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'The Post' trata de quando jornalista era visto como herói, diz Clóvis Rossi

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GUILHERME GENESTRETI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pré-indicado ao Oscar, "The Post" mostra o último momento em que o jornalista era visto como herói, segundo Clóvis Rossi, colunista da Folha de S.Paulo. "Hoje, é o contrário: o jornalista leva porrada de todos, inclusive do leitor."

Dirigido por Steven Spielberg, o filme retrata os bastidores da cobertura da Guerra do Vietnã pelo "Washington Post" e o impacto da decisão tomada por sua publisher, Kay Graham (Meryl Streep), de divulgar documentos ultrassecretos do governo americano sobre o conflito.

A Folha de S.Paulo organizou uma pré-estreia gratuita do longa na noite desta segunda (22), em São Paulo, seguida de debate. Além de Rossi, participaram do debate Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha de S.Paulo, que mediou o encontro, e Eugênio Bucci, professor titular da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Para Bucci, "é difícil pensar o jornalismo de hoje nas condições do filme", ambientado no começo dos anos 1970. "A imprensa era o centro da esfera pública e pautava a extensão da liberdade de uma maneira espetacular. Isso não está posto mais, mudou de figura", disse.

No centro de "The Post" está o dilema entre noticiar o que é do interesse público, ideal personificado na figura do editor Bem Bradlee (Tom Hanks), e preservar a saúde financeira do jornal, ameaçada pela contraofensiva que o então presidente Richard Nixon lançaria contra a publicação.

O momento também era particularmente delicado para essa movimentação: o "Post" estava no meio de um processo de abertura de capital, que traria mais liquidez para as suas atividades.

"Hoje os jornais não lutam mais para expandir, mas para sobreviver", compara Rossi, citando a crise no modelo de negócios que afeta publicações impressas no mundo inteiro. Ele afirma, contudo, que a máxima expressa no filme se mantém: a de que se não forem os jornalistas os incumbidos de tornar os governos responsáveis por seus atos, ninguém os fará.

Para Bucci, vive-se hoje uma terceira onda da história da imprensa -diferente daquela mostrada no filme, da proeminência do "trabalhador da notícia" como um ser dotado de compreensão sobre o momento. Atualmente, o que vige é uma fase pós-industrial, segundo ele, de um "jornalismo colaborativo, que pensa as notícias além das fronteiras entre os interesses econômicos."

Mediando a conversa, Dávila perguntou aos debatedores se eles acreditavam que esse ímpeto jornalístico se manteria no "Washington Post" dos dias de hoje, adquirido por Jeff Bezos, da Amazon.

Embora Bucci dissesse não saber precisar a resposta, disse não acreditar numa "empresa jornalística dirigida por um grupo de acionistas" e que a "qualidade jornalística tem a ver com o compromisso histórico que certas famílias assumem de informar o público".

Segundo ele, "a aposta não teria lugar num ambiente assim". "O papel do jornalista é desafiar. É grave entender que ele tem um lado."

Dávila também trouxe o assunto do jornalismo na era do algoritmo e da recente decisão do Facebook de privilegiar conteúdo compartilhado por particulares em detrimento do conteúdo difundido pela imprensa.

"Numa rede social, o público é a matéria-prima e a mercadoria", respondeu Bucci, "O público que se imagina consumidor é a mercadoria que está sendo vendida por um círculo que lhe escapa. A imprensa é controlada por regulações nacionais, mas o Facebook, por ser mundial, sobrevoa os marcos regulatórios nacionais."

Outra questão abordada no filme é o papel das mulheres nas redações. Clóvis Rossi lembrou que ao trabalhar no jornal "O Estado de S. Paulo", em 1965, não havia nenhuma mulher.

"A primeira que entrou virou musa, e não necessariamente por ser bonita, mas por ser a única", disse. "Hoje, a situação da mulher é completamente diferente. E o jornalismo ganhou muito com isso."

"The Post" estreia no circuito nesta quinta (25).

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