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Jovem eletrocutado em bloco fazia trabalho voluntário e "só sorria"

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FABRÍCIO LOBEL

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando um equatoriano quis conhecer o Brasil enquanto fazia trabalho voluntário, Lucas arranjou logo um abrigo em sua casa para que o estrangeiro pudesse seguir com o plano. Quando uma creche filantrópica precisou reformar seu site para promover novas doações, Lucas estava lá para ajudá-la.

Trabalhar de forma voluntária era uma das principais ocupações do universitário Lucas Lacerda da Silva, 22. Essa trajetória, porém, foi interrompida na tarde do último domingo (4), quando o rapaz encostou em um poste na rua da Consolação, no centro de São Paulo, levou um choque e morreu enquanto se divertia em um bloco do Carnaval paulistano.

"Era uma pessoa nata para ajudar os outros. Não havia tempo ruim para ele", conta Monica  Stevanato, 42, diretora da creche beneficente para a qual Lucas ajudou a montar um site institucional.

"Nosso espaço aqui é acanhado, modesto. Então, eu lembro de entrar numa sala pequena e encontrar ele sentado no chão trabalhando com outros voluntários. Na hora falei que correria para arranjar uma cadeira para ele. Ele riu e disse que ele estava bem daquele jeito e que eu não deveria me preocupar", lembra Monica.

Lucas havia completado 22 anos na última sexta-feira (2), data que comemorou com os amigos na república universitária em que morava com mais cinco rapazes, numa rua de classe média de Santo André, cidade da Grande São Paulo.

No poste em que Lucas foi eletrocutado haviam sido instaladas na última sexta-feira (2) duas câmeras de segurança da empresa GWA Systems, para monitorar a passagem do blocos. A empresa foi contratada pela Dream Factory, que venceu a concorrência da gestão João Doria (PSDB) para gerir o patrocínio de R$ 20 milhões do Carnaval de rua da cidade de São Paulo.

Essas duas câmeras, porém, foram instaladas de forma irregular, segundo a prefeitura. De acordo com a gestão municipal, não havia autorização para colocá-las no poste da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) nem para ligá-las por meio de fios esticados até um poste de energia, este sob a responsabilidade do Ilume, departamento de iluminação pública da prefeitura.

Desde o meio do ano passado, Lucas trabalhava com uma associação internacional de voluntariado, a Aiesec. A ideia da associação é agenciar estrangeiros que queiram trabalhar em projetos sociais em troca de estadia no país.

Lucas primeiro abrigou um voluntário equatoriano na república. Depois, passou a coordenar o trabalho de um grupo de colombianas. Após as jornadas de trabalho, mostrava os pontos turísticos de São Paulo aos novos amigos estrangeiros. Em troca, ia praticando um pouco mais do inglês e do espanhol.

Em dezembro, assumiu um cargo permanente na ONG, o que lhe renderia mais responsabilidade e trabalho em 2018. O novo cargo foi celebrado com os amigos. Entre as responsabilidades neste ano estaria a de conectar brasileiros a projetos sociais fora do país. Ele próprio sonhava em viajar a trabalho.

"Eu não me lembro do Lucas triste. Ele estava sempre sorrindo, sempre brincando", diz Bianca Nishimura, 22, que também trabalha na ONG.

Além da entidade, Lucas era também bolsista de um projeto de educação de jovens tocado pela Universidade Federal do ABC, o PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência ). Por estar cursando engenharia biomédica na universidade, encaixou-se melhor nos projetos de ensino de biologia em um colégio da rede pública de Santo André.

Amigos de Lucas no projeto organizavam na tarde desta segunda-feira (5) viagens de carro até Cardoso (a 567 km de São Paulo), a cidade natal do rapaz, onde o corpo será enterrado na manhã desta terça-feira (6). Em nota, o PIBID da universidade lamentou a morte de Lucas.

A sempre festiva república em que Lucas morava estava em silêncio nesta segunda. Amigos mais próximos chegaram para amparar os companheiros de casa. Outros se preparavam para viajar até o velório. "Era meu irmão", conclui o amigo de república Rodrigo Carvalho.

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