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Sarah Jessica Parker retrata dramas femininos em nova temporada de 'Divorce'

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SILAS MARTÍ

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Numa sala do último andar da torre da HBO, em Nova York, Sarah Jessica Parker desdenha da cidade lá fora. A atriz que passou mais de uma década tomando cosmopolitans e desfilando de salto alto pelas ruas de Manhattan como a estrela de "Sex and the City" agora encarna uma divorciada no subúrbio.

"Mais e mais mulheres estão querendo o divórcio. Elas sentem que sacrificaram sua curiosidade, tiveram filhos cedo demais e encaram isso como a chance de viver outra etapa", ela diz. "É como se ganhassem uma segunda vida."

No comando de "Divorce", série que chega agora à sua segunda temporada, Parker também parece querer se divorciar de Carrie Bradshaw, a colunista de sexo do seriado que marcou a virada do milênio com os dramas, penteados, drinques e vestidos extravagantes de quatro mulheres muito à vontade na cama.

Sua mudança, aliás, não podia ser mais radical. Parker, que é também produtora executiva dessa sua segunda série na HBO, tentou construir do zero um outro universo para Frances, a mulher no centro da história pega pelo marido quando ela passa a se envolver com outro homem.

Hastings-on-Hudson, um vilarejo a algumas paradas de trem da maior metrópole americana, é o cenário "cinematográfico", nas palavras de Parker, dessa separação.

"Lá tem o rio Hudson, com pedaços de gelo flutuando devagar no inverno, a vista da ponte George Washington e todas aquelas montanhas", ela descreve. "É a vida real de muita gente fora da cidade."

Mesmo nas cenas rodadas em Manhattan, onde Frances enfim assina os papéis de seu divórcio, Parker conta que fizeram um esforço enorme para que nenhuma locação, enquadramento ou figurino lembrasse "Sex and the City".

"Eu amo a Frances porque ela é diferente. Ela é divorciada e não mora na cidade. Entendo que ela se pareça com a Carrie Bradshaw. Eu também me pareço com a Carrie", brinca a atriz. "Mas meu papel é não ser vulnerável a isso. Não é mais uma série sobre uma mulher nova-iorquina. É uma mulher que poderia morar em qualquer lugar."

Longe do fulgor dos neons da Broadway e telões da Times Square, "Divorce" mergulha nos dramas pequenos de uma mãe agora solteira lidando com a rebeldia dos filhos adolescentes, a partilha dos bens e as tentativas frustradas de retomar a carreira.

"Ela está tentando encontrar sua voz, cavar um espaço para ela", diz Parker. "Da mesma forma que muitas mulheres, ela também abriu mão de muitas coisas porque pensava que precisava desistir."

O lamento pelas perdas da personagem espelha também a briga de Parker por condições melhores de trabalho para as mulheres em Hollywood. Ela foi uma das atrizes que se vestiram de preto na entrega do Globo de Ouro em protesto contra a onda de casos de assédio sexual que vem abalando a indústria do entretenimento nos EUA.

No tapete vermelho, ainda reclamou da disparidade entre salários de homens e mulheres em canais de televisão.

Mesmo atrás das câmeras, Parker diz fazer o máximo para trabalhar com um time em que a maioria é feminina desde que virou também produtora executiva -a nova série tem mais roteiristas mulheres do que homens e uma série de diretoras no comando.

Sua tentativa de equilibrar as vozes nos bastidores seria um primeiro passo rumo à meta de alguns estúdios de Hollywood, entre outras indústrias, de ter pelo menos metade dos cargos de chefia entregue a mulheres até 2020.

"Não há mais como recuar. Boa sorte se você acha que pode se esconder disso. Sei que mudanças são dolorosas, em especial para os mais confortáveis, mas não podemos continuar trabalhando sem ter uma conversa sobre isso", diz Parker. "Talvez eu seja otimista demais, mas acho que vamos ver essas mudanças."

OLHAR FEMININO

O elenco de "Divorce", pelo menos, parece alinhado com a nova realidade. Thomas Haden Church, que faz o marido traído de Frances, por exemplo, conta que a decisão dos roteiristas de fazer seu personagem se envolver com uma mulher muito mais jovem do que ele causou uma certa tensão nos bastidores.

"Nós paramos mesmo para refletir se seria apropriado", diz Haden Church. "Eu fiquei preocupado com isso."

Em cena, aliás, seu personagem murcha diante da força -e da sexualidade aflorada- das mulheres. Robert, o ex-marido, é um investidor de Wall Street que perdeu tudo -sua fortuna, a mulher e a casa- e acaba indo trabalhar como pedreiro para sobreviver.

"É muito feminina a perspectiva dessa série", diz Talia Balsam, atriz que vive uma psicóloga amiga da protagonista. "Temos falado muito sobre personagens femininas que são mais do que a namorada ou a mãe de um homem, que vão além de um artifício para fazer avançar a trama."

Sua personagem, no caso, virou o ponto de partida de uma discussão sobre mulheres que redescobrem o sexo casual na meia idade. Balsam conta que até aprendeu a usar aplicativos de paquera para entender a dinâmica mais rasa de relacionamentos atuais.

Molly Shannon, atriz que ganhou fama numa série de temporadas do humorístico "Saturday Night Live", também diz ter encontrado em "Divorce" -ela encarna uma dondoca em pé de guerra com o marido- um papel complexo e sedutor acima da média.

"O divórcio é um bom território para garimpar elementos do drama e do humor", diz Shannon. "Quando criam papéis incríveis para as mulheres, elas se veem interpretando, elas se matam por isso. Estamos vivendo um momento muito emocionante."

NA TV

Divorce

Quando estreia em 21/1, na HBO

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