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Santana afirma que Dilma indagou se depósitos ocorriam 'de forma segura'

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LETÍCIA CASADO, CAMILA MATTOSO E RUBENS VALENTE

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em depoimento gravado no acordo de delação premiada fechado com o Ministério Público Federal, e tornado público nesta sexta-feira (12), o marqueteiro João Santana afirmou que a ex-presidente Dilma Rousseff (2011-2016) lhe indagou se depósitos estavam sendo feitos "de forma segura".

De acordo com Santana, naquele momento o executivo Marcelo Odebrecht estava lançando ameaças de que poderia acusar a campanha presidencial de Dilma porque depósitos para Santana foram feitos pela Odebrecht em esquema de caixa dois, no exterior, por meio de uma offshore do marqueteiro.

"Ela [Dilma] me perguntou: 'João, os depósitos são feitos de forma segura?' -eu já me referi sobre isso ontem. Eu disse que sim, eu não estava enganando", afirmou Santana.

"Porque, primeiro, era uma offshore que nós tínhamos. Segundo, eu não imaginava que a Odebrecht tivesse esse emaranhado, esse gigantesco esquema, e desarticulado, e com utilização dessa maneira, e que hoje está claro".

Eu imaginava que fosse uma coisa quase exclusiva conosco nesse aspecto. Não imaginava que tinha outros políticos recebendo nem outros marqueteiros", complementou.

Leia a seguir trechos do depoimento gravado em vídeo:

Procuradora - Senhor João, com relação ao conhecimento dos candidatos Lula e Dilma nas campanhas presidenciais, sobre o caixa dois, eles tinham conhecimento dos pagamentos feitos através do caixa dois?

João Santana - Sim, ao longo da convivência do trabalho, ficou claro que sim. No início surgia apenas como indícios, mas depois se comprova isso inclusive através de abordagens diretas com ele sobre esse tema. Indícios, só para recordar dois, por exemplo, toda vez nas negociações da campanha de reeleição de Lula [em 2006] e na campanha de Dilma [2010], que Palocci sentava com Monica para negociar valores, ele nunca dava a palavra final na mesa, porque dizia 'olha, a palavra final tem que ser do chefe'.

No caso, o chefe era o presidente Lula. Nas duas campanhas. E óbvio, se todo acordo de Palocci já previa um percentual de pagamento por fora, obviamente que os candidatos sabiam disso também.

Outro indício: quando havia grandes atrasos e o poder e a eficiência dos apelos de Monica não funcionavam, e eu tinha que acender aquilo que nós nos referimos como "alerta vermelho", eu tratava diretamente com o candidato. Tratei com o presidente Lula especificamente no final do primeiro turno e na passagem do primeiro para o segundo turno. É importante falar sobre esse momento porque é quando nós temos o poder de fogo, de barganha, porque é final de uma campanha ou a passagem de segundo turno. E eu falei especificamente, "tem atrasos", e ele sabia realmente qual era o procedimento do atraso. Até porque também ele, todo candidato -e isso eu via dentro do comitê- tem o borderô dos informes oficiais do TSE, dos pagamentos regulares que são feitos, que são declarados e publicados no "Diário Oficial".

Então ali eles poderiam ver que os pagamentos feitos para minha empresa estavam em dia, os pagamentos oficiais. Até porque os partidos não podem, sofrem de constrangimento quando atrasam esse pagamento. Então obviamente ele sabia ao que eu estava me reportando.

Procurador - Sabia que o que estava atrasado eram os pagamentos...

Santana - [concordando] Eram o pagamento do caixa dois.

Procurador - Outra pergunta, ele sabia o montante total das campanhas pago de forma oficial e não oficial?

Santana - Eu imagino que sim, porque Palocci negociava e ele próprio sugeria, ou determinava, melhor dizendo, determinava: 'Olha, vamos pagar. Pagar oficialmente por aqui e tem que ser uma parte por caixa dois'. [...]

Mas voltando à questão. A primeira abordagem também direta e mais crucial com o presidente Lula que eu tive sobre caixa dois foi no episódio que me referi no "Anexo 5", da ajuda para campanha de El Salvador, a campanha de Mauricio Funes, quando eu trouxe o recado, no final da campanha deles, de que precisava de dinheiro e o presidente Lula mandou que eu procurasse o Emilio Odebrecht.

Isso como já foi [falado aqui], não precisa [continuar].

