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Do terremoto à ocupação, haitiana vive em área irregular e contaminada no RS

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FERNANDA CANOFRE

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - A casa de Elisa Derisma Maesclin, 43, feita de compensado e telhas de fibrocimento, fica nos fundos do pequeno lote de terra pelo qual ela pagou R$ 1.800. Em frente à varanda em construção, pés de feijão, quiabo e batata-doce, usados na alimentação todos os dias, são a parte da moradia nova que a leva para perto da sua outra casa, a 5.894 quilômetros do bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre.

Quando olha para as plantas, o Haiti é aqui. Elisa e a família estão entre as centenas de haitianos que desde 2014 ocupam um terreno invadido batizado de Ocupação Progresso. Eles correspondem a quase 60% dos 500 moradores da área.

Depois de 40 anos como vazio urbano, no ano da Copa do Mundo, a área foi grilada por um grupo que passou a vender lotes baratos com a promessa de uma documentação que nunca veio. Os preços variavam de R$ 1.200 a 4.000.

Sem conhecer a legislação brasileira, com dificuldades para enfrentar os aluguéis altos, os haitianos viraram alvo fácil. Inclusive Elisa. A compra se deu poucos meses depois de ela ter chegado a Porto Alegre, seguindo a dica de amigos e parentes que diziam que no Brasil a vida seria melhor.

Antes de chegar aqui, Elisa viveu 13 anos na Venezuela. Nos últimos anos de governo de Hugo Chávez, as coisas já estavam complicadas. Sem dólares americanos no mercado local, era difícil converter os bolívares e enviar para a família que ficou no Haiti. Quando Nicolás Maduro assumiu a presidência, a situação ficou insustentável de vez.

Elisa respirou fundo e viu sua família se separar. A filha de 16 anos foi viver com o pai nos EUA. A do meio, de 14, ficou na Venezuela com parentes. O novo marido de Elisa aceitou uma oferta de trabalho na ilha de Martinica. E ela partiu para tentar a sorte no Brasil, sozinha e grávida da terceira filha. “Estou há três anos no Brasil, quase todo o tempo sem emprego. Passei sete meses trabalhando e o resto só buscando.”

No primeiro emprego, como auxiliar de serviços gerais, ela recebia R$ 740. Só o aluguel do quartinho em que morava custava R$ 450. Elisa conseguiu ainda um emprego, também de limpeza, que pagava entre R$ 900 e R$ 1.300, dependendo das horas extras.

Mas, sem ter com quem deixar a filha bebê por mais de 12 horas teve que largar a vaga. No último emprego, teve uma experiência que a fez lembrar do porquê saiu do Haiti. Dentro do vestiário, um colega brasileiro abriu sua bolsa e roubou a carteira com todo o dinheiro que tinha para passar o mês.

Ela logo associou a uma das culturas mais fortes da sua ilha: o vodu. Elisa disse acreditar que foi vodu que fez com que perdesse todos os bens que tinha, em 2008. “Eu tinha negócios, mas os vizinhos faziam vodu para tirar todo o meu dinheiro. Fiquei sem nada. Por isso, não quero voltar mais”, conta.

Ela e a família compravam terrenos para construir casas e vender. Em 2010, no dia em que a terra tremeu sob Porto Príncipe, o pai dela estava na obra de um edifício. “Até agora não conseguimos o corpo dele. Ele trabalhava em um lugar muito alto. A terra fez assim [ela mostra o balanço que desestabilizou o concreto com as mãos] e tudo caiu. O governo não fez nada para ajudar.”

O terremoto deixou três milhões de pessoas sem casa e um número de mortos que nunca foi concluído, mas gira em torno de 160 mil. Foi o que deu início ao forte fluxo de imigração haitiana para o Brasil. Entre 2012 e 2016, o Itamaraty emitiu 38.065 vistos humanitários para haitianos permanecerem no país.

REVERSÃO

A crise, no entanto, está revertendo o cenário. O marido de Elisa, que veio ao Brasil neste ano para conhecer a filha de três anos e registrá-la, nem cogitou permanecer no país. Aqui, precisaria trabalhar até cinco horas a mais por dia para ganhar o mesmo que um dia de trabalho, das 7h às 12h, lá.

Com muitos conhecidos seguindo a onda migratória rumo ao Chile, ela disse que chegou a cogitar ir embora, mas não teria dinheiro. “Eu falo para os outros haitianos: não tem emprego, não venha. Tem muita gente que está no Brasil há um ano e meio sem trabalho. Dizem que não tem vaga, ‘eu vou te ligar’. Mentira, nunca ligam.”

Por isso, segue na ocupação, onde um estudo inédito da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) conseguiu identificar presença de enxofre, cobalto, cromo, bário e chumbo no solo. Herança da fábrica de cimento e metais que funcionou por décadas no local. Os minerais apresentam risco à saúde humana, depois de um tempo de exposição.

Recentemente, ela descobriu ainda que está grávida pela quarta vez e trouxe a filha do meio para morar com ela no Brasil. Enquanto a filha sonha em entrar em uma faculdade de medicina, Elisa sonha apenas com um emprego. “Se eu conseguir emprego, não tenho problemas no Brasil. Posso trabalhar 10 horas, não me importo.”

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