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Cidade planejada quer ser vitrine palestina

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DANIELA KRESCH

RAWABI, CISJORDÂNIA (FOLHAPRESS) - De longe, parece uma fortaleza no alto da montanha. De perto, Rawabi, a primeira cidade palestina planejada, impressiona pelos prédios altos e ruas limpas.

Símbolo da classe média secular palestina, que cresceu à sombra do conflito com Israel e almeja se inserir na economia global, a cidade é um sucesso do ponto de vista turístico. Nos últimos seis meses, 250 mil visitantes -palestinos e estrangeiros- passaram por lá.

"Rawabi já é um grande destino turístico para os palestinos. É maravilhoso", diz o magnata Bashar Masri, 57, idealizador do novo centro urbano, criado do zero ao custo de US$ 1,4 bilhão.

Realmente, Rawabi -montanhas, em árabe- não deixa nada a desejar a projetos imobiliários pelo mundo.

Longe dos engarrafamentos de Ramallah, a capital econômica e política da Cisjordânia, a novíssima cidade (9 km ao norte de Ramallah e a 25 km de Jerusalém) oferece raras vantagens, como infraestrutura avançada para internet, água aquecida por painéis solares e estacionamentos subterrâneos.

Cerca de 4.000 palestinos já receberam as chaves de seus apartamentos na área de 6,3 km² da cidade, que, estimam os empreendedores, terá 40 mil habitantes.

RUAS VAZIAS

Mas, apesar do ir e vir de turistas em dias especiais, Rawabi ainda parece uma cidade-fantasma. O primeiro dos 22 bairros planejados começou a sair do papel em 2012, e a expectativa era de que todos ficassem prontos em 2017. Neste mês, porém, apenas quatro estão completos.

Em suas ruas projetadas para pedestres, não se veem crianças brincando. Poucos carros circulam. O campo de futebol ainda está em construção, assim como a mesquita, a igreja, o hotel e o hospital.

No shopping Centro Q, poucos clientes circulam entre as lojas de grifes como Mango, Lacoste e Nine West. Até agora, só uma das oito escolas abriu as portas, mas dois terços dos alunos não moram na cidade. Metade dos palestinos que pegaram as chaves passam apenas fins de semanas ou férias por lá.

Muitos consideraram megalomaníaco o projeto de criar do zero uma cidade moderna e sustentável no meio da Palestina. Mas o empresário Bashar Masri, nascido em Nablus e que viveu 25 anos nos EUA, fez da urbe seu projeto de vida. Masri colocou 30% da verba e conseguiu os outros 70% do Qatar -daí o nome do centro comercial.

Para ele, Rawabi é o símbolo da nova geração de palestinos de classe média. É uma mistura de "resistência" à ocupação militar israelense com a vontade de traçar um novo futuro socioeconômico para os 2,5 milhões de palestinos da região.

Obstáculos, no entanto, parecem se multiplicar. Alguns dizem respeito ao controle militar israelense. O suprimento de água para a cidade, controlado por Israel, é motivo de reclamação.

Além disso, demorou quatro anos para que o Exército israelense desse permissão para a construção do trecho da estrada (que ainda precisa ser duplicado) ligando Rawabi à rodovia principal. Isso porque 500 metros do caminho estão, oficialmente, dentro da chamada "área C" da Cisjordânia, sob controle total israelense pelos Acordos de Oslo (1993).

A cidade em si fica localizada inteiramente na "área A", sob governo autônomo palestino. Por lá, não se veem soldados ou patrulhas. Mas há um posto de controle israelense entre Ramallah e Rawabi, o que significa, muitas vezes, congestionamento.

O quiproquó com Israel, no entanto, é apenas um dos problemas. Outro é a atitude "esperar para ver" dos palestinos, que hesitam em deixar as cidades tradicionais em prol de um local desconhecido.

Também há a religião. Os empreendedores de Rawabi criaram um fundo de US$ 550 milhões para financiamento dos apartamentos (de US$ 70 mil a US$ 200 mil cada). O tema, porém, gera polêmica, pois muçulmanos mais conservadores veem a cobrança de juros como um pecado.

POSTOS DE TRABALHO

Mas talvez o maior obstáculo seja a falta de postos de trabalho. Justamente por isso, Masri criou o Rawabi Tech Hub, centro de empresas de alta tecnologia. A iniciativa inclui a Asal, maior firma de software da Palestina, a Connect, incubadora de start-ups, e as filiais das multinacionais Microsoft e Mellanox.

"Queremos oferecer a Palestina como local para investimento. Hoje, somos vistos como área de guerra. Isso não é verdade", diz Sari Taha, 28, diretor do Tech Hub. "O maior obstáculo é a percepção de que balas estão voando por todo lugar. Certamente, não é o melhor momento, politicamente. Mas as balas não estão voando. Não aqui, não em Ramallah, nem em Nablus e nem em Hebron", diz Masri.

Para ambos, o caminho para a independência passa pelo desenvolvimento econômico numa sociedade com desemprego alto (27% na Cisjordânia e 42% em Gaza) e numa região sem recursos naturais.

"Queremos criar um Vale do Silício em Rawabi", afirma o engenheiro de sistemas Mohammed Asmar, 31, que trabalha há três anos para a Microsoft. "Meu sonho é que grandes companhias olhem para os palestinos como opção de talentos."

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