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Cincinnati se reinventa como reduto hipster

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SILAS MARTÍ, ENVIADO ESPECIAL

CINCINNATI, EUA (FOLHAPRESS) - Lado a lado na mesma calçada, um abrigo para moradores de rua e um bar que se vende como "butique de vinhos" são a cara do atrito provocado pela transformação.

No antigo distrito de Over-the-Rhine, ou OTR para os íntimos, o impacto da retomada econômica que fez de Cincinnati a mais nova arena de delírios dos hipsters americanos não poderia ser mais explícito, com cortiços e galpões industriais virando bistrôs, confeitarias, floriculturas, teatros e hotéis de luxo.

Essa cidade de Ohio, um dos estados da região conhecida como cinturão da ferrugem por ter concentrado o grosso da indústria siderúrgica dos Estados Unidos no passado, atravessa agora um momento que alguns estão chamando de renascimento.

Uma década depois do crash no mercado financeiro que mergulhou a maior potência global numa recessão que se arrastou por anos, Cincinnati virou uma espécie de garota-propaganda da recuperação econômica no país.

Novas sedes corporativas ocupam o espaço antes reservado à indústria pesada e o centro histórico foi convertido em espécie de Disneylândia de galerias de arte, bares e butiques, chamarizes de empresários e tipos criativos.

Há dois anos, na cartada mais vistosa de seu plano de revitalização de bairros antigos, a cidade inaugurou uma linha de bondinhos de rua que andam em círculos, ligando as cervejarias artesanais de OTR, um museu de arte desenhado pela badalada arquiteta Zaha Hadid, uma nova sala de concertos e um enorme cassino à beira do rio.

RENASCIMENTO BRANCO

Mas essa nova cidade resplandecente também acirrou tensões raciais históricas.

Os donos do Revel, o barzinho de vinhos, não cansam de brigar com os diretores do abrigo de sem-teto ao lado, dizendo que sua clientela ""quase toda branca"" não aprecia a visão daquelas pessoas ""quase todas negras"" enfileiradas em busca de moradia.

"Eles pedem para não deixarmos o pessoal se sentar do lado de fora, acham feio", diz Mona Jenkins, responsável pelo abrigo. "É asqueroso pensar que você precisa ter uma certa aparência para ser aceito. O povo negro, marrom e de baixa renda está excluído desse desenvolvimento."

Na rua do Revel, Brian Taylor, diretor do movimento Black Lives Matter em Cincinnati, lembra que Timothy Thomas, um jovem negro, foi baleado e morto por um policial branco a uma quadra dali antes dessa revitalização.

"Esse renascimento é novo e branco, enquanto o passado é negro e perigoso", diz Taylor. "São duas narrativas em conflito. A recessão acabou só para parte da sociedade, e em nome do desenvolvimento agora temos o deslocamento e o declínio. Estão expulsando daqui tudo que incomoda os olhos dos ricos."

Numa batalha para evitar a construção de um estádio de futebol que pode desfigurar o West End, outro bairro negro de Cincinnati, o ativista Eric Ellis também reclama que a população pobre da cidade vem sendo jogada de um lado para outro como "peças num jogo de tabuleiro".

"Queremos aproveitar as coisas boas que surgem e não ser azedos em relação ao progresso, mas cada um pensa na sua dor", afirma. "O que estão fazendo é redesenhar as fronteiras, expulsando pessoas que rotularam indesejáveis. Enfrentamos uma guerra civil ideológica no país e muitos estão ganhando dinheiro com essas divisões."

O que está reconfigurando o centro de Cincinnati, no fundo, é o retorno dos brancos de classe média que fugiram para os subúrbios por estradas que há décadas dilaceraram os bairros históricos.

"Não vou dizer que pessoas não foram expulsas, isso seria falso", diz Lynn Meyers, diretora do teatro Ensemble, novo destino cult do centro. "Mas quando viemos para cá, havia só uma casa de penhores e traficantes. O que fizemos foi só redescobrir um lugar com belos prédios que estavam caindo aos pedaços."

No Mecca, um bar de luzes cor-de-rosa que também funciona como brechó e floricultura a uma quadra do teatro em OTR, Mitch Klein, um jovem branco e loiro, conta que cresceu nos arredores da cidade e decidiu se mudar para o centro depois de estudar.

"Paguei um preço ótimo no meu apartamento", diz o músico. "É um jogo de pingue-pongue. Os brancos foram embora, os negros vieram, e agora os brancos voltaram."

CONTRADIÇÕES

Mas não foi um retorno em massa. Os subúrbios ultraconservadores de Cincinnati continuam bem vivos, denunciando as contradições de uma cidade que se tornou cosmopolita só na superfície.

No mês passado, o presidente Donald Trump foi visitar uma metalúrgica num desses subúrbios, onde foi aplaudido de pé por trabalhadores que acabavam de ganhar um bônus como consequência da reforma tributária recém-aprovada no país.

Um chamado estado-pêndulo, que pode mudar de ideia entre escolher um republicano ou democrata a cada eleição, Ohio deu 16 pontos de vantagem a Trump em sua disputa vitoriosa pela Casa Branca ""nas ruas de Cincinnati, os carros ainda ostentam adesivos da campanha.

"Tinha uma multidão aqui esperando para ver o presidente, mas ele não veio", lembra Alexia Baltsos, gerente do Price Hill Chili, restaurante popular num canto distante da cidade que se tornou uma parada obrigatória de políticos do partido de Trump. "Os republicanos apoiam pequenas empresas como a nossa."

Muitos empresários que lucram com a reinvenção de Cincinnati simpatizam com o presidente, mas ativistas dizem que as dores do renascimento não têm dimensão partidária e questionam o modelo urbanístico por trás de muitos desses atropelos aqui.

"Trump pode visitar as fábricas que quiser, mas os empregos que está gerando são como ir lavar pratos na esquina", diz Jenn Summers, uma assistente social que conseguiu reverter a decisão da prefeitura de doar quadras públicas de basquete para a construção de condomínios.

"Estamos dando terras públicas de graça", ela diz. "O problema é empurrado para mais longe. Construíram uma cidade para poucos e fizeram uma barreira em volta dela."

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