Política

Ex-ministro Nascimento diz que saiu porque não teve apoio do governo

Da Redação ·
 O senador e ex-ministro Alfredo Nascimento durante discurso no Senado
fonte: Reprodução do Senado
O senador e ex-ministro Alfredo Nascimento durante discurso no Senado

O ex-ministro dos Transportes, senador Alfredo Nascimento, disse na tarde desta terça (2), em discurso de cerca de 45 minutos da tribuna do Senado, que renunciou ao cargo de ministro dos Transportes porque não recebeu apoio do governo.

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Senador pelo PR-AM, Nascimento deixou o ministério em 6 de julho em razão de denúncias da existência de um suposto esquema de superfaturamento de obras envolvendo servidores da pasta. Nesta terça, ele retomou a atividade como parlamentar.

"Em momento algum, pedi ou determinei ação de que pudesse me arrepender ou me envergonhar. Como é possível agora, e somente agora, ser submetido a julgamento desprovido de provas de maneira tão sumária? Renunciei ao cargo de ministro diante dos ataques a mim proferidos porque não recebi do governo o apoio que me havia prometido a presidente Dilma Rousseff", afirmou.

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Consultada pelo G1, a assessoria do Palácio do Planalto afirmou que o governo não irá se manifestar sobre as declarações do ex-ministro.

Antes do governo Dilma, Nascimento já havia ocupado o cargo de ministro dos Transportes na administração do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Nos mais de seis anos em que fui ministro do governo meu trabalho jamais foi questionado. Foram anos de trabalho incansável no governo ao lado de ministros como o ministro Paulo Bernardo, do ministro Guido Mantega, e também da então ministra Dilma", declarou.

Durante o discurso, Nascimento afirmou que foi responsável por retomar investimentos na área de Transportes, setor, segundo ele, esquecido pelos governos. “Pude conduzir a retomada dos investimentos federais em transportes, abrindo um ciclo virtuoso que se estende até os dias de hoje.”

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'Meu filho não é ladrão'
Nascimento manifestou “profundo pesar” pelo envolvimento nas denúncias do filho Gustavo Morais Pereira, arquiteto de 27 anos, suspeito de enriquecimento ilícito.

“Profundo pesar que me abateu ao ver meu filho tendo a vida profissional em xeque apenas por ser meu filho. Economista e publicitário, Gustavo tem formação acadêmica e empresarial que justificam sua carreira bem sucedida. Meu filho não é ladrão. Vou provar porque tenho toda a documentação. Vou buscar a correção dessa injustiça que cometeram contra o meu filho.”

Denúncias publicadas pelo jornal “O Globo” revelaram que, dois anos após ter sido criada com um capital social de R$ 60 mil, a Forma Construções, uma das empresas de Gustavo, amealhou um patrimônio de mais de R$ 50 milhões, um crescimento de 86.500%.

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Segundo Nascimento, em 2005, acompanhado por outros dois sócios, Gustavo criou a Forma Construções, incorporadora com que ingressou no mercado imobiliário de Manaus. A empresa foi criada com capital social de R$ 60 mil, e Gustavo teve, segundo Nascimento, 33,3% de participação, assim como os outros dois sócios.

“Em 2007, a empresa Forma realmente registrou ativos da ordem de R$ 52.314.878. Para que não pairem dúvidas, vou repetir: ativos decorrentes da captação de recursos junto a terceiros, diga-se: instituições financeiras, fornecedores e clientes compradores dos imóveis. O que os meus detratores esqueceram de informar, induzindo o jornal ‘O Globo’ ao erro, é que, naquele ano, a Forma também registrou passivos da ordem de R$ 52.328.689. É sabido que o patrimônio líquido de uma empresa é formado pela diferença entre ativo e passivo”, afirmou Nascimento.

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Sobre as acusações de suspeitas envolvendo a venda de um imóvel do filho, o ex-ministro dos Transportes afirmou que o imóvel foi negociado a preços de mercado e os valores, registrados no imposto de renda do empresário.

“O que dizer, então, sobre as supostas irregularidades da venda de um apartamento em Manaus? Em 2007, meu filho Gustavo decidiu desfazer-se de um imóvel onde ele morava, movimentação devidamente registrada, e aqui está, na sua declaração de Imposto de Renda. O apartamento foi vendido por R$ 450 mil à família do empresário Marcílio Carvalho. A venda se deu por preço de mercado em uma transação absolutamente transparente e, insisto, registrada no Imposto de Renda do meu filho”, relatou.

O ex-ministro disse “saber de onde partiram as denúncias” que ele classificou de “falácias” contra ele e sua família. Nascimento creditou as informações sobre irregularidades envolvendo sua família a adversários políticos locais do Amazonas.

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“Disputei uma das eleições mais duras de minha carreira política, lidando diretamente com o jogo muitas vezes sujo da política. Vi brotar denúncias caluniosas, contra mim e contra familiares meus, de meus adversários. Tais falácias são as mesmas requentadas dias atrás por grandes veículos de corrupção. Na premência de realizar o furo, tais veículos repisaram denúncias inverídicas plenamente rechaçadas em passado recente”, discursou Nascimento.

O senador, porém, disse que a mídia cumpriu seu papel. “Independente do sofrimento imposto a mim e a meus familiares, penso que esse é o papel da mídia.”

Denúncias e afastamento
Nascimento afirmou que “cumpriu papel de gestor público” ao tomar conhecimento de denúncias de superfaturamento no ministério.

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“Diante das denúncias publicadas pela revista ‘Veja’, cumpri meu papel como gestor público. Minhas primeiras ações foram entregar o cargo e sugerir o afastamento dos envolvidos. Fiz isso na manhã de 2 de julho na conversa que tive com a presidente por telefone", disse.

