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Literatura que propõe diálogo também merece espaço, diz Julián Fuks

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EVERTON LOPES BATISTA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Filhos adotivos são o tema principal dos livros mais recentes dos escritores Julián Fuks e Bernardo Kucinski. Além de tratarem de um mesmo assunto, ambas as obras são de autoficção, estilo no qual os autores transformam trechos de suas próprias biografias em invenções narrativas.

Em "A Resistência" (ed. Companhia das Letras, 144 págs., R$ 37,90), Fuks traz a história de uma família argentina exilada no Brasil devido à ditadura militar que se instaura no país. Ao mesmo tempo, tenta dar conta da complexidade dos sentimentos suscitados pela adoção de um filho.

"[A adoção] era um assunto sobre o qual minha família não gostava de falar. Já tinha se tornado um tabu em casa", disse Fuks em um debate que reuniu os escritores na última segunda (19), no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

Para ele, este não é um caso isolado. Mesmo que a adoção seja o tema principal da trama, o assunto que mais é levantado pelos leitores acaba sendo sempre ditadura militar.

O livro, segundo Fuks, nasceu de um pedido do próprio irmão a partir de uma terapia familiar. Mas, o que nasceu como uma intervenção íntima, ganhou uma dimensão maior na publicação ao levantar questões e angústias que também pertenciam a outras pessoas.

Também merece espaço a literatura que propõe um diálogo, que dá um caráter coletivo para o fazer literário, afirmou o escritor, que diz acreditar haver uma autoficção que pode tratar de temas fundamentais e profundos, e não apenas das pequenas angústias de quem escreve.

A obra foi eleita livro de ficção do ano pelo Prêmio Jabuti em 2016 e levou o prêmio José Saramago em 2017.

Em outra história sobre adoção, "Pretérito Imperfeito" (ed. Companhia das Letras, 152 págs., R$ 39,90), de Kucinski, é contada a busca de um pai para entender o que levou seu filho adotivo às drogas. A jornada passa por diversos especialistas e áreas do conhecimento.

Na época do lançamento, o autor afirmou à reportagem que chegou a cogitar usar um pseudônimo para o romance.

Escrevi o livro esperando que ele tivesse um valor literário, mas ele também poderia estar em uma estante de autoajuda, disse Kucinski durante o debate.

Na autoficção as questões não são inventadas. São íntimas. Essa literatura é quase uma confissão, ela demanda um grau de sinceridade e despojamento que outras formas literárias não exigem, afirmou.

CRIAÇÃO

No evento, parte da série Encontros Folha & Companhia que promove discussões entre alguns dos principais autores da editora Companhia das Letras em parceria com a Folha de S. Paulo, os participantes comentaram ainda sobre como se dá o processo de criação de suas narrativas.

De acordo com Kucinski, suas ideias quase sempre aparecem em salas de concerto durante apresentações de orquestras. "Sempre levo um caderninho para anotar a ideia que em algum momento vem", contou. Segundo ele, algumas histórias podem até já surgir prontas, em um fôlego só.

Já Fuks afirmou ter dificuldade em encontrar aquilo que merece ser contado. "Em muitas experiências, como na história contada em 'A Resitência', eu não vejo o potencial literário imediatamente, preciso de tempo", disse.

Segundo o escritor, o principal lugar de trabalho é sua própria casa: "Tento criar uma espécie de sentimento de literatura em casa, no silêncio, lendo meus autores favoritos e rompendo com a ordem utilitária do mundo exterior".

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