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População de vilarejo destruído vê tremor como divino

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SILAS MARTÍ, ENVIADO ESPECIAL

AXOCHIAPAN, MÉXICO (FOLHAPRESS) - "Já tinham me dado por morto, por esmagado", conta o pároco Osmar Pérez Uribe, no que sobrou da igreja de Padre Jesús, um dos sete templos arrasados pelo terremoto da última terça-feira (19) em Axochiapan. "Mas os mortos não andam, e a vida aqui segue adiante."

Três dias depois da tragédia, esse povoado a 150 km da capital mexicana, epicentro do abalo, parecia se esforçar para sair do estado de choque e angústia.

Enquanto o mercado de rua estava a todo vapor, com pessoas vendendo cactos, galinhas recém-degoladas, peixes frescos e verduras, o padre comandava fiéis em uma delicada operação de resgate para tirar dos escombros hóstias, cálice, lamparinas, incensários e bancos que estragariam ao relento.

Na hora do tremor, a cúpula do maior templo da cidade desabou, esmagando uma mulher que rezava no momento --a única morta no vilarejo de 17 mil habitantes e uma das 295 vítimas da catástrofe.

"Foi aqui que a senhora Leonor perdeu a vida", dizia o padre, apontando para um amontoado de tijolos no meio da igreja. "Todas as paredes estão rasgadas. Há fissuras em tudo. Mas guardamos todas as imagens sacras, nenhuma delas sofreu danos."

Impressionam, de fato, os nichos vazios da igreja, buracos que sobraram nos afrescos rachados. Querubins deformados e janelas estraçalhadas, lembrando esporas, rodeiam pedaços de pó azul celeste, cor de rosa e dourado, antes os tons dos mantos dos anjos que agora se perdem no cinza dos escombros.

"Muita gente diz que foi um aviso de Deus, porque todas as igrejas caíram", dizia Leticia Aguilar, que limpava os banheiros do templo. "Quando aconteceu o terremoto, diziam que o apocalipse tinha chegado. Alguns gritavam que era hora de os pecadores se arrependerem."

Esse vilarejo sonolento, com estátuas da Virgem em redomas em cada esquina, não deixa dúvidas do grau de catolicismo do lugar --depois do Brasil, o México é o segundo país com mais seguidores da religião em todo o mundo.

Em Axochiapan, homens de chapéu de caubói contemplam a destruição de suas casas e senhoras enroladas em xales fazem o sinal da cruz ao atravessar ruas minúsculas.

Na praça central, enquanto a Defesa Civil se esforçava para listar todas as construções em perigo, entre elas 40 casas que se tornaram inabitáveis, moradores diziam ter certeza de que a fúria divina estava por trás da tragédia. É uma crença reforçada pela coincidência de datas. Axochiapan sofreu pouco com o terremoto de 19 de setembro de 1985, mas o abalo deste ano foi devastador.

"São coisas de Deus. Ele concebe tudo no mesmo dia", dizia Lourdes Salazar, empurrando um carrinho de verduras que tentava vender numa das ruas esburacadas do povoado. "Ele vai nos levando."

Salazar conta que por pouco, aliás, não perdeu o filho. Sua casa de adobe, tijolos de terra crua e água caiu pela metade. "O quarto despencou como numa trovoada", ela conta. "Todas as janelas estouraram."

No quarteirão ao lado, o lavrador Antonio Rubio carregava com a ajuda de amigos os pedaços do telhado de sua casa de barro, que também desabou. A construção de mais de cem anos, nas contas dele, sobreviveu sem rachaduras ao tremor de 32 anos atrás, mas não resistiu ao do início desta semana.

"São frágeis essas casas, elas não aguentam", dizia ele. "Graças a Deus ninguém se machucou, mas estamos tirando esses pedaços daqui porque é muito perigoso."

Com medo, Serafín Avillar e Dorotea Goches, que esperavam o padre sair da igreja destroçada para saber onde seria a próxima missa, contavam que desde o tremor estavam dormindo na rua.

"Estamos com medo de dormir, porque pode chacoalhar de novo e cair tudo", diz Avillar. "Não dava nem para andar na hora, e eu me segurei numa árvore. São coisas de Deus. Nada pode com ele."

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