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Neandertais também eram artistas, revela novo estudo

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REINALDO JOSÉ LOPES

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - A última barreira que parecia separar os seres humanos modernos de seus primos de primeiro grau extintos, os neandertais, pode ter caído por terra de vez. Datações obtidas em quatro sítios arqueológicos na Espanha indicam que esses parentes arcaicos da humanidade já produziam arte rupestre e adornos corporais (colares e pintura) entre 115 mil e 65 mil anos atrás, muito antes de o Homo sapiens chegar à Europa.

Descritas em dois artigos nas revistas "Science" e "Science Advances", as descobertas solapam a ideia de que apenas os seres humanos anatomicamente modernos, que surgiram na África entre 300 mil e 200 mil anos atrás, teriam sido capazes de pensamento simbólico complexo. Ao que parece, as capacidades cognitivas dos neandertais se equiparavam à do Homo sapiens nesse quesito.

Ambos os estudos têm como primeiro autor Dirk Hoffmann, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (Alemanha). Outro nome de relevo é o arqueólogo português João Zilhão, da Universidade de Barcelona e da Universidade de Lisboa.

Os achados são o último prego no caixão da ideia de que algum tipo de explosão cultural sem precedentes, por volta de 45 mil anos atrás, teria levado às origens da arte nas cavernas do sudoeste da Europa, logo após a chegada do H. sapiens ao continente.

Nas últimas décadas, essa ideia foi sendo desmontada com a descoberta de desenhos geométricos e conchas perfuradas para montar colares, entre outras evidências, com datações entre 100 mil e 70 mil anos atrás.

Portanto, fazia mais sentido imaginar que teria havido um desenvolvimento gradual dessas capacidades entre os H. sapiens africanos, que levaram tais "tecnologias simbólicas" consigo quando iniciaram seu avanço rumo a outras regiões do planeta. Curiosamente, sítios arqueológicos associados aos neandertais também têm adornos corporais similares aos criados pelos humanos modernos por volta de 45 mil anos atrás.

Muitas vezes esse fato era visto como sinal de aculturação: os neandertais teriam copiado a ideia dos H. sapiens que tinham acabado de chegar a seu território.

Mas as datações obtidas agora podem ter eliminado essa possibilidade, justamente porque correspondem a um período no qual, até onde sabemos, os neandertais eram os senhores exclusivos do continente europeu.

Os exemplares de arte e adornos recém-datados são comparáveis ao que se via na África e no Oriente Médio quando os humanos modernos apareceram por lá. Em La Pasiega, no norte da Espanha, há uma estranha figura geométrica em vermelho, lembrando uma escada, enquanto em Maltravieso, perto de Cáceres, o mesmo tipo de tinta foi usada para marcar o contorno de uma mão.

Embora a genômica tenha demonstrado que houve miscigenação entre humanos modernos e neandertais, o fato de que eles acabaram por desaparecer como espécie, mesmo com as novas evidências, poderia indicar que há uma diferença cognitiva importante entre eles e nós. Ao menos é o que conclui Jean-Jacques Hublin, paleoantropólogo do Instituto Max Planck. "As descobertas reduzem a lacuna entre as duas espécies. Mas os seres humanos modernos os substituíram, e houve razões para isso", disse à "Science".

Zilhão discorda. "Muitos povos desapareceram ou desaparecerão. É porque eram ou são cognitivamente inferiores? Era essa a explicação que davam os poderes coloniais oitocentistas para justificar o extermínio de índios."

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