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Cunhada de Sarney sofre derrota inusitada em tribunal no Maranhão

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THAIS BILENKY, ENVIADA ESPECIAL

SÃO LUÍS, MA (FOLHAPRESS) - Em uma demonstração do momento de virada na política maranhense, o Tribunal de Justiça do Estado quebrou uma tradição de décadas e não apontou a desembargadora Nelma Sarney para a sua presidência.

Por ser a mais antiga da corte, a juíza, casada com Ronald, irmão do ex-presidente José Sarney, esperava ser aclamada presidente para o biênio 2018-2019, mas foi surpreendida pela candidatura de José Joaquim Figueiredo dos Anjos, anunciada pouco antes da eleição, em outubro.

Em votação secreta, ele obteve apoio de 16 colegas, ela de dez. Um se absteve.

No último dia 15, durante a cerimônia de posse, o novo presidente do tribunal prometeu fazer uma gestão transparente e citou o governador Flávio Dino (PCdoB), adversário da família Sarney.

"O governador sempre nos trouxe apoio e eu não posso desprezar essas iniciativas", disse Anjos. Presente, Dino defendeu que "cada [Poder] cumpra o seu papel".

Em uma entrevista ao jornal "O Estado do Maranhão", de propriedade da família Sarney, Nelma relatou desapontamento com a disputa interna. "Foram dois meses de muita angústia, porque um momento que poderia ser de consagração, pela regra da tradição, que vem acontecendo há dois séculos no tribunal, será de disputa", afirmou, em outubro. "Nunca pensei que eu fosse passar pelo que estou passando." À reportagem, Nelma disse entender "que só pode haver dois resultados em uma eleição: ganhar ou perder. O mais importante é que a terceira corte de Justiça mais antiga do país continua unida".

"Desejo, com meu apoio e de todos os membros, que o desembargador José Joaquim, juntamente com todos aqueles que recentemente assumiram a missão de dirigir algum órgão da Justiça maranhense, deem continuidade ao processo de modernização dos serviços judiciais."

NEPOTISMO

Ex-presidente do TRE-MA (Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão), em 2009, a desembargadora tem contra si seis processos no CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Em um deles, de setembro, a Corregedoria Nacional de Justiça a questiona por suposto nepotismo ao ter votado na eleição do juiz do TRE-MA na vaga da classe de advogado, em que concorreu Frederico Augusto Costa Lima, sobrinho de seu marido.

A eleição interna foi questionada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) inicialmente porque os outros dois candidatos não se enquadravam nos critérios da disputa, uma por não ter dez anos de advocacia e o outro por ter parentesco com desembargador.

No TSE, o ministro Herman Benjamin, porém, constatou que, na verdade, os três cotados eram inaptos para o cargo por nepotismo —dois sobrinhos e uma filha de juízes.

"É incontroverso que Costa Lima é parente de terceiro grau, por afinidade, da desembargadora Nelma Sarney, a qual participou da escolha do indicado, nele votando. Trata-se de conduta que não pode, em nenhuma circunstância, ser chancelada por esta corte", reagiu Benjamin.

O ministro determinou que o CNJ fosse comunicado, e o caso está em tramitação.

A desembargadora argumentou que "não há relação de parentesco direta com o advogado indicado, mas indireta em razão de matrimônio". Por esse motivo, ela disse, "a indicação não contraria norma do Conselho, na qual o impedimento segue até o 2º grau".

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