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Odebrecht também teria pago propina ao setor privado

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ITALO NOGUEIRA

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O "departamento da propina" da Odebrecht não teria sido usado só para beneficiar agentes públicos. Executivos declararam em delação que também fez pagamentos irregulares ao setor privado. Os beneficiários teriam sido representantes da Santa Casa do Rio e da Light, além de um advogado e um empresário.

A tratativa mais trabalhosa, de acordo com os relatos, ocorreu junto a Dahas Zarur, ex-provedor da Santa Casa morto há dois anos. Ele teria cobrado R$ 2 milhões para assinar um contrato de venda de terrenos em Botafogo que já havia sido aprovado pelo órgão colegiado da instituição. Recebeu o codinome de "Gás Sagrado" da empresa.

"Sagrado por causa da Santa Casa. Gás porque o dr. Zarur, apesar de ter 80 e tantos anos, tinha um gás para o trabalho... Chegava cedo, saía tarde", disse Antônio Pessoa de Souza Couto, diretor-superintendente da Odebrecht Realizações no Rio.

De acordo com ele, a proposta da empresa foi aprovada em março de 2007, mas Zarur postergou a assinatura do contrato. Mais de um mês depois, ele solicitou a propina.

O primeiro pagamento teria ocorrido em setembro de 2013, quando o empreendimento não havia saído do papel. A parcela inicial teria sido quitada próximo do afastamento de Zarur do comando da Santa Casa, sob suspeita de transações irregulares de imóveis da instituição.

Esta negociação gerou outro pagamento por meio do caixa dois da empresa. O advogado José Pontes foi contratado, segundo Couto, para garantir os interesses da Odebrecht nos processos de encerramento de contrato dos locatários que ocupavam os imóveis vendidos pela Santa Casa à empreiteira.

De acordo com o executivo, ele recebeu R$ 1,05 milhão em dinheiro sem emissão de nota fiscal. Recebeu o apelido de "Japonês Voador".

A empresa também declarou ter pago propina a um ex-executivo da Light para reduzir em R$ 8 milhões dívida que a Supervia (concessionária dos trens do Rio controlada pela Odebrecht) tinha com a concessionária de energia.

Carlos José Machado da Cunha, ex-presidente da Supervia, disse que um prestador de serviços da empresa afirmou que poderia ajudar a reduzir a dívida, que somava R$ 65 milhões, mediante R$ 2 milhões em propina.

Em depoimento, Cunha disse crer que o contato deste intermediário era o ex-diretor da Light Ziza Valadares.

Os três almoçaram juntos durante a negociação, mas não falaram sobre a propina. O executivo, contudo, interpretou o encontro como uma forma de demonstrar o relacionamento entre os dois.

Outro pagamento via caixa dois em negociação privada teria sido feito para Plínio Serpa Pinto, dono da Patrimóvel em Niterói. Teria recebido R$ 500 mil em comissão pela venda de apartamentos num empreendimento da Odebrecht. Sob o codinome "Terra", teria recebido os recursos em 2012 "por fora".

OUTRO LADO

A Light declarou que uma análise interna não constatou "qualquer irregularidade" nos contratos com a Supervia. "A dívida da Supervia com a Light ultrapassa R$ 50 milhões. A Light está tomando todas as medidas judiciais cabíveis para que a referida concessionária cumpra com suas obrigações e pague essa dívida", disse em nota.

Pinto afirmou que declarou "com atraso" os R$ 500 mil recebidos da Odebrecht à Receita. "Paguei [o imposto] com multa e juros. Fiz a retificação e o imposto foi recolhido fora do prazo. Se fizerem a investigação, vão identificar isso".

O advogado Jonas Lopes não retornou à reportagem. Dahas Zarur morreu em 2014. Seu antigo advogado Fernando Thompson, disse não ter elementos para comentar o caso.

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