jornalista transgênero da publicação, acabou se transformando na "consultora oficial" para todas as questões relacionadas a pessoas trans. E, segundo ela, havia termos e pressupostos equivocados nas reportagens sobre pessoas trans. "Havia a ideia falsa de que pessoas trans estão presas dentro de seus próprios corpos -e não, nós não sofremos o tempo todo- ou que alguém nasce menino -as pessoas nascem bebês, não temos um homem pronto saindo da vagina da mãe", afirmou.

"Trans são simplesmente pessoas com tipos de experiências diferentes." Além disso, afirmou ela, "em uma redação grande, onde você é a única trans, você passa o tempo todo tentando convencer as pessoas que determinadas matérias relacionadas a pessoas trans são importantes."

Sobrecarregada porque tinha de fazer suas próprias reportagens e olhar as matérias dos colegas, ela resolveu deixar o BuzzFeed e passar a trabalhar como freelancer. Um tempo depois, foi contratada para dirigir a "Them" e lá está implementando sua visão do que deve ser uma publicação para o público LGBTQ. A começar do processo de contratação de pessoas. "Eu contrato pessoas qualificadas, mas minha ideia de qualificação não se limita aos padrões tradicionais", diz. "As pessoas dizem que só contratam pessoas qualificadas, mas essas pessoas sempre têm o mesmo tipo de origem, vêm das mesmas instituições, que muitas vezes discriminam pessoas trans."  

Por isso, Talusan começou a atuar como mentora e deu oportunidade a jovens jornalistas. "Esse é um dos nossos diferenciais, contratamos pessoas da comunidade para falar sobre a comunidade", diz a editora, que ganhou um prêmio por um especial sobre violência contra pessoas trans nos EUA. Um dos trabalhos da "Them" foi uma reportagem sobre o Dia da Ação de Graças, feita por uma jornalista trans indígena -os indígenas americanos consideram que a data marca o genocídio dos povos indígenas nos EUA.

Talusan disse que tenta fazer seu trabalho normalmente, mas entende que carrega uma responsabilidade por ser pioneira, por ser a primeira editora trans de uma publicação do porte da "Them".

"Vou a vários eventos com estudantes, e muitas vezes eles vêm até mim e dizem: 'Eu não sabia que, como transgênero, era possível ter uma carreira de liderança no jornalismo'", contou Talusan. Indagada sobre que pergunta faria para o presidente dos EUA, Donald  Trump, se tivesse a oportunidade, Talusan disse: "Perguntaria o seguinte: uma pessoa que disse estar disposta a atacar fisicamente uma mulher está qualificada para liderar um país onde mais de metade da população é composta de mulheres?"

Ela criticou a decisão do jornal "The New York Times" de contratar uma mulher para ser a primeira editora de gênero do jornal. "Eu me candidatei para o cargo e eles resolveram nem me entrevistar, deram o emprego para uma mulher branca", disse. Por fim, indagada a respeito da polêmica sobre a atleta brasileira Tifanny Abreu, que é trans e teve sua participação na liga feminina de vôlei contestada, Talusan afirmou: "A essência do esporte é a genética, é fazer algo que outras pessoas não conseguem. Se uma pessoa trans é boa em algum esporte, por que não aproveitaria essa oportunidade?"

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