Política

Filho de Herzog acusa fotógrafo de ser "cúmplice" da ditadura

Da Redação ·





SÃO PAULO, SP, 28 de maio (Folhapress) - Filho do jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura militar em 1975, Ivo Herzog afirmou hoje que o fotógrafo Silvaldo Leung Vieira foi "cúmplice" do regime que levou à morte de seu pai.

Vieira fotografou Herzog morto em uma sala do DOI-Codi paulista quando fazia treinamento para trabalhar no Instituto de Criminalística da Polícia Civil de São Paulo.

"Esse fotógrafo foi cúmplice de um momento terrível da história do Brasil, escolheu fazer o que ele fazia e permaneceu calado por muitos e muitos anos", disse Ivo Herzog após depoimento de Vieira à Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo.

Ivo critica o fato de Vieira afirmar que sabia das torturas e assassinatos que eram praticados pelo regime repressor, mas não ter denunciado esses fatos.

"Há dois tipos de pessoas, aquelas que se calaram e aquelas que se voltaram contra a violência que acontecia naquela época. Ele [Vieira] é uma das pessoas que ficou calada. Ele foi conivente, ele foi cúmplice de um Estado violento e de um Estado criminoso", afirmou.

Silvaldo Vieira afirma que não se sente cúmplice do regime, mas que se arrepende da opção que fez ao concorrer a uma vaga na polícia técnica.

O fotógrafo tinha 22 anos na época e estava na segunda semana de um curso de fotografia do Instituto de Criminalística quando foi colocado à disposição do Dops e convocado para fazer a fotografia de Herzog.

Ao chegar ao local, afirma, encontrou a cena pronta, com o jornalista pendurado por um cinto pelo pescoço, mas com os pés tocando o chão, fato que disse ter achado "estranho".

"Eu tinha um sonho, queria aprender mais de fotografia. Um dos poucos cursos que tinha era esse do Instituto de Criminalística, que por sinal era um curso muito bom. Nós tínhamos acesso a diversos materiais inexistentes no mercado, e o fotógrafo comum não tinha acesso a essa tecnologia. Eu achei que para mim seria um passo à frente", disse Vieira.

O fotógrafo afirma ainda que não sabia quem era Vladimir Herzog quando foi levado para registrar a cena, e que achava que a missão fazia parte do treinamento.

Disse ainda que achou a cena "estranha" e que comentou com alguns amigos e familiares, mas foi aconselhado a não denunciar, para não se tornar perseguido pelo regime.

Segundo Vieira, quando ele se deu conta da violência que era praticada pelo próprio regime, decidiu abandonar a corporação. Mesmo assim, ainda trabalhou no órgão por três anos, tempo que levou até conseguir juntar dinheiro para deixar o país.

Em 1979, abandonou o serviço público e se mudou para Los Angeles (EUA), onde mora até hoje.

Vieira veio a São Paulo a convite da Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo, que pretende esclarecer as circunstâncias da morte de Herzog.

Para o vereador Gilberto Natalini, presidente da comissão, "todos têm responsabilidade [pelos crimes da ditadura], só que os graus de responsabilidade são diferentes". Mas, para o vereador, o fato de Vieira ter abandonado o emprego demonstra o "sentimento de repulsa" que ele teve pelo regime.
 

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