Política

Bancada evangélica ganha força inédita no Congresso

Da Redação ·
Eduardo Cunha é um dos principais defensores das bandeiras evangélicas Foto: Wenderson Araujo / AFP
Eduardo Cunha é um dos principais defensores das bandeiras evangélicas Foto: Wenderson Araujo / AFP

Formada por bispos, pastores e parlamentares leigos alinhados a dogmas religiosos, a bancada evangélica no Congresso demonstra força inédita na atual legislatura.

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A ala de deputados e senadores que unem política e religião elegeu um número recorde de 78 representantes, conquistou a presidência da Câmara pela primeira vez e busca outros postos-chave em Brasília a fim de ampliar seu nível de influência. Entre as prioridades do grupo estão a limitação a reivindicações do movimento gay e o combate à flexibilização das leis sobre drogas e aborto. Os 75 deputados evangélicos identificados pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), aos quais se unem três senadores, superam bancadas importantes da Câmara como a sindical ou a feminina, com 51 integrantes cada uma. Mas, para deixar o parlamento à sua imagem e semelhança, os religiosos também miram em postos-chave no Congresso.

O principal nome do grupo, hoje, é o recém-eleito presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ). Fiel da Assembleia de Deus, teve entre seus cabos eleitorais outros representantes do rebanho evangélico como o deputado Sóstenes Cavalcante (PSD/RJ) — braço político do pastor Silas Malafaia em Brasília. À frente da Câmara, Cunha desarquivou projetos como o que cria o Dia do Orgulho Heterossexual e prometeu não colocar em pauta proposições que facilitem o aborto "nem que a vaca tussa".

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Ainda estão em disputa outros cargos que podem facilitar a aprovação de propostas adotadas pela bancada, como a definição de família que exclui casais gays, e barrar iniciativas como a legalização da maconha e a criminalização da homofobia. Um dos postos visados é a chefia da comunicação da Câmara, até hoje ocupada por servidores de carreira. O nome mais cotado para assumir a função é o do deputado maranhense Cleber Verde, membro da bancada evangélica pelo PRB — partido ligado à Igreja Universal. Embora o cargo não interfira na tramitação de projetos, é relevante por definir como a Câmara divulga discussões polêmicas à sociedade. — Ao colocar um político evangélico no comando da comunicação, se compromete o caráter laico da casa — reclama a deputada Érika Kokay (PT/DF). 

A frente religiosa também disputará o comando da bancada feminina da Câmara. Uma das cotadas é presbiteriana Clarissa Garotinho (PR/RJ), filha do ex-governador do Rio Anthony Garotinho. Ela obteve a segunda maior votação entre os deputados evangélicos, com 335 mil eleitores, atrás apenas de Marco Feliciano (PSC/SP). Como o grupo feminino faz articulações políticas a respeito de temas como aborto, a presidência do grupo tem importância estratégica.

Cargos em comissões como a de Constituição e Justiça, Seguridade Social e Família e de Direitos Humanos e Minorias também deverão ser buscados pela bancada, já que projetos envolvendo questões de família, direito reprodutivo e outros temas considerados prioritários passam por elas antes de ir a plenário.


— Há uma maior busca por visibilidade e espaço político relevante como uma reação a avanços recentes em áreas como moral sexual e direitos de homossexuais e minorias — avalia a doutora em Ciências da Comunicação Magali do Nascimento Cunha, professora da Universidade Metodista de São Paulo e especialista na área de mídia, religião e política. Um dos gaúchos evangélicos, o deputado Ronaldo Nogueira (PTB) afirma que a meta do grupo é defender a Constituição: — O compromisso da bancada é zelar pela democracia e pela Constituição. Gays podem viver juntos, mas casal só é formado por homem e mulher.