Com a presidente Dilma, eu abordei diretamente o tema em várias oportunidades, especialmente durante o seu primeiro mandato porque já tínhamos uma relação mais de confiança. Por exemplo, no primeiro semestre de 2004, perdão, 2014, quando eu me queixei de um atraso da outra campanha -já haviam pagamentos sendo feitos, eu acho, inclusive, algumas parcelas já tinham sido feitas pelo [lobista] Zwi, da dívida antiga, mas ainda tinha, ficaram dívidas que não foram pagas- ela disse: 'Olha, eu quero primeiro lhe tranquilizar em relação à campanha de 014. Eu estou criando um sistema que você, pela primeira vez, poderá ser pago até antecipadamente'.

Procurador - O que ela quis dizer com 'estou criando um sistema'?

Santana - Que ela estava... ela assumiu o controle da gestão financeira, pelo menos no que diz respeito, eu imaginava e acho que sim, ao marketing, e que isso dava garantia. E era um valor de algo em torno de [R$] 35 milhões. E ela foi quando ela disse que quem ia cuidar disso era o ministro Guido Mantega.

Procurador - Você chegou a expor para ela o valor qual era?

Santana - Isso Monica [fez], depois, na sequência estou resumindo, para não ser tão... o valor de 35 milhões. E houve um compromisso de Guido Mantega de pagamento de 35 milhões, que seria feito através...

Procurador - [interrompendo] Só voltando, essa nova gerência, agora, novo sistema que ela falou, o que era, o que que mudava isso? Primeiro a entrada do Guido Mantega...

Santana - Primeiro que Vaccari, o PT e o Vaccari não fariam parte mais disso. Era o Guido e acho que sob o controle direto dela. E isso daria tranquilidade pra gente, de pagamento. Só que infelizmente...

Procurador - [interrompendo] Apesar disso, na prática, o Vaccari continuou tratando.

Santana - Não aconteceu. Só que o Vaccari estava tratando, salvo engano, do passivo, daquelas dívidas. E paradoxalmente, ou ironicamente, apesar de todo esse compromisso, não se realizou. Porque essa conversa foi no primeiro semestre, tipo maio de 2014, era para entrar o dinheiro, e o Guido não conseguiu viabilizar, não sei por qual motivo...

Procurador - [interrompendo] Então essa nova sistemática não foi nada paga?

Santana - Foi paga uma parte mas não com a presteza e a antecipação que havia sido garantida.

Procurador - Providenciada pelo Guido.

Santana - Providenciado pelo Guido; Só para dizer que voltei a tratar desse tema novamente com a presidente. Infelizmente, aquele compromisso não foi honrado'. [Disse:] 'Não, eu vou ver';. E terminou ficando uma coisa que não se resolveu plenamente. Outra vez que o tema caixa dois tratado com a presidente, já foi quando ela me abordou primeiro sobre a segurança dos depósitos ela se referia a outros depósitos se foram feitos de forma segura. É quando Marcelo Odebrecht estava começando a mandar recados. Que haveria vazamentos se a Lava Jato não fosse sustado e a escândalo ia chegar porque ia me atingir. Foi quando ela novamente tratou do tema. Ela me perguntou: 'João, os depósitos são feitos de forma segura?' -eu já me referi sobre isso ontem. Eu disse que sim, eu não estava enganando. Porque primeiro, era uma offshore que nós tínhamos. Segundo, eu não imaginava que a Odebrecht tivesse esse emaranhado, esse gigantesco esquema, e desarticulado, e com utilização dessa maneira, e que hoje está claro. Eu imaginava que fosse uma coisa quase exclusiva conosco nesse aspecto. Não imaginava que tinha outros políticos recebendo nem outros marqueteiros.

Santana - Com o presidente Lula, tem uma coisa interessante também. De uma forma bem humorada, ele, a partir das minhas queixas do atraso, ele de vez em quando se encontrava comigo, durante muito tempo, e aí me perguntava: 'E aí, os alemães têm lhe tratado bem?' Os alemães no caso era a Odebrecht. Era uma forma que ele queria demonstrar, bem humorada e carinhosa comigo, de que ele estava preocupado e que queria ajudar no pagamento. Então isso virou um jargão, de vez em quando ele brincava comigo. Então esse é outro... Não é mais indício, foi um tratamento direto desta questão.

Procurador - Alguma vez o senhor, frente a uma pergunta dessa, mencionou o atraso no pagamento?

Santana - Sim, eu sempre... Como era uma forma descontraída e bem humorada, e eu queria também ser gentil e carinhoso com ele, [dizia] 'Um pouco, mas sempre com problemas'. [Ele dizia] 'Vamos ver, vamos ver'.

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