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Doleiro ligou Eduardo Cunha à propina em navios contratados pela Petrobras

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AGUIRRE TALENTO, ANDREIA SADI, CATIA SEABRA, DIMMI AMORA, GABRIEL MASCARENHAS, MÁRCIO FALCÃO, RUBENS VALENTE E SEVERINO MOTTA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O doleiro Alberto Youssef vinculou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao suposto recebimento de propinas pagas ao PMDB pelo executivo Julio Camargo em torno de contratos fechados na diretoria internacional da Petrobras para fornecimento de navios-sondas à estatal do petróleo.
A pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o ministro relator dos casos derivados da Operação Lava Jato no STF, Teori Zavascki, determinou a abertura de inquérito para investigar o presidente da Câmara.
Segundo o depoimento prestado em outubro passado no acordo de delação premiada, cujo conteúdo foi divulgado nesta sexta-feira (6), Youssef afirmou que os pagamentos de Julio Camargo para Eduardo Cunha eram feitos por meio do lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, que "representava" Cunha, segundo o doleiro, e também "representava ao PMDB no âmbito da Petrobras, isto é, era o operador do PMDB" tanto quanto o próprio Youssef era "o operador do PP".
O doleiro afirmou que Baiano fez a "junção" do PMDB, "tanto da Câmara Federal quanto do Senado Federal, com Paulo Roberto Costa", o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras.
O dinheiro, segundo o doleiro, era pago pela empresa que venceu os contratos na Petrobras, a Samsung. Após o fechamento dos contratos, porém, a Samsung "suspendeu os pagamentos feitos a Camargo no exterior".
Em efeito cascata, Julio Camargo também "deixou de repassar tal dinheiro a Fernando Soares". Nesse momento, afirmou Youssef, o deputado Cunha "realizou uma representação perante uma comissão na Câmara dos Deputados, e nela pediu informações junto à Petrobras acerca de [empresas] Mitsui, Toyo e Julio Camargo".
A representação, segundo Youssef, "na realidade isso foi um subterfúgio para fazer pressão em Julio Camargo a fim de que este voltasse a efetivar os pagamentos Fernando Soares que, por sua vez, os repassaria ao PMDB". Em outro depoimento, Youssef disse que a ação no Congresso foi feita "por intermédio de dois deputados do PMDB", cujos nomes não foram citados.
Após a medida tomada pelo parlamentar, disse Youssef, Camargo decidiu fazer os pagamentos por conta, repassando R$ 6 milhões a Baiano "por intermédio" do próprio doleiro.
Até aqui, sabia-se que Cunha havia sido citado pelo policial federal Jayme Oliveira, o "Careca", como tendo recebido dinheiro numa casa no Rio - depois o policial, em outro depoimento, manifestou dúvida sobre a identidade de Cunha. Os novos documentos, porém, revelam que as citações ao deputado federal na Lava Jato são mais amplas, relacionando-o diretamente ao suposto recebimento de propinas.
Na petição protocolada no STF, Janot ponderou que "embora não tenha como precisar neste momento se os valores mencionados nos termos em questão foram entregues diretamente" a Cunha, "fato é que o colaborador Alberto Youssef reiterou, e com razoável detalhamento, que Eduardo Cunha era beneficiário dos recursos e que participou de procedimentos como forma de pressionar o restabelecimento do repasse dos valores que havia sido suspenso, em determinado momento, por Júlio Camargo".
A PGR mencionou ainda "vultosos valores recebidos por Eduardo Cunha (em princípio como 'doações oficiais') de várias empresas que já se demonstrou estarem diretamente envolvidas na corrupção de parlamentares (especialmente em período prévio às eleições), reiterando-se que uma das formas de pagamento de propinas (anteriormente detalhado) era exatamente a realização de várias doações registradas 'oficialmente' aos diretórios dos partidos (que depois repassavam aos parlamentares)".
Segundo a PGR, Cunha recebeu em sua campanha R$ 500 mil da construtora Camargo Corrêa na campanha eleitoral de 2010 e o comitê financeiro do PMDB R$ 1,8 milhão na eleição do mesmo ano.

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