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Descoberta sobre relógio biológico ganha Nobel de fisiologia ou medicina

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GABRIEL ALVES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Nobel de fisiologia ou medicina de 2017 foi para três americanos, Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W Young, pelas descobertas dos mecanismos moleculares por trás dos ritmos circadianos. O anúncio foi feito na manhã desta segunda (2).

A palavra circadiano significa "ao redor do dia" e os ritmos circadianos têm origem evolutiva que remonta às células mais primitivas. Na prática, eles permitem que as células -e os organismos que formam- tenham um comportamento otimizado dependendo da hora do dia.

O trabalho dos americanos foi decifrar quais são as engrenagens moleculares do chamado relógio interno. A grande sacada dos pesquisadores foi perceber que existe um processo de retroalimentação que configura o relógio.

Um experimento conduzido no século 18 já mostrava que seres vivos poderiam ter uma espécie de relógio interno: a planta mimosa abre suas folhas de dia e as fecha à noite. Quando foi colocada em um ambiente escuro, o padrão de abertura e fechamento se repetia. O que faltava era explicar como isso ocorria.

Os primeiros experimentos ocorreram na década de 1970, mas só na década de de 1980 é que houve um salto na área, com estudos usando a mosquinha Drosphila melanogaster.

A dupla Hall e Rosbash foi responsável pelas descobertas do funcionamento do gene "period".

Basicamente, o gene period é o responsável pela produção do RNA mensageiro que contém instruções para a produção da proteína PER. Essa proteína, por sua vez, é responsável por inibir a atividade do gene period.

Dessa forma, dependendo da quantidade de proteína PER em suas células, é possível que o organismo tenha uma boa noção aproximada de que horas são.

Uma questão, no entanto, faltava ser resolvida: a periodicidade. O que faria o ciclo de produção de PER durar aproximadamente 24h?

A resposta veio com o trabalho de Young, que descobriu um outro gene de relógio, o "timeless" que produz a proteína TIM.

Young mostrou que a proteína TIM se liga à proteína PER. Esse complexo consegue entrar no núcleo da célula e bloquear a atividade do gene period. Ele ainda descobriu um outro gene, o "doubletime", que faz proteína DBT, também capaz de atuar diretamente sobre a PER, provocando sua degradação.

Atualmente já há também explicações de como fatores externos, como a luminosidade, entram na jogada. Mas esse avanço só foi possível por esses trabalhos que quebraram o paradigma de uma área, segundo a comissão do Nobel.

A partir das descobertas premiadas em 2017 surgiu o embasamento para explicar por que, em humanos, a pressão sanguínea é maior e os reflexos são mais ágeis de dia e, de noite, tendemos a sentir sonolência e baixar a temperatura corporal.

Há trabalhos que mostram possíveis efeitos negativos quando o relógio interno é agredido, causando problemas como hipertensão, obesidade, diabetes, problemas de memória e colesterol elevado.

Em 2016 o vencedor do Prêmio Nobel foi Yoshinori Ohsumi, que desvendou alguns dos mecanismos pelos quais as células reciclam o próprio "lixo", a autofagia. O processo é importante para a renovação e também tem papel importante em doenças.

A única pessoa nascida no Brasil que recebeu um Nobel foi o britânico Peter Medawar, pela descoberta das bases da tolerância imunológica adquirida, ou seja, a capacidade de fazer o sistema imunológico de um organismo não reagir a certos fatores.

ESCOLHA

A escolha do vencedor do mais importante prêmio da área é realizada por um grupo de 50 pesquisadores ligados ao Instituto Karolinska, na Suécia, escolhido por Alfred Nobel em seu testamento para eleger aquele que tenha feito notáveis contribuições ao futuro da humanidade para receber a láurea.

O prazo para o comitê receber as indicações foi dia 31 de janeiros. Ao todo foram 361 nomes no páreo.

Podem indicar nomes membros do comitê do Nobel do Instituto Karolinska, biologistas e médicos ligados à Academia Real Sueca de Ciências, vencedores dos Nobéis de fisiologia ou medicina ou de química, professores titulares de medicina de instituições suecas, norueguesas, finlandesas, islandesas ou dinamarquesas e acadêmicos e cientistas selecionados pelo comitê do Nobel –autoindicações são desconsideradas.

A cerimônia de premiação propriamente dita dos vencedores deste ano só ocorre em dezembro.

Entre as descobertas premiadas no passado estão a descoberta da estrutura do DNA por James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins (1962), a da penicilina por Fleming e outros (1945), a do ciclo do ácido cítrico por Hans Krebs (1953), e a da estrutura do sistema nervoso por Camillo Golgi e Santiago Ramón y Cajal (1906).

Outras descobertas notáveis premiadas pelo Nobel de medicina ou fisiologia são a da insulina (1932), da relação entre HPV e câncer (2008), a da fertilização in vitro (2010), a de que existem grupos sanguíneos (1930) e a de como agem os hormônios (1971).

Os vencedores de 2017 dividirão o prêmio de 9 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 3,5 milhões). O dinheiro vem de um fundo de mais de 4 bilhões de coroas sueca (em valores atuais) deixado pelo patrono do prêmio, Alfred Nobel (1833-1896), inventor da dinamite. Os prêmios são distribuídos desde 1901. Além do valor em dinheiro, o laureado recebe uma medalha e um diploma.

QUÍMICA E FÍSICA

Nesta terça (3) e na quarta (4) serão anunciados, respectivamente, os prêmios nas áreas de física e de química. Os dois são distribuídos pela Academia Real Sueca de Ciências.

Em 2016 ganharam o Nobel de física um trio de pesquisadores dos EUA que desenvolveu técnicas capazes de desvendar a existência de novos estados da matéria em condições extremas.

No mesmo ano, o prêmio de química ficou com três pesquisadores responsáveis pela aurora da área das nanomáquinas, dispositivos moleculares capazes de tarefas extraordinárias, ao menos em teoria, como levar um carregamento de uma determinada droga diretamente para um tumor, combatendo-o.

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