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ATUALIZADA - Morre o sambista Wilson das Neves; corpo é velado no Império Serrano

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FRANCESCA ANGIOLILLO, MARTHA ALVES, VICTORIA AZEVEDO E LUIZA FRANCO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Quem me ensinou sabia."

Este era o bordão que usava Wilson das Neves, morto no sábado (26), aos 81, quando recebia um elogio, segundo recordou Chico Buarque em perfil do baterista carioca, que tocou em sua banda por mais de 30 anos, publicado na "Ilustríssima" em 2010.

Das Neves, como era chamado, tinha câncer e estava internado em um hospital na Ilha do Governador, no Rio.

Em sua carreira, que cobriu mais de seis décadas, foi um dos bateristas mais requisitados do país e referência do samba e da MPB.

Tocou com mais de 750 músicos –a lista, variada, inclui veteranos de fama internacional, como Caetano Veloso, Clara Nunes, Cartola, Nelson Cavaquinho, João Nogueira, Sarah Vaughan e Paul Simon, mas também nomes mais jovens, como os da Orquestra Imperial.

O corpo está sendo velado neste domingo (27), desde as 18h, na quadra da escola de samba Império Serrano, em Madureira, zona norte da cidade. O enterro será na segunda (28), às 10h, no Cemitério Jardim da Saudade.

BAILINHOS

Crescido em São Cristóvão, na região central do Rio, era ainda criança quando descobriu a bateria. Por volta dos dez anos, viu o músico Suruba tocar e passou a estudar o instrumento, estreando em bailinhos de Realengo, na zona oeste carioca, aos 18.

Foi artista contratado da Rádio Nacional, onde conheceu o primeiro grande baterista de samba do país, Luciano Perrone (1908-2001).

Tornou-se baterista incontornável também nos estúdios. Ataulfo Alves, por exemplo, não gravava sem ele.

Seu nome figura na maioria dos encartes de discos dos anos 1960 e 1970. Gravou discos instrumentais que se tornaram raridades.

Sua carreira passou do estúdio para os palcos, ao lado de nomes como Wilson Simonal e João Nogueira.

Dizia ter entrado em cena com "os três cantores que mais respeitam os músicos". Eram Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso e Chico, a quem chamava de "o Chefia".

Com Elis Regina, fez três meses de turnê pela Europa. Foi sondado mais de uma vez para ficar no exterior.

Respondia que não e, à Folha, argumentou citando as duas paixões. "Lá tem Flamengo? Tem Império Serrano? Então, o que eu vou fazer lá? Não me tira daqui, não", disse a Luiz Fernando Vianna no já mencionado perfil.

Era membro da Velha Guarda do Império Serrano e padrinho da bateria da escola de Madureira (zona norte), onde seu corpo foi velado neste domingo. Ô SORTE!

Sua trajetória, porém, foi além do banquinho da bateria, seu trono de rei.

Há pouco mais de 20 anos, em 1996, mostrou que era também cantor e compositor –talento que escondia desde os anos 1970–, lançando-se com o disco "O Som Sagrado de Wilson das Neves".

O álbum, do qual participaram Paulo César Pinheiro e Chico, recebeu o Prêmio da Música Brasileira.

Gravaria ainda outros três discos como intérprete, "Brasão de Orfeu" (2004), "Pra Gente Fazer Mais Um Samba" (2010) e "Se me Chamar, Ô Sorte" (2013).

No último, compôs "Fragmentos do Amor" com Nelson Sargento. Uma segunda parceria, da dupla, letra de Das Neves, melodia de Sargento, ficou incompleta.

"Ô sorte", aliás, era outro de seus muitos bordões –o músico era conhecido não só pela elegância mas também pelo humor e pela verve.

Das Neves contava que "ô sorte" foi um dizer que surgiu nos anos 1970, pronunciado sempre que se encontrava com o cantor Roberto Ribeiro (1940-96) na quadra do Império Serrano.

"Era como se a gente dissesse 'ô sorte de ser imperiano'. Ele morreu, eu fiquei com o bordão. É um agradecimento à vida, a meus orixás, a tudo", contou à Folha.

O bordão grato titula ainda sua biografia, "Ô Sorte! Memórias de um Imperador" (Multifoco). O livro, de autoria do historiador Guilherme Almeida, foi lançado no ano passado, em comemoração dos 80 anos do artista.

Wilson das Neves teve quatro filhos –dois morreram antes dele, um prematuro, outro, jovem jogador de futebol, num acidente de carro.

Dizia não se lembrar da data da morte desse filho ou a dos pais, o pernambucano Heráclito das Neves e a baiana Maria de Lourdes.

Evocava a amiga Elizeth Cardoso, que dizia que morrer era como ir para o Japão sem data conhecida de volta.

Wilson das Neves foi, então, para o Japão.

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