Política

ATUALIZADA - Governo manobra e troca membros de comissão da Câmara

.

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Na tentativa de evitar uma derrota para Michel Temer na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, a base governista remanejou na última semana nada menos que 20 dos membros do colegiado que avalia a denúncia de corrupção passiva que pesa sobre o presidente da República. Dez entraram e dez saíram.

O parecer de Sergio Zveiter irritou correligionários e gerou bate-boca ao fim da sessão, tensa desde o início.

O governo ainda fará novas trocas antes da votação.

Pelos cálculos da oposição, antes das mudanças o governo perderia por 32 a 30. Com as alterações, os adversários do governo dizem que Temer consegue vencer por 38 a 28. O governo estima ter "cerca de 40 votos".

As últimas trocas da segunda-feira (10) foram feitas tão em cima da hora que só houve tempo para registrá-las à mão na listagem oficial.

Foi à caneta que o PR oficializou quatro alterações. O deputado Delegado Waldir (PR-GO) revoltou-se e disparou contra o partido, contra o governo e contra Temer. Sacado da comissão que integrava havia dois anos, gritava chamando o partido de "vendido" e "cambada de bandido".

"Este governo é bandido, é covarde", bradou. "Cambada de bandido! Está tudo grudado no saco do governo! Quem manda é o Temer, esse bandido! É um lixo de governo! Quadrilha organizada!", vociferou.

"Queria dizer que a organização criminosa que está no Planalto não vai se sustentar, vai cair."

O deputado Major Olímpio (SP), que já havia reclamado no final de junho por ter sido tratado como "corno", o "último a saber", quando removido do posto de titular da CCJ por sua legenda, o Solidariedade, deu apoio ao colega deputado.

"É a primeira vez que temos um presidente criminoso para ser apreciado", afirmou Olímpio.

Foi vaiado pelos governistas e reagiu. "Quem está vaiando está recebendo para vaiar, tem carguinho para vaiar", rebateu.

A oposição pediu a anulação das trocas, mas não foi atendida.

As manobras na Comissão de Constituição e Justiça mostram que o governo será alvo de grande infidelidade na votação da denúncia no plenário da Casa.

Para que o Supremo Tribunal Federal seja autorizado a analisar a denúncia, é preciso, nessa votação, do apoio de pelo menos 342 dos 513 deputados.

ESTRATÉGIA

O tom adotado pelo relator irritou e surpreendeu Temer. Em conversas reservadas, disse que esperava que o parecer fosse desfavorável a ele, mas que não que rebatesse diretamente o seu discurso contra a denúncia.

Na leitura, Zveiter contestou termos como "inepta" e "fantasiosa", ambos utilizados pelo próprio presidente para atacar a acusação que foi apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

"O relator foi mais político que técnico e isso acabará por favorecer o presidente", disse à reportagem o ministro Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo).

Para evitar que o tom do relatório tenha impactos no voto de indecisos, o Palácio do Planalto acusa o relator de ter atuado com propósitos políticos, sem levar em conta aspectos técnicos da denúncia, tentando se projetar politicamente.

O roteiro foi seguido à risca logo após a leitura do parecer. A tropa de choque do Planalto adotou os mesmos argumentos da defesa.

O trabalho dos aliados é para evitar um envolvimento direto do presidente.

A avaliação é de que um embate do peemedebista com o relator poderia prejudicar a conquista de votos para a fase seguinte da denúncia, a análise no plenário da Câmara dos Deputados.