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comandava cartel, diz executivo que virou delator

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MARIO CESAR CARVALHO, GRACILIANO ROCHA E FLÁVIO FERREIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O executivo Augusto Mendonça Neto, diretor da Setal que se tornou delator na Operação Lava Jato, disse em audiência na Justiça federal do Paraná que a Odebrecht comandava o cartel de empresas que dividiam obras da Petrobras.
"A Odebrecht, pelo peso e importância, tinha uma voz predominante no grupo. Quando ela queria alguma coisa, era muito difícil que aquilo não fosse feito daquela forma. Se ela não quisesse, isso certamente não seria feito", declarou ao juiz Sergio Moro.
Ainda segundo ele, "as empresas escolhiam as suas preferências, e as demais apresentavam preços superiores".
Mendonça citou como exemplo do poder da Odebrecht o fato de a empreiteira ter conseguido dois dos maiores contratos da refinaria Abreu e Lima. Por meio de consórcios, a Odebrecht obteve em Abreu e Lima negócios que somam R$ 4,67 bilhões.
O executivo da Setal contou que o ex-diretor da Odebrecht Márcio Faria participava das reuniões em que as empresas discutiam como seriam divididas entre elas as obras da Petrobras.
Para Mendonça, as empresas pagavam propina porque temiam retaliações dos diretores da Petrobras. "Pagavam [suborno] porque a capacidade de um diretor de atrapalhar é muito grande. Todas as empresas tinham medo de não pagar".
O dirigente da Setal diz que sofreu ameaças do deputado José Janene (PP-PR), que indicou Paulo Roberto Costa para a diretoria de abastecimento da Petrobras e cobrava propina das empresas que eram contratadas pela estatal. Mendonça diz que foi ameaçado por Renato Duque e Pedro Barusco, diretor e gerente da diretoria de Serviços da estatal. Ambos disseram, segundo o executivo, que sem suborno o contrato não seria assinado.
O diretor diz que a divisão de obras beneficiou a Setal em duas obras: as das refinaria Getúlio Vargas, no Paraná, e de Paulínia, em São Paulo.
PAGAMENTOS NO EXTERIOR
Funcionário de Alberto Youssef, Rafael Angulo López voltou a dizer que entregou números de contas no exterior para que Alexandrino Alencar, um dos executivos do grupo Odebrecht presos desde junho, realizasse depósitos a pedido do doleiro.
Segundo López, houve entre 10 e 15 encontros em escritórios da Braskem (petroquímica do grupo) e da própria Odebrecht, em São Paulo, de 2008 a 2013. A defesa de Alexandrino recusou-se a fazer perguntas à testemunha de acusação porque não teve acesso à íntegra de todos os depoimentos de López.
Parte deles permanece em segredo de Justiça porque integra inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal para apurar se políticos com foro privilegiado receberam propina com origem no esquema de corrupção da Petrobras.
CASTELO DE AREIA
Em depoimento na mesma ação penal, o ex-presidente da construtora Camargo Corrêa, Dalton Avancini, disse que o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque criou dificuldades para a assinatura de um contrato vencido pela empreiteira na obra da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, com o objetivo de pressionar pelo pagamento de propina.
Segundo Avancini, Duque chegou a citar até mesmo o fato de a construtora estar sendo investigada em uma operação da Polícia Federal como um entrave para a assinatura do contrato.
À época, a Camargo Corrêa era alvo da operação Castelo de Areia (desencadeada em 2009), que investigou supostos crimes financeiros e de fraude a licitação cometidos pela empreiteira. A operação foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça sob a justificativa de que a apuração policial começou apenas a partir de uma denúncia anônima.
OUTRO LADO
Procurada, a Odebrecht informou, por meio de nota, que "as manifestações das defesas do executivo e dos ex-executivos da Odebrecht se darão nos autos do processo".
Em ocasiões anteriores, o conglomerado sempre negou categoricamente ter participado de cartel e de ter feito pagamentos de suborno a funcionários ou ex-executivos da Petrobras.
A reportagem não conseguiu fazer contato com a defesa de Renato Duque na noite desta segunda-feira (31).

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