Política

Quem grampeia presidente em outros países vai preso, afirma Dilma

Da Redação ·
 relator Jovair Arantes (PTB-GO) afirmou que há indícios gravíssimos de prática dolosa da presidente da República (Fotos Públicas)
relator Jovair Arantes (PTB-GO) afirmou que há indícios gravíssimos de prática dolosa da presidente da República (Fotos Públicas)

KLEBER NUNES, ENVIADO ESPECIAL
FEIRA DE SANTANA, BA (FOLHAPRESS) - Em sua primeira viagem após o acirramento da crise política nesta semana, a presidente Dilma Rousseff criticou ter tido sua conversa com Lula divulgada e afirmou que, em outros países, quem faz isso vai preso.

"Essa conversa [de Dilma com Lula] apareceu gravada, grampeada, e ai é um fato grave. Grampo na Presidência da República ou para qualquer um de vocês não é algo licito. É algo ilícito. E é previsto como crime na legislação. O grampo à minha pessoa não é por ser eu, Dilma, é por eu ser presidenta", afirmou a presidente, que participa de cerimônia de entrega de unidades habitacionais em Feira de Santana (BA) pelo programa Minha Casa, Minha Vida.

Segundo ela, o cargo de presidente não é passível de grampo e a medida fere a lei de segurança nacional. "Em muitos lugares do mundo, quem grampear um presidente vai preso. Se não tiver autorização judicial da Suprema Corte. Vou dar um exemplo para vocês: grampeia o presidente da República nos Estados Unidos e veja o que acontece com quem grampear. É por isso que eu vou tomar todas as providencias cabíveis nesse caso."

A petista disse que vai agir para evitar que as pessoas percam os direitos de cidadania no país. Por isso, disse ela, "é importante a gente não voltar atrás na história". "Não sei se vocês sabem, mas nos anos 20 do século passado, como é que funcionava a polícia. Aqui no Estado da Bahia e em todo o Brasil. A polícia prendia não porque aquele ou aquela estavam cometendo delito, mas prendiam para seguir interesses dos coronéis. Como funcionavam os juízes? Também prendiam para satisfazer os interesses dos grandes proprietários e das grandes fortunas desse país.

"Nós, que lutamos pela democracia, e quero dizer para vocês, e quero dizer a vocês, que lutei pela democracia. Sou presidente da República hoje, mas nos anos 70 fiquei três anos na cadeia, porque naquela época ninguém podia ser contra, se manifestar contra, dizer o que pensa. Hoje nós podemos."

Segundo ela, é uma "volta atrás na roda da história a politização" da Justiça e da polícia.
Em Feira de Santana, Dilma participou de entrega simultânea de imóveis também em Itabuna (BA), Suzano (SP), Itapeva (SP) e Teresina (PI).

Ao chegar ao conjunto residencial, Dilma foi saudado por presentes ao evento com os gritos "Não vai ter golpe", "Olê, olê, olê, olá, Dilma, Dilma" e "Lula, guerreiro do povo brasileiro".

NAZISMO - Em discurso antes de Dilma, o governador Rui Costa (PT) disse prestar solidariedade em nome do povo nordestino pelas dificuldades enfrentadas. "O Nordeste mudou depois que um nordestino chegou à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva."

Ele afirmou ainda que parte da elite, alguns veículos de comunicação e o judiciário tentam golpe de estado no país.

O discurso foi interrompido por partidários, muitos vestindo roupas na cor vermelha, novamente com o grito "Lula, guerreiro do povo brasileiro".

Costa criticou os movimentos pró-impeachment, e os comparou ao nazismo. "Na Alemanha, quando o nazismo começou também havia uma amplo apoio popular, [Adolf] Hitler chegou até a estampar capas de revistas como o homem do ano. Hoje, o povo alemão tem vergonha. O mesmo acontece com a Itália atualmente", afirmou.

Nesta quinta-feira (17), a crise política no país foi acentuada, um dia após a divulgação de um grampo telefônico que sugere uma ação da presidente Dilma Rousseff para evitar eventual prisão do ex-presidente Lula.

O dia começou com vigília pelo impeachment ou renúncia da petista na avenida Paulista, em São Paulo, que foi dispersada nesta sexta-feira (18). Os manifestantes, então, fecharam duas pistas da avenida Nove de Julho.

Os atos, contra e a favor do governo, se espalharam pelo país, com buzinaços, panelaços e episódios de violência. Houve confronto entre manifestantes e policiais em frente ao Palácio do Planalto e ao Congresso Nacional. Bloqueios em ao menos oito rodovias federais tiveram veículos queimados.

No discurso de posse do ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil, Dilma criticou a atuação do juiz Sergio Moro ao divulgar o grampo telefônico, afirmando que a ação dele abre caminho para golpe. "Convulsionar a sociedade brasileira em cima de inverdades, métodos escusos e práticas criticáveis viola princípios e garantias constitucionais e os direitos dos cidadãos. E abrem precedentes gravíssimos. Os golpes começam assim." Já Moro defendeu a legalidade do grampo e comparou Dilma ao ex-presidente norte-americano Richard Nixon.

Menos de duas horas depois da posse de Lula como ministro, porém, uma decisão da Justiça Federal de Brasília determinou a suspensão da nomeação do ex-presidente como ministro.

IMPEACHMENT - Também nesta sexta-feira (18), o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), abriu pessoalmente uma sessão no plenário da Casa, o que significa que o prazo de Dilma para apresentar sua defesa à comissão especial que vai analisar seu processo de impeachment já começa a correr -é de dez sessões plenárias.

PRESERVAR SOCIAL - No último dia 7, também em evento de entrega de casas do programa habitacional, Dilma afirmou que os ajustes feitos na economia têm como meta preservar programas como o Minha Casa, Minha Vida.
Naquele dia, em discurso, a petista já tinha defendido o ex-presidente Lula, que três dias antes tinha sido levado coercitivamente para depor, e disse que a oposição "fica dividindo o país".

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