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Autor de 'O Demônio do Meio-Dia', Andrew Solomon lança ensaios sobre viagens

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SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - "Por que os judeus não foram embora quando as coisas ficaram ruins?", perguntou Andrew Solomon, ainda um menino, ao pai enquanto viajavam em um Buick amarelo pelo Estado de Nova York. A resposta foi direta: "Porque não tinham para onde ir".

O episódio contado por Solomon, 54, em "Lugares Distantes - Como Viajar Pode Mudar o Mundo" (Companhia das Letras), não é só um convite para acompanhar o autor de "O Demônio do Meio-Dia" e "Longe da Árvore" (ambos da mesma editora) por meio de ensaios sobre viagens a lugares como a Rússia, a Zâmbia, a Groenlândia, a China, a Antártida e tantos outros. É também uma tentativa de ter uma resposta melhor do que a que recebeu do pai, caso alguma ameaça parecida ao Holocausto possa voltar a assombrar o mundo: ter um lugar para onde ir.

"Quando ele me disse aquilo, fiquei obcecado com a ideia de que era necessário buscar esse tal lugar", conta Solomon, à reportagem, por telefone.

"Depois, quando comecei a viajar, principalmente a locais de conflito ou onde reinavam totalitarismos, percebi que a sensação de conforto que eu tinha em casa era falsa e que ver com os próprios olhos e relatar os movimentos e perigos do mundo também eram uma forma de ajudar a curá-lo de várias doenças de que ele sofre hoje: a intolerância, a ignorância, a dificuldade de aceitar o outro", diz.

A primeira viagem realmente importante foi uma mudança para o Reino Unido a fim de estudar. "Pude criar uma identidade que poderia ser qualquer uma, já que lá ninguém me conhecia." Passou a se vestir de modo mais extravagante, a assumir de modo mais aberto a homossexualidade.

Ao terminar os estudos, afirmou aos pais que o visitavam que buscaria trabalho em Londres. "Eles ficaram furiosos e não entendiam que eu não queria voltar para casa. O fato de eu hoje ser um cidadão americano e britânico me dá conforto, e um olhar privilegiado sobre meus dois países."

Os passos seguintes foram mais ousados. Ele foi à União Soviética, em 1988, com a desculpa de escrever um artigo sobre a arte local. O que queria mesmo era conhecer o país. Mas algo deu errado com o tradutor e Solomon ficou horas vendo os artistas trabalharem sem entender o que diziam.

"O que senti só com essa observação foi algo indescritível. Sempre é bom aprender o idioma, mas às vezes não o conhecer também te estimula outras formas de percepção."

Solomon passou meses entre artistas otimistas com o fim do regime. "Hoje sabemos que não melhorou, Putin representa um retrocesso autoritário perigoso. Mas não invalida o que vi naquele período de entusiasmo histórico. É preciso saber registrar e guardar essas experiências como positivas. É algo presente em vários ensaios".

No ensaio "Rio, Cidade da Esperança", de 2011, Solomon coloca a lupa sobre a cidade que se preparava para receber a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016).

De cara, desconfia dos clichês locais. "Todos me diziam que a praia era democrática, mas obviamente a cor de sua pele e a marca de seu calção te definem e mostram o lugar de cada um ali."

Em meio a várias vozes de esperança que ouviu sobre um suposto êxito das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), observou que aquele tipo de unidade tinha falhas. No mínimo por mostrar-se infantilizadora da sociedade, e no máximo por quererem estender isso a uma política de Estado.

"Um projeto de intervenção militar pontual para resolver uma questão grave de segurança pública é compreensível, mas transformar isso em algo cotidiano não pode ser. E confesso que fiquei muito triste nesses últimos dias, lendo sobre a intervenção militar no Estado do Rio."

No texto, Solomon critica as tours nas favelas nas quais se inscreviam os turistas estrangeiros. "É algo abjeto você oferecer como espetáculo a observação do sofrimento humano. É o oposto do que penso que deve ser viajar, que é demonstrar empatia e buscar uma troca cultural. Aquilo me horrorizou", diz. Mesmo assim, Solomon aplica para o Rio o que viu na URSS.

"Presenciei em favelas e mesmo na sociedade carioca momentos de otimismo com o que poderia vir após a possível pacificação e os eventos esportivos. E ainda que depois o resultado tenha sido a derrocada, como foi a Rússia com Putin, é preciso valorizar esses momentos de entusiasmo porque eles são inspiradores, quiçá para outros tempos."

ISOLACIONISMO

Apesar da eleição de Donald Trump não ser tema dos ensaios, Solomon se refere às mudanças nos EUA, e vê neste momento um "timing" perfeito para o lançamento do livro.

"A minha proposta é justamente a contrária à dele. Creio que devemos nos abrir para o mundo, olhar o estrangeiro, receber quem vem de fora e ir ver como funcionam as outras sociedades. Se você não viaja, vira um ser provinciano, e é isso que Trump quer para os americanos, um isolacionismo que incrementará nossa ignorância com relação ao mundo."

Andrew Solomon conta ainda que está trabalhando agora em um livro que estuda as novas formações familiares.

"As famílias adotivas, os casamentos entre gays e a relação destes com seus filhos", explica. E seus filhos são viajantes? "Sim, eles adoram, vamos à Jordânia no outono. Meu filho George é um dos mais entusiastas e é um fanático por mapas."

LUGARES DISTANTES - COMO VIAJAR PODE MUDAR O MUNDO

Autor: Andrew Solomon

Tradução: Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra

Editora: Companhia das Letras

Quanto: R$ 79,90 (560 páginas)

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