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Deputado que mudou de lado relata assédio para apoiar Temer

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DANIEL CARVALHO

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - "O líder do meu partido que me fez vários apelos, veio perguntando o que eu precisava", diz o deputado César Halum (TO), relatando a abordagem do líder do PRB na Câmara, Cleber Verde (MA), para convencê-lo a mudar de ideia e votar a favor do presidente Michel Temer na segunda denúncia.

As ofertas foram além. Halum diz que o líder de seu partido também questionou se o deputado não gostaria de reaver os dois cargos que havia perdido nos Correios e na Secretaria da Pesca, após votar contra Temer na primeira denúncia, por corrupção passiva.

"O meu líder veio me perguntar se eu tinha interesse em voltar os cargos. Eu disse: nenhum. Eu não quero porque, quando eu arrumo emprego para um, dez ficam com raiva de mim porque não coloquei os outros. Nunca fiz política achando que emprego que vai me dar voto", afirma o deputado à Folha.

EMENDAS

O deputado, um dos 251 que votaram contra o prosseguimento desta segunda denúncia, relata também ter sido sondado a respeito da liberação de emendas. Assim como nos outros assédios, garante que recusou.

"Muita gente me procurava [com] negócio de emenda: 'Liberou emenda para você?'. Olha, para mim, escutei muito essa tratativa aí, comigo eu não tenho essa preocupação porque eu não fico procurando nada extraordinário. Tem a lei que diz que eu tenho as minhas emendas impositivas, então paga as minhas. Se não pagar, eu vou no STF [Supremo Tribunal Federal] e faço pagar. É lei, impositiva, né não?", pondera o parlamentar.

Halum foi um dos três deputados que viraram a casaca a favor de Temer na denúncia por organização criminosa e obstrução de Justiça. Mas ele afirma que os motivos que o levaram a rejeitar a denúncia foram outros.

"Não fui no aspecto 'ah, a denúncia não tem consistência, tem, não tem'. Não olhei por este lado. Olhei, no momento agora, qual que era o mal menor. Acho que meu voto define assim: eu votei pelo mal menor. Uma mudança agora seria uma mudança muito grande", afirma o deputado de segundo mandato.

Para atrair votos a favor de Temer, houve promessa até de distribuição de ambulâncias. O presidente barrou esta segunda denúncia por 251 a 233.

MOTIVOS

César Halum diz que os motivos que o levaram a votar a favor de Temer vão da tentativa de evitar "outra bagunça no país" ao apelo do agronegócio e empresários.

"Não votei para proteger denunciado nem gente que praticou ato ilícito não. Nunca defendi nem vou defender. Quem tiver que pagar que vai pagar", afirma o deputado por Tocantins, mas natural de Anápolis (GO).

Ele diz ter votado contra primeiro porque acredita que o STF não concluiria rapidamente o julgamento e Temer poderia retornar ao Palácio do Planalto em abril, a seis meses das eleições presidenciais.

"Era uma outra bagunça no país. Era uma mudança agora e uma daqui a seis meses e isso realmente é muito ruim."

Outro fator que ele afirma ter levado em consideração é que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), próximo na linha sucessória, também é alvo da Lava Jato.

"A esquerda ia ficar 'fora, Maia; fora, Maia'. E o Brasil precisa de um sossego para ver se reorganiza, se recupera", pondera o deputado.

Halum também disse ter ouvido o apelo do agronegócio, setor a que é ligado, segundo ele, por ser médico veterinário. "Sou uma pessoa que tem muita atividade dentro do Estado e o setor do agronegócio me pediu encarecidamente que uma mudança agora seria muito ruim para o setor", explica.

Outro grupo de pressão foi o dos prefeitos -"pessoas que sempre me apoiaram e eu represento".

Quando perguntado por qual razão esses setores não o pressionaram à época na primeira denúncia, respondeu: "Acho que eles deixaram passar batido".

A reportagem procurou o líder do PRB na tarde desta quinta-feira (26), mas ele não respondeu.

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