Política

Unifrango falta a reunião e deixa vereadores revoltados

Da Redação ·
Vereadores e outras lideranças aguardaram na manhã desta sexta Domingos Martins, da Unifrango, que não apareceu
fonte: Divulgação
Vereadores e outras lideranças aguardaram na manhã desta sexta Domingos Martins, da Unifrango, que não apareceu

Desrespeito. Foi com esta palavra que o vereador Aldivino Marques, o “Val” (PSC), classificou a atitude da direção do Grupo Unifrango, de não ter comparecido nesta sexta-feira (19) à reunião marcada para as 8h30 na Câmara Municipal.

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A reunião tinha como tema o início das obras do complexo industrial da Unifrango em Apucarana. O atraso vem se arrastando desde março de 2007, quando da assinatura do protocolo de intenções entre a empresa e a Prefeitura. Os vereadores esperaram até 9h30, quando o presidente da Câmara, Mauro Bertoli (PTB), ligou para o presidente do Grupo Unifrango, Domingos Martins. Segundo Bertoli, o empresário alegou que alguns documentos para a prestação de contas não chegaram a tempo e pediu que nova reunião fosse agendada para a semana que vem.


“A própria Unifrango está tornando esse processo insustentável, na medida em que não dá o devido respeito à Câmara e aos vereadores, representantes eleitos pelo povo”, assinalou Val, autor do requerimento que desencadeou na reunião. “A Unifrango recebeu 15 alqueires do município na saída para Califórnia, além de outro terreno com cerca de 20 mil metros quadrados na área central.

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O município investiu ainda cerca de R$ 1 milhão em terraplenagem. Somados, Apucarana já investiu neste projeto da Unifrango mais de R$ 2 milhões, sendo que até agora a empresa não colocou sequer um tijolo na área recebida”, disse Val. Segundo ele, é preciso que a direção da empresa venha com uma boa explicação sobre o atraso de quase quatro anos ou que se inicie o processo para a devolução das áreas doadas. “O projeto que chegou à Câmara falava em investimentos da ordem de R$ 40 milhões e na geração de 2 mil empregos, por isso teve o aval dos vereadores. Mas o que se vê hoje é uma enrolação que ninguém suporta mais”, acrescenta Val.


Para ele, é preciso rever todo o projeto. “Da última vez que esteve na Câmara, Domingos Martins disse que na área de 15 alqueires só dá para construir um centro de distribuição, com capacidade para gerar 120 empregos, descartando, portanto, o abatedouro e a fábrica de ração que gerariam outros 1,8 mil empregos. Se isso for verdade, o município pode estar investindo mais de R$ 2 milhões num projeto que vai gerar 120 empregos, quando poderia dividir aquela área e doar para pequenas e médias empresas, gerando dez vezes mais postos de trabalho”, acrescentou Val.


Outro vereador que se irritou com a ausência de Domingos Martins foi Alcides Ramos (DEM). “Há mais de 100 pedidos para instalação de empresa em Apucarana, porém o município não dispõe de terreno. Enquanto isso, a Unifrango tem há quatro anos o direito de usar 15 alqueires na saída para Califórnia e outros 20 mil metros na área central, não faz nada e nem comparece à Câmara para dar satisfações. É um desrespeito. Nós devíamos iniciar os trâmites para ter os terrenos de volta e não perder mais tempo”, disparou.

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Mesmo relutando, os vereadores acataram sugestão de Mauro Bertoli e agendaram outra reunião para a próxima terça, no mesmo horário. Júnior Serea, representante o Observatório Social da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Apucarana (ACIA), alertou para o fato de alguns documentos que deram sustentação à transação entre Unifrango e Prefeitura estarem vencidos ou em fase de vencimento. Também participaram os vereadores Valdir Frias (PTB), Carmelo Ribeiro (PR), Luiz Brentan (PSDB), Telma Reis (PMDB) e Lucimar Scarpelini (PP), além do secretário de Indústria, Comércio e Agricultura, Ivo Martins.


Em janeiro de 2002, também na gestão do ex-prefeito Valter Pegorer, Apucarana recebeu a notícia de que a francesa Doux Frangosul, que havia faturado R$ 920 milhões em 2001 no Brasil, ia instalar em Apucarana a sua sexta unidade de abate de aves no país.
 

O diretor-presidente da Doux Frangosul, José Augusto Lima de Sá, disse que o Paraná tinha vantagens, como a grande oferta de milho e soja, além da estrutura portuária. E Apucarana, por estar no Norte do Estado, tinha ainda a vantagem da proximidade com São Paulo - grande centro consumidor - e a malha rodoviária favorável. Muito antes de a Frangosul ter batido o martelo, a administração municipal saiu propagando por todos os cantos que o investimento em Apucarana era líquido e certo, contando também como trunfo o apoio do governo Jaime Lerner. O município chegou a adquirir uma extensa área de terras para o empreendimento. Tudo acabou em nada, servindo o fato apenas para discursos e exploração política.
 

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Cinco anos depois, o receio de vereadores, empresários e representantes de outros segmentos é de que a mesma história se repita com a Unifrango. Uma nota produzida pela própria assessoria de imprensa da Unifrango, quando da assinatura do protocolo de intenções entre Prefeitura e a empresa, em março de 2007, dizia que o investimento de R$ 40 milhões ocorreria em duas etapas. “A primeira fase prevê a aplicação de R$ 10 milhões na construção de um centro de distribuição, que contará com armazéns frigorificados com capacidade de 25 mil toneladas e um terminal ferroviário para movimentação de mercadorias.

Nesta fase, serão criados 120 empregos diretos. A expectativa é que a implantação esteja concluída no primeiro trimestre de 2008”, dizia a nota, reproduzida em vários jornais e sites do agronegócio.
Prossegue a nota, afirmando que “a segunda etapa terá como objeto a construção de um abatedouro de frangos de corte e vai receber R$ 30 milhões em investimentos, viabilizando a criação de 1,8 mil postos de trabalho diretos. Para o presidente da Unifrango Agroindustrial, Domingos Martins, as novas instalações vão permitir em um primeiro momento ampliar a capacidade de armazenagem do segmento avícola no Paraná, hoje estimada em três dias de produção”.


O mesmo Domingos Martins, porém, esteve no primeiro semestre deste ano na Câmara e disse aos vereadores que a área doada, de 15 alqueires, só é suficiente para a implantação do centro de distribuição, descartando a possibilidade de se fazer ali o abatedouro. “Nós queremos que sejam apuradas as responsabilidades, pois o município tem hoje um investimento de pelo menos R$ 2 milhões travados neste projeto”, afirma o vereador Aldivino Marques, o “Val”, que vai convidar também o promotor de Defesa do Patrimônio Público, Eduardo Cabrini, para estar presente na reunião de terça-feira.