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Diferenças entre católicos e protestantes vão do celibato à confissão

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EDUARDO MOURA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Reforma Protestante, que completa 500 anos em 2017, provocou um racha no cristianismo e abriu espaço para o surgimento de inúmeras denominações.

Sem ignorar a grande diversidade do mundo protestante, a reportagem elencou algumas das principais diferenças entre católicos e evangélicos.

SALVAÇÃO

Edin Abumanssur, professor de ciência da religião da PUC-SP, diz que a salvação, para os católicos, "dependerá da conduta do cristão", que deve tentar se desviar do pecado.

Já no protestantismo, "uma vez salvo, sempre salvo", diz a antropóloga Lidice Meyer, professora de ciências da religião da Universidade Mackenzie. Mas isso não significa que o crente não deve evitar a transgressão religiosa.

A linha de raciocínio segue um caminho diferente: enquanto no catolicismo são as "boas obras" que levam à salvação, no protestantismo, sobretudo aqueles das igrejas históricas, "as boas obras são frutos dessa salvação" já anteriormente determinada por Deus.

Meyer lembra, no entanto, que algumas igrejas neopentecostais pregam que, dependendo da conduta do crente, pode-se "perder a salvação".

BÍBLIA

O Antigo Testamento dos protestantes possui sete textos a menos do que a versão católica: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus.

A maior parte do Antigo Testamento foi originalmente escrita em hebraico. No século 3 a.C., Ptolomeu 2º do Egito, para engordar sua célebre biblioteca de Alexandria, ordenou a tradução das escrituras para o grego, língua mais "internacional" de sua época. Optou por incluir os sete textos citados acima, possivelmente pelo seu valor histórico. Essa versão acabou sendo adotada pela Igreja Católica.

A leitura de Martinho Lutero, monge que deu início à Reforma Protestante, era de que tais textos não tinham Deus como figura central. A tradição protestante, então, adotou a versão hebraica da Bíblia, com os sete textos a menos.

MINISTÉRIO FEMININO

Segundo Abumanssur, "o protestante afirma e crê no sacerdócio universal, isto é, todos são sacerdotes de si e dos irmãos".

A tradição mais livre de interpretação da Bíblia permitiu que algumas denominações entendessem que mulheres podem ser ordenadas.

Entendimento que é bem posterior a Lutero: a Igreja Luterana da Alemanha nomeou a primeira pastora na década de 1940.

A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil ordena mulheres desde a década de 1970, enquanto a Igreja Evangélica Luterana do Brasil, que pertence a outra vertente, não aceita o sacerdócio feminino.

Igrejas pentecostais e neopentecostais costumam aceitar o ministério feminino. A Assembleia de Deus ordenou sua primeira pastora em 2005. A Igreja Universal do Reino de Deus não admite pastoras.

CONFISSÃO

O sacramento da confissão do catolicismo foi um dos principais pontos criticados por Lutero, que há meio milênio afixou 95 teses na porta de uma igreja de Wittenberg, na Alemanha.

Para os protestantes, todos os crentes têm "livre acesso a Deus", diz Meyer, e portanto não há necessidade de um intermediário na figura de um sacerdote ou de um padre.

PAPA

Nas igrejas protestantes, não há uma figura equivalente à do papa. "É comum haver colegiados", conta Abumanssur.

Lidice Meyer destaca três tipos de governança. Nas igrejas de perfil presbiterial, os fiéis elegem um conselho, os presbíteros. Como exemplo, temos a Igreja Presbiteriana.

As congregacionais entre elas, Igrejas Batistas e Assembleias de Deus possuem uma estrutura descentralizada em comunidades locais "autônomas".

As episcopais possuem uma estrutura piramidal de governo. São as que mais se assemelham à Igreja Católica, nesse aspecto. Neste mesmo grupo, encontram-se tanto a Luterana e a Anglicana quanto a Universal do Reino de Deus e a Renascer em Cristo.

CELIBATO DOS SACERDOTES

Cerca de oito anos após divulgar suas 95 teses, Lutero se casou com a ex-freira Catarina de Bora. Desde então, nas igrejas protestantes, o casamento não é vetado aos sacerdotes.

Edin Abumanssur diz que, como no protestantismo todos têm acesso direto a Deus, não se aceita a ideia de um sacerdote "separado" do restante da população. Portanto, vida mundana e vida religiosa não se contrapõem.

Antes de Lutero, havia sacerdotes casados na Igreja Católica, diz o sociólogo. O Concílio de Trento, conferência eclesiástica católica convocada em meio a um contexto de contrarreação à Reforma, "definiu de uma vez por todas essa questão".

O padre católico deve renunciar à vida mundana para seguir sua vocação e se dedicar exclusivamente à religião.

SANTOS E IMAGENS

As imagens e santos têm uma função pedagógica dentro da Igreja Católica, como se indicassem um exemplo a ser seguido, uma inspiração, diz Abumanssur. Nas reformadas, contudo, a visão é de que essas figuras "podem desviar a devoção".

Meyer conta que a tradição protestante enxerga o culto a imagens e a santos como uma forma de idolatria, ou seja, de que se acaba cultuando as imagens e não a Deus.

Essa rejeição, diz Meyer, só se inicia de fato com João Calvino, fundador da vertente posteriormente ao surgimento do luteranismo e do anglicanismo, cujas igrejas não negam por completo a figura dos santos.

SACRAMENTOS

Apenas dois sacramentos são aceitos em todo o cristianismo: o batismo e a eucaristia (comunhão e santa ceia). De acordo com a tradição protestante, são os únicos que constam na Bíblia e que foram instituídos por Jesus Cristo.

Os reformados seguem a máxima "Sola Scriptura", ou seja, "somente a escritura" e, por isso, rejeitam como sacramento instituições que têm origem anterior ou posterior a Cristo, como é caso do matrimônio, da crisma, da penitência (confissão), da ordem e da unção dos enfermos.

Ao todo, são sete os sacramentos católicos.

BATISMO

Nas igrejas Batistas e pentecostais, o batismo é feito por imersão, ou seja, o fiel é mergulhado em um rio ou piscina.

De acordo com a Bíblia, o batismo de Jesus Cristo foi feito no rio Jordão. Essas denominações interpretam que, por se tratar de um lugar com muita água, Cristo foi mergulhado no rio, diz Meyer.

A Igreja Católica e as protestantes históricas seguem uma tradição da aspersão, em que uma pequena quantidade de água é borrifada ou derramada na cabeça do fiel.

Segundo a antropóloga, há registros de batismos efetuados por Pedro e Paulo em lugares onde não havia água em abundância. Entendeu-se que não havia possibilidade de imersão, dando origem a essa tradição.

EUCARISTIA

Na eucaristia católica, em geral somente o padre bebe o vinho, e todos os fiéis tomam a hóstia.

Na Santa Ceia protestante, pão e vinho têm função simbólica e são compartilhados por todos.

Nas igrejas históricas, em geral passa-se pão e um cálice de vinho de mão em mão.

Nas pentecostais, é comum que se passe uma bandeja com vários pedaços de pão e outra com pequenos copos contendo suco de uva, geralmente.

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