Política

Aécio avisa que não vai intervir na disputa entre tucanos de SP

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DANIELA LIMA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em meio à mais aberta disputa já travada por líderes do PSDB de São Paulo pela vaga de candidato da sigla à prefeitura da capital, o presidente nacional da legenda, senador Aécio Neves (MG), avisou que não vai fazer qualquer tipo de intervenção e que entende que o caso deve ser resolvido nas instâncias locais do partido.
A legenda mergulhou numa profunda cisão durante o processo de eleição interna do candidato. De um lado, apoiado publicamente pelo governador Geraldo Alckmin, está o empresário João Doria. Do outro, com o suporte do senador José Serra e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o vereador Andrea Matarazzo.
Doria largou na frente na primeira etapa da disputa, mas é acusado de ter comprado o voto e custeado o transporte de militantes às zonas de votação. Apoiadores de Matarazzo e do deputado Ricardo Trípoli (PSDB-SP), que participou da etapa inicial da eleição mas ficou fora do segundo turno, chegaram a formalizar a queixa contra Doria e acusaram o empresário de abuso de poder econômico.
O processo terá de ser apreciado pelo diretório municipal do PSDB paulistano, mas dirigentes da sigla já supõem que a contenda se arrastará até o diretório nacional, sob a alçada de Aécio.
Procurado pelos dois candidatos que restaram na disputa, o senador tem dado sinais de neutralidade e apontou que não fará qualquer intervenção, ainda que o caso seja levado a ele. "Existe preocupação para que o partido possa sair das prévias unido. Para vencer a eleição é preciso ter unidade. A solução para isso deve ser encontrada por São Paulo", afirmou Aécio.
2018
O empenho pessoal de Alckmin para emplacar seu candidato nas eleições municipais tem como pano de fundo o anseio do governador em concorrer à Presidência da República em 2018.
Hoje, o PSDB tem três nomes para a próxima disputa presidencial: Alckmin, Aécio e o senador José Serra (SP).
Nesse cenário, o próprio Doria passou a vincular seu desempenho à eleição nacional. Diz que sua candidatura é o primeiro passo para levar o governador ao Planalto. O empresário ainda fez críticas veladas a Serra, que há anos divide com Alckmin o controle do PSDB no Estado, insinuando que o tucano não soube administrar as disputas das quais participou porque deixou dívidas de campanha.
Procurado, Serra não quis comentar o assunto. Nos bastidores, no entanto, o tom das discussões têm preocupado cardeais da legenda.
Alarmado, FHC chegou a conversar sobre o assunto com Alckmin. Soube depois que o governador havia dito que ele não tem mais "nem um voto", como uma forma de desqualificar sua intervenção. FHC, então, enviou um recado. Disse que podia não ter voto, mas que ainda tinha "prestígio" não só no PSDB, como no meio artístico e empresarial.
Alckmin também subiu o tom das críticas publicamente. Questionado, disse que as acusações de irregularidade na pré-campanha de Doria eram "ridículas".
"O problema é que ainda não estamos acostumados com essa disputa democrática. Estamos acostumados a 'partido-cartório', de livro de ata, que decide o candidato em mesa de restaurante, com vinho importado", concluiu.
A fala foi uma referência a um jantar, em fevereiro de 2006, do qual participaram FHC, Aécio, Serra e o hoje senador Tasso Jereissatti (CE). Na época, Alckmin era pré-candidato à Presidência e ficou de fora do encontro. Serra também manifestava disposição em disputar o Planalto.
Aliados do senador paulista devolveram a provocação, lembrando que, meses depois desse encontro, Alckmin foi escolhido candidato da sigla à Presidência em um outro jantar, esse na casa de Jereissatti, envolvendo os mesmos quatro personagens.