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Clínica contra crack em SP tem de falta de estrutura a 'rebelião', diz relatório

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THIAGO AMÂNCIO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Hospitais psiquiátricos conveniados à Prefeitura de São Paulo para receber usuários de drogas do programa Redenção, da gestão Doria (PSDB), têm carência de profissionais e não há tratamento individualizado dos internos.

Além disso, os pacientes têm pouca informação sobre os medicamentos a que são submetidos e há dificuldades para se conseguir alta a pedido das internações, que são voluntárias.

Esse é o cenário encontrado pelos conselhos regionais de medicina, psicologia, serviço social e enfermagem, além do Ministério Público, da Defensoria Pública e do Comuda (Conselho Municipal de Políticas de Drogas e Álcool), que fiscalizaram unidades hospitalares entre julho e agosto e lançaram, nesta terça-feira (29), o relatório "Estamos de Olho: Avaliação Conjunta dos Hospitais Psiquiátricos do Projeto Redenção".

As entidades visitaram os hospitais Cantareira, Irmãs Hospitaleiras (N. Sra. de Fátima) e São João de Deus.

Há um assistente social para 70 internados no hospital Cantareira, segundo o ex-presidente do Cremesp, Mauro Aranha. "Não dá conta dessas pessoas, que tem vulnerabilidade social." No hospital São João de Deus, havia dois terapeutas ocupacionais e quatro psicólogos para os 109 internados no momento da fiscalização, de acordo com Aranha. "Dá para fazer trabalhos em grupo, não individualizados."

De acordo com o Mauro Dias, do Conselho Regional de Enfermagem, há um déficit de 71 enfermeiros nos três hospitais fiscalizados, e faltam 48 técnicos de enfermagem.

Os hospitais cumprem "razoavelmente bem o trabalho de desintoxicação", nas palavras de Aranha, mas falta planejamento no restante do tratamento. "Eles vão sair desintoxicados e com uma indicação de procurar o Centro de Atenção Psicossocial da sua região. Vários não vão, eles não vão dar continuidade ao tratamento."

Não há, segundo o relatório, um Projeto Terapêutico Singular, onde cada interno segue um tratamento individualizado, como promete a prefeitura. O cuidado personalizado é tido como fundamental para o sucesso do tratamento.

Os internos também relataram dificuldades em conseguir atendimento psicológico individualizado dentro das instituições.

Além disso, os hospitais não estavam preparados para o grande fluxo de internos que chegou desde o começo do Redenção, e falta articulação entre os hospitais e outros serviços da prefeitura, diz o relatório. Os pacientes ficam ociosos, e há usuários que buscam internação por não ter onde dormir, segundo o documento.

As entidades dizem que notificaram a prefeitura e que farão novas fiscalizações. O promotor Arthur Pinto Filho disse que o Ministério Público tentará solucionar problemas apresentados por meio de acordos com a gestão atual.

'PRESÍDIOS'

"Todas as unidades hospitalares adotam condutas e características típicas do sistema prisional, com portas trancadas que dividem as unidades de internação", diz o Cress (conselho de serviço social), no relatório.

No hospital São João de Deus, segundo relatório do CRP (Conselho Regional de Psicologia), pacientes narraram até rebeliões ("momentos de crise coletiva, agressões e violência desmedida", nas palavras do documento), o que a prefeitura nega, e briga entre grupos de internos que dominavam outros usuários.

De acordo com o documento, internos se projetaram como "comandantes paralelos" em uma ala do hospital, até que foram agredidos por "colegas fatigados de opressão". O primeiro grupo foi transferido para uma outra ala, onde também houve conflitos. A direção do hospital não entrava no local, e havia brigas entre as duas alas, até que o hospital expulsou parte dos internos.

Nos hospitais Cantareira e N. Sra. de Fátima, segundo relato de usuários ao Ministério Público, há comércio de cigarros em troca de objetos (como roupas e calçados), e serviços (como corte de cabelo).

OUTRO LADO

Questionado sobre os conflitos entre internos nos hospitais, o coordenador do programa Redenção, Arthur Guerra, afirmou que a prefeitura não identificou esses casos. "Eu não reconheço isso. Não é o que nós temos visto. Ao contrário, temos visto um trabalho muito bom, de excelência. Eu vejo um orgulho por parte desses profissionais", disse.

"Mas eu posso imaginar que em qualquer ambiente fechado deva existir de forma quase espontânea algum tipo de liderança que vai tentar oferecer alguns limites", afirmou.

Para Guerra, "existe número suficiente de profissionais nos hospitais conveniados para atender de forma muito boa àquilo que está sendo apresentado".

O psiquiatra disse ainda que o Projeto Terapêutico Singular é criado depois da internação psiquiátrica, quando os pacientes são tratados nos Caps (Centro de Atenção Psicossocial). "A ideia de que durante a internação seja construído um Projeto Terapêutico Singular é romântica, não é assim."

Ele reconheceu as críticas apresentadas no relatório. "As críticas são pertinentes, são justas, dão para nós a base para que a gente possa reformular, adaptar e oferecer um programa melhor, mais forte, mais consistente", disse. "Concordo que o projeto tem ajustes que precisam ser feitos. São ajustes próprios de um projeto ousado, grande, tratando de pessoas com grave comprometimento social, físico e psicológico, e que precisam ser cuidadas não só do ponto de vista médico, mas também do ponto de vista social."

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