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Júri da maior chacina de SP levará até 12 dias e terá segurança especial

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ROGÉRIO PAGNAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sob esquema especial de segurança e com possibilidade de duração de até 12 dias, o julgamento de três acusados de participação na maior chacina da história de São Paulo terá início da tarde desta segunda-feira (18) em Osasco, cidade da região metropolitana da capital paulista.

Em agosto de 2015, ataques em série de homens encapuzados deixaram um saldo de 17 pessoas assassinadas em Osasco e na vizinha Barueri. Irão a julgamento os policiais militares Fabrício Emmanuel Eleutério, 32, e Thiago Barbosa Henklain, 30, e o guarda municipal de Barueri Sérgio Manhanhã, 43. O júri do também PM Victor Cristilder, 32, será realizado em data ainda não marcada, porque ele foi o único que recorreu da sentença que mandou todos a júri.

A defesa dos outros três réus preferiu não recorrer de decisão porque afirma acreditar na absolvição de todos os réus por absoluta falta de provas. Os recursos, assim, só iram mantê-los por mais tempos na prisão. Todos eles, que se declaram inocentes, estão presos há cerca de dois anos.

De acordo com a acusação, a chacina foi provocada por um grupo de PMs, de Osasco, e guardas civis, da vizinha Barueri, que se uniram para vingar a morte de dois colegas deles em dias anteriores. Os criminosos, usando touca ninja, saíram em ao menos dois carros por ruas dessas cidades atirando contra alvos escolhidos por eles. Em um único bar de Osasco, oito pessoas foram assassinadas e outras duas ficaram feridas.

SEGURANÇA

Quanto à segurança do julgamento, a Polícia Militar prepara um reforço no policiamento no entorno do fórum, que inclui desvio e interdição de ruas que dão acesso à frente do prédio. Como há grande quantidade de testemunhas arroladas por Promotoria e defesa (são mais de 40), a juíza responsável, Élia Kinosita Bulman, reservou o plenário por 12 dias. A Promotoria diz acreditar que a decisão do júri possa ocorrer até sexta-feira (22).

Todo esse montante envolvido obrigou o Tribunal de Justiça de São Paulo a montar esquema especial de transporte, já que as testemunhas, todas sob vigilância permanente, irão pernoitar nos fórum da Barra Funda e Santana, ambos em São Paulo.

Ainda sobre o tamanho do julgamento, a Justiça estudava na semana passada como receber todos os familiares das vítimas, já que o plenário tem capacidade para 119 pessoas. Dessas cadeiras, 15 delas são destinadas à imprensa.

FAMÍLIAS

A certeza de vitória demonstrada pelos advogados de defesa não é mesma, porém, encontrada na Promotoria. O promotor Marcelo Alexandre de Oliveira, em entrevista a jornalista na última quinta (14), disse é impossível prever o que poderá passar na cabeça dos jurados. "Qual o prognóstico do júri de Osasco? Eu não sei."

Essa falta de convicção na vitória aumenta a ansiedade das famílias das vítimas que nem conseguir imaginar a possibilidade de o crime sair sem nenhum culpado. "Nossa, a gente vai entrar em pânico. Todas as mães. Posso estar enganada, porque as vezes a gente fala as cosias sem saber, mas se existir Justiça eu acho que eles são vão ser condenados", disse Maria José de Lima Silva, 51, que teve um filho de 16 anos (Rodrigo) assassinado. "Espero que eles sejam condenados pelos erros que comentaram. Por saírem matando pessoas inocentes."

"Está todo mundo tenso. Ninguém sabe o que vai acontecer. Eu mesma, que geralmente sou muito calma, estou super tensa, até me deram remédio. Você fica pensando mil e uma coisa do que vai acontecer", disse Zilda Maria de Paula, 65, mãe do pintor Fernando de Paula, 34. "Quando eu vejo um policial eu penso: será que foi um desses que matou? Porque nem todos estão presos, né?"

O filho único de dona Zilda estava no bar do Juvenal, na divisa de Osasco com Barueri, onde ocorreu a maioria das mortes -foram oito vítimas fatais e dois feridos. Quem também perdeu o filho nesse ataque (Leandro Assunção, 36) foi Aparecida Gomes da Silva Assunção, 55. Ela disse que não quer pensar na possibilidade absolvição. "Não acredito na absolvição não. Porque o que fizeram foi desumano. Não acredito nessa possibilidade."

