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China vira espectadora em conversa entre Trump e Kim

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IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A proposta de uma reunião de cúpula feita pelo ditador Kim Jong-un e aceita pelo presidente Donald Trump encerra uma série de dúvidas, mas uma tem perturbado especialistas no assunto: a China foi ignorada no processo?

"Eles devem estar se sentido deixados de fora", afirmou à Folha o diretor-executivo do escritório americano do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, Mark Fitzpatrick, que é um analista de sistemas de defesa de mísseis e acompanhou de perto o recrudescimento da crise na península coreana.

Pequim assumiu o papel de Estado fiador da ditadura norte-coreana após o fim da União Soviética, em 1991. Fornece praticamente todo o petróleo consumido pelo regime de Kim e é quem busca barrar retaliações contra o regime no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O faz não só por também ser uma ditadura comunista, mas porque não quer ver, estrategicamente, uma península coreana toda capitalista e com 30 mil soldados americanos em sua fronteira sul.

A Rússia de Vladimir Putin segue a mesma linha, querendo evitar o reforço da posição americana junto ao seu grande e desabitado território do extremo oriente.

Trump pressionou a China desde que assumiu para que forçasse Kim a negociar. A resposta veio num avanço impressionante do programa de mísseis norte-coreanos e a explosão de uma bomba de hidrogênio, gerando troca de ameaças e ações ofensivas americanas na região.

"É notável que Kim se encontre com Trump antes de ter qualquer encontro com Xi Jinping [o líder chinês]", afirma Fitzpatrick. "E a Coreia do Norte não insistiu num congelamento de exercícios militares entre os EUA e o Sul em troca do congelamento do seus testes de mísseis e bombas, o que era defendido pela China e também pela Rússia por motivos próprios."

Como há camadas de segredo ainda a serem aferidas no processo, é possível que haja interferência chinesa no episódio. Na teoria, Pequim ganha com a posição de maior força que Kim obteve ao ser reconhecido como alguém com quem se pode conversar.

Fitzpatrick é moderadamente otimista com o surpreendente avanço, "que pode dar muito errado", mas pode ser "uma oportunidade a não ser desperdiçada".

Ele alinha os problemas conhecidos: o temperamento impulsivo dos dois líderes, a aparente alienação da diplomacia americana do processo, a incógnita sobre o que Kim de fato está disposto a fazer -assim como Trump.

Até aqui, o governo chinês fez apenas declarações protocolares de aprovação às conversas entre Kim e os EUA, que foram mediadas pela Coreia do Sul, país com um grande interesse em não ter sua capital destruída numa hipotética guerra na região.

O Japão, outro parceiro dos EUA na mira dos mísseis norte-coreanos, é outro ator importante que por ora está numa posição de observação.

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