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Zé Celso destaca atualidade de Torquato Neto em pré-estreia de documentário

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LEONARDO MARAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O diretor teatral e dramaturgo José Celso Martinez, o Zé Celso, enfatizou em debate nesta segunda-feira (5) a necessidade de liberdade da arte e afirmou que a poesia e o cinema devem estar imunes a qualquer tipo de julgamento moral e de cobranças sobre questões de gênero. “O poeta é mulher, é homem, é viado. Não tem sexo. Ou melhor, tem sexo até demais, o poeta é sexy”, disse.

Zé Celso relacionou a poesia de Torquato Neto —escritor e expoente da Tropicália que foi tema da discussão— ao momento atual do país. "Hoje a gente está mais cercado do que nunca. Os militares estão na rua numa intervenção que tem indícios de fascismo.”

Para o dramaturgo, Torquato (1944-1972) está vivo por meio da força de sua obra, que ele define como uma poesia livre e acima do bem e do mal.

Zé Celso participou de conversa sobre o tema com Marcus Fernando e Eduardo Ades, diretores do documentário “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, após pré-estreia do filme organizada pela Folha de S.Paulo, no Espaço Itaú do Shopping Frei Caneca (SP). O debate foi mediado pela jornalista da Folha de S.Paulo Anna Virginia Balloussier.

O filme acompanha a vida e carreira do artista, que desde criança escrevia poesia. Natural de Teresina (PI), foi jovem terminar os estudos secundários em Salvador (BA), onde conheceu Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa. Mais tarde, mudou-se para o Rio, onde foi um dos fundadores da Tropicália e tornou-se um dos principais letristas do movimento.

Além de escrever poemas e compor músicas, o artista dirigiu filmes, atuou e assinou uma coluna, a Geleia Geral, no jornal Última Hora.

O longa mistura trechos de sua história e depoimentos de pessoas que o conheceram com poemas e músicas de sua autoria, interpretadas por Gil, Veloso, Gal e Jards Macalé. Entre as principais composições de Torquato, estão “Geleia Geral”, “Mamãe Coragem” e “Go Back”.

Com o fim do movimento, Torquato tornou-se um artista marginal. Após um período exilado em Londres, cometeu suicídio em novembro de 1972, no Rio, no dia seguinte ao seu aniversário de 28 anos.

O codiretor do documentário Eduardo Ades contou que conheceu Torquato por meio das citações que outros membros da Tropicália faziam a ele. Só depois entrou em contato com seu trabalho. “Queremos despertar um maior interesse pela sua obra, abrir o caminho para que o interesse surja e mais coisas sejam feitas a seu respeito.”

Uma das dúvidas levantadas pelo público foi a razão do afastamento de Torquato dos outros participantes da Tropicália. Ades e Marcus Fernando, que também dirigiu o filme, preferiram não definir um motivo. Além da fama que alguns dos integrantes do movimento conseguiram, que pode ter sido uma das motivações, os diretores disseram que o temperamento difícil do poeta, que era irritadiço e brigava com facilidade, pode ter interferido.

Embora haja depoimentos em áudio no documentário, os diretores preferiram substituir os vídeos das entrevistas por imagens de arquivo relacionadas a Torquato. A intenção é que figuras do porte de Gil e Caetano não tirem, como em vida, o destaque do poeta.

SUICÍDIO

As principais ausências entre os entrevistados são a da viúva de Torquato, Ana Maria Duarte, e do filho, Thiago Nunes. “Ana nos deu carta branca para fazer o filme, nem quis ler o roteiro”, contou o diretor Marcus Fernando. “Nós não chegamos a pedir para ela dar entrevista, porque percebemos logo que não tinha interesse em falar sobre o Torquato.”

Segundo Fernando, a dificuldade para relembrar o marido se deve ao peso que o suicídio teve para a família —o filho do casal tinha apenas dois anos quando o pai se matou.

Mais tarde, Ana reconstruiu sua vida e casou-se novamente. Ela morreu em 2016, aos 71 anos, antes que o filme estivesse terminado. Já Thiago, apesar de não ter dado entrevista, chegou a acompanhar a equipe em algumas das sessões do documentário em festivais. "Ele disse que o filme foi como um reencontro com o pai, que ele mal conheceu", disse Fernando. “O filme eterniza a figura do Torquato. A todo momento, você acha que vai acabar. Como ele próprio, esse documentário também é suicida, porque vai e volta na história, morre e ressuscita o tempo todo”, afirmou Zé Celso. “Eu me lembro do Torquato pela última vez atuando na peça 'Gracias Señor', que fizemos no Rio. Era um papel em que ele se jogava na areia, se lambuzava. Isso foi em 1971, um ano antes do suicídio. Então a imagem final que tenho dele é do Torquato à milanesa".

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