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ATUALIZADA - Exército cerca a Rocinha após pânico no Rio

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NICOLA PAMPLONA, LUCAS VETTORAZZO E GUSTAVO URIBE

RIO DE JANEIRO, RJ, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após cinco dias de operações policiais, guerra entre facções e tiroteios que provocaram uma nova onda de pânico no Rio, a favela da Rocinha, a maior do Brasil, na zona sul da capital fluminense, foi cercada na tarde desta sexta (22) por homens das Forças Armadas, destacados para atuar por tempo indeterminado no patrulhamento dos acessos à comunidade.

O contingente de 950 militares foi anunciado pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann, depois de semana de troca de farpas com a gestão Luiz Fernando Pezão (PMDB) -e críticas à falta de ações conjuntas contra a violência.

A Rocinha enfrenta guerra entre facções pelo controle do tráfico desde domingo (17).

Nesta sexta, os tiroteios levaram a polícia a fechar, por quatro horas, a Auto Estrada Lagoa-Barra, principal via de ligação entre as zonas sul e oeste da cidade, onde está sendo realizado o Rock in Rio.

Houve trocas de tiros também em outras sete comunidades do Rio. A onda de violência gerou uma série de boatos e espalhou a sensação de insegurança pela população, com fechamento de escolas, postos de saúde e comércio.

Após operação do Bope (Batalhão de Operações Especiais) na Rocinha de manhã, para buscar suspeitos de participar da guerra entre facções, houve confronto. Às 8h, um grupo ateou fogo em um ônibus na avenida Niemeyer, em São Conrado. Uma granada foi lançada em direção a um carro policial, mas o artefato não explodiu. Luciano Monteiro Marques, 41, morador da comunidade, foi baleado e hospitalizado.

Com o agravamento da situação, o governo do Rio decidiu pedir a ajuda para as Forças Armadas cercarem a Rocinha, liberando a polícia para atuar dentro da favela. O reforço começou a chegar às 15h30, com 14 blindados.

O secretário de Segurança do Rio, Roberto Sá, disse que a topografia da região e as armas pesadas dos criminosos dificultavam a ação policial, mas evitou demonstrar alarmismo. "O Rio não está em guerra. O Rio tem uma situação de violência urbana difícil, como no resto do Brasil."

O Estado está em crise e tem enfrentado dificuldades para pagar salários e garantir estrutura para a polícia. Há um mês, cortou em 30% --ou cerca de 3.000 homens-- o efetivo das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

O deslocamento de tropas para a Rocinha foi a primeira ação conjunta entre as forças federais e estaduais desde 21 de agosto. O apoio das Forças Armadas ao Rio havia sido autorizado pelo governo Temer em 28 de julho, mas os trabalhos ficaram emperrados.

FACÇÕES

A guerra pelo controle da Rocinha envolve os traficantes Antônio Bonfim Lopes, o Nem, preso em 2010, e seu sucessor no comando, Rogério Avelino, o Rogério 157.

Nem estaria insatisfeito com a atuação de Rogério, que passou a cobrar os moradores por serviços como água e mototáxi. Determinou a invasão de dentro de presídio federal em Rondônia, com apoio de criminosos da facção ADA (Amigo dos Amigos), a segunda maior do Rio. Rogério foi reforçado por bandidos do CV (Comando Vermelho).

A guerra entre facções deixou pelo menos três mortos no domingo. Na segunda, primeiro dia de operação policial, outra pessoa morreu.

Na quinta, Pezão e o ministro Jungmann haviam divulgado um acerto para retomar a ação das Forças Armadas, após desentendimento sobre que papel as tropas teriam.

"Por que não mandaram toda essa gente no domingo? Agora todo mundo já se escondeu ou foi embora. Essa gente fardada aqui embaixo só serve pra televisão", questionou um morador à Folha.

A polícia indiciou 11 suspeitos de participar da invasão de domingo. Nesta sexta, um homem se entregou à Polícia Federal e foi levado para depor. Edson Antônio Fraga, o Dançarino, era alvo de três mandados de prisão.

A atuação do Estado foi criticada pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

"O Rio não pode ficar à mercê de vaidades e orgulhos feridos de autoridades públicas. As últimas horas escancaram o sentido de urgência de uma ação coordenada no estado", disse, em nota, a Firjan.

"A escalada da violência no Rio é consequência direta da inexistência de um Plano de Segurança Pública no Estado e da insistência em soluções provisórias, que tentam apenas apagar incêndios, sem qualquer coordenação", disse o presidente da OAB/RJ, Felipe Santa Cruz.

Em evento pela manhã, o governador alegou que a crise financeira tem efeitos sobre as forças de segurança do Estado. "Perdemos em combate ou por aposentadoria 1.800 a 2.000 policiais por ano. Como é que repõe isso?".

Ele vai propor à Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) a criação de um fundo de segurança, que contaria com 5% da arrecadação com royalties de petróleo.

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