DEFESA

O advogado João Carlos Campanini, defensor de Cristilder, disse que por erros na investigação da polícia paulista caminha-se para absolvição de todos os erros -já que não existe provas contundentes contra nenhum dos réus que estão presos. "A investigação foi toda um desastre", disse ele.

"Uma investigação feita às pressas para apontar um culpado, não pra encontrar o verdadeiro, corre-se o risco de tudo isso que aconteceu acabar em nada. Essas 17 pessoas morreram e os verdadeiros culpados nunca vão ficar presos. Isso, para mim, é uma falência da polícia", disse.

Já o advogado Fernando Capano, defensor de Henklain, disse diz que não é porque tantas pessoas foram mortas que pode-se admitir que pessoas inocentes paguem sejam presas. "Num estado democrático de direito não se pode admiti qualquer morte violenta. Mas, ao mesmo tempo não pode admitir que um processo com todos esses defeitos seja levado a termo no sentido de condenar uma pessoa. Isso é um absurdo", disse. "Não podemos admitir: 'eu acho que são eles, então 300 anos para cada um deles ali."

A advogada Flávia Artilheiro, uma das defensoras de Fabrício Eleutério, afirma que o júri esse júri só irão acontecer porque faltou coragem das autoridades para admitir que não conseguiram encontrar os verdadeiros culpados -em especial seu cliente.

"Eu entendo que há um clamor público, justificável e correta, e que houve uma apreciação política dos fatos e não jurídica. Porque nós temos provas técnicas e prova oral da inocência do Fabrício e todos esses elementos foram desprezados", disse.

Já Abelardo Julio da Rocha, defensor do guarda Sérgio Manhanhã, diz que tão cruel quanto ao assassinato é mandar para prisão um inocente. Para ele, isso só tudo ocorreu por conta de "sucessão desastrosa de equívocos do DHPP", originados por uma pressão política. Em razão disso, uma pessoa inocente ficou dois anos no cárcere. Isso é monstruoso", disse.

A CHACINA DE OSASCO E BARUERI

Do que os 4 suspeitos são acusados

De estarem envolvidos no assassinato de 17 pessoas em 13.ago.2015, em Osasco e Barueri, em retaliação à morte de um PM e um guarda municipal em assaltos dias antes. Cada réu é acusado por um número de mortos e feridos

O que diz a denúncia

Os réus faziam parte de uma milícia armada que atuava na segurança de comerciantes da região e na prática de crimes, como homicídios. Eles se conheciam por meio do PM Victor Cristilder, que seria chefe da segurança de um supermercado de Carapicuíba

Principais evidências, segundo a Promotoria

- Há 3 testemunhas: uma reconheceu um dos PMs na chacina, uma viu outro PM na pré-chacina e a terceira diz que vizinho ouviu uma briga

- Um dos PMs e o GCM trocaram mensagens de "positivo" antes e depois do horário da chacina

- Parte de cápsulas apreendias eram de lote do Exército, onde um deles já trabalhou

Fragilidades da acusação

- Não há provas da ligação entre os quatro réus, contrariando a tese de formação de milícia

- Relatos das testemunhas apresentam contradições

- Faltam evidências como armas, veículos e ligações em celular

CRONOLOGIA DO CASO

7.ago.2015

Cabo da PM Ademilson Pereira, 42, é morto em assalto em Osasco

8 a 10.ago.2015

Ocorrem "pré-chacinas", com mortes em Itapevi, Carapicuíba e Osasco

12.ago.2015

Guarda civil Jefferson Luiz da Silva, 40, é morto em assalto em Barueri

13.ago.2015

Um homem é morto em Itapevi, e chacina em Osasco e Barueri termina com 17 mortes

Dez.2015

Após polícia concluir investigação, Ministério Público denuncia três PMs e um guarda municipal

Out.2016

Os quatro suspeitos são presos

Dez.2016

Victor Cristilder, um dos PMs, é absolvido em outra denúncia por morte em 8.ago ligada à chacina

Fev.2017

Justiça decide que os quatro acusados no processo principal vão a júri popular

18.set.2017

Início do julgamento em tribunal de Osasco, que terá 42 testemunhas

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