Nascimento revelou que chegou a pedir demissão no fim de semana em que foram publicadas as primeiras denúncias contra a pasta. Segundo ele, a presidente não aceitou.

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“Avaliamos [ele e Dilma] que o governo deveria dar uma resposta à sociedade, mas ela [Dilma] não aceitou meu pedido de demissão naquele dia e naquela data. Ao contrário, determinou que conduzisse pessoalmente as sindicâncias”, relatou.

Nascimento afirmou que Dilma determinou que um jato da FAB fosse buscá-lo em Manaus em 3 de julho, um domingo, para que fosse até Brasília conversar com ela sobre as investigações na pasta. “Fui por ela recebido na Granja do Torto. Foi uma conversa reservada e sem testemunhas”, declarou.

Paulo Sérgio Passos
Sem fazer acusações ou citar o ministro Paulo Sérgio Passos, que o substituiu no comando dos Transportes, Nascimento afirmou que as denúncias publicadas contra o ministério estariam relacionadas ao período em que Passos exerceu o comando da pasta.

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“É importante comentar que os fatos colocados sob suspeição pela imprensa se deram no período em que eu já não era ministro, nem a nossa presidenta, que também abriu mão do cargo de Chefe da Casa Civil para dedicar-se a uma campanha que resultou vitoriosa.”

Nascimento ainda afirmou que o ministério que ele deixou em março de 2010, para disputar as eleições, era diferente do que ele recebeu ao retornar no começo do ano.

“Eu deixei o comando da pasta em 31 de março de 2010, para disputar eleição em Manaus. Para lá voltei em janeiro deste ano, convocado pela presidenta Dilma, para dar continuidade ao trabalho que já vínhamos conduzindo a quatro mãos. Não gerenciei nem executei o orçamento de 2010, assim como não participei da preparação do orçamento do exercício atual. É real, porém, que o ministério que deixei em 2010 é diferente do que eu encontrei no meu retorno.”

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Pente-fino
Ainda durante o discurso, fazendo referência à descoberta da evolução de gastos em obras do ministério, Nascimento afirmou que partiu dele identificar “disparada dos gastos” e determinar um pente-fino nos contratos da pasta

“Quando saí, junto com a presidenta Dilma, então ministra, o PAC do Ministério dos Transportes significava um pacote de investimentos da ordem de R$ 58 bilhões. Quando retornei, já estava em R$ 72 bilhões. Dediquei os primeiros 90 dias de gestão a uma imersão em todos os projetos e ações programadas em andamento. Em fevereiro, fui o primeiro a perceber a disparada dos gastos previstos e determinei um pente fino para conhecer a origem de tal movimentação”, relatou.

O ex-ministro afirmou que levou as preocupações com a evolução de gastos ao conhecimento da ministra Miriam Belchior em março.

“Em reunião que tivemos no Ministério do Planejamento, para discutir o andamento das obras, ela [Miriam], que havia permanecido no governo e certamente tinha a responsabilidade e as condições de esclarecer o que havia passado e que se colocava ao menos para mim como um grande problema. Nesse encontro, concordamos com a necessidade de uma revisão dos projetos”, relatou Nascimento.

Nascimento contou ainda que relatou à própria presidente Dilma o problema e disse que “começara a trabalhar no ajuste necessário para garantir a viabilidade orçamentária das obras durante sua gestão”. Segundo Nascimento, com a ampliação do preço dos contratos, o ministério não teria dinheiro para investir em novas ações.

"Estabelecemos 15 de julho como prazo final da área rodoviária para tais providências. Na prática, o cenário que encontrei, quando reassumi a pasta, em janeiro, significava que a nova administração não teria recursos necessários para iniciar nenhuma nova ação, limitando-se a pagar e a entregar as obras das gestões anteriores. Mantida aquela destinação do orçamento, não teríamos o PAC 2”, afirmou Nascimento.

Aliado de Lula
O ex-ministro disse que deixou o ministério em silêncio para voltar ao Senado e se defender das acusações como senador: “Deixei o Ministério dos Transportes convencido de que, aqui, no Senado, para aonde fui trazido pelas mãos do povo do meu Amazonas, eu poderia esclarecer os fatos e recolocar esse debate no seu devido lugar.”

Relembrando o período de formação do governo da presidente Dilma Rousseff, Nascimento relatou encontros com a presidente em que se discutiu a participação do PR no governo e a sua permanência no ministério.

“Tivemos dois encontros antes que fosse recebida a cúpula de meu partido e, nessas ocasiões, nossa presidenta externou o desejo de que eu voltasse ao governo, justificando-se não apenas com o fato de eu ter sido seu colega ministro nas gestões anteriores, dividindo com ela as responsabilidades e desafios inerentes ao projeto de construir um novo Brasil, mas também com nosso excelente relacionamento pessoal e político, aspectos que considerou importantes na condução de um governo de continuidade”, discursou Nascimento.

O ex-ministro lembrou que é “aliado de primeira hora do ex-presidente Lula” e que atendeu ao chamado dele para integrar, em suas duas gestões, o Ministério dos Transportes.

“Fui ministro dos Transportes nas duas gestões do ex-presidente Lula, convocado por uma das mais importantes lideranças políticas de nosso país, para participar de um esforço que mudaria a história do Brasil. Aliado de primeira hora de nosso ex-presidente, em 2002, acreditei em seu projeto e aceitei colaborar com seu governo. Para isso, abri mão da oportunidade de participar mais diretamente da vida e dos destinos de meu Amazonas, especialmente da cidade de Manaus, que tive o privilégio de administrar por dois mandatos consecutivos”, afirmou.