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Com inflação acelerada, venezuelanos precisam pagar por dinheiro

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YAN BOECHAT

CARACAS, VENEZUELA (FOLHAPRESS) - Acostumados a enfrentar longas filas para comprar produtos tão básicos como pão francês, sabonetes e papel higiênico, os venezuelanos agora estão perdendo várias horas ao dia para conseguir ter acesso a dinheiro.

Desde a semana passada, quando o governo decidiu proibir que lojas, farmácias ou qualquer tipo de comércio repassasse bolívares para seus clientes com cartão de débito, a escassez de papel-moeda se intensificou.

A falta é tamanha que, nos últimos dias, notas de 5.000, 10 mil ou 20 mil bolívares, as denominações mais altas —e mais raras— eram comercializadas com ágio médio de 20% sobre seu valor de face, e registro de sobrepreço de até 35% em algumas regiões.

No interior do país onde o nível de adesão da população ao sistema bancário e de automação de pagamentos é mais baixo, o comércio ameaça entrar em colapso.

O problema ocorre desde o início do ano, quando o governo passou a emitir notas de maior denominação.

Até 2016, a nota mais alta em circulação na Venezuela era de cem bolívares (R$ 0,02). Pouco antes de o governo iniciar a impressão das novas cédulas, comerciantes haviam decidido passar a pesar os bolívares ao invés de contá-los, tamanho era o volume de papel-moeda necessário para comprar qualquer item —mesmo os de baixo valor.

A entrada em circulação de notas de 500, 1.000, 5.000, 10 mil e 20 mil bolívares não foi suficiente, porém, para conter a demanda por papel-moeda ante a inflação que, só nos seis primeiros meses do ano, acumulou quase 300%.

Além disso, o bolívar vem perdendo valor frente ao dólar semana a semana. A moeda venezuelana sofreu uma desvalorização de mais de 93% nos últimos 12 meses.

O resultado é que a denominação mais alta em circulação equivale nesta semana a pouco mais que US$ 1. A mais baixa das novas cédulas, a menos de US$ 0,03. Em alguns casos, o valor de face das novas notas já é menor que seu custo de produção, estimado entre US$ 0,12 e US$ 0,15 a unidade impressa.

"Houve uma tempestade perfeita, com irresponsabilidade do Banco Central venezuelano, hiperinflação e o constante impacto da ideologia do governo nas políticas econômicas", diz Asdrúbal Oliveros, ex-economista sênior da divisão de investimentos do Banco Santander em Caracas e sócio-diretor da consultoria Ecoanalítica.

"Na prática, o Banco Central não consegue imprimir papel-moeda suficiente porque não tem dinheiro para acessar a matéria-prima necessária nem para pagar a quem o faça no exterior", diz.

Para Oliveros, a saída emergencial seria a emissão de denominações mais altas, como notas de 100 mil ou 200 mil bolívares e a simplificação do papel-moeda, considerado de qualidade alta demais para a atual realidade inflacionária e de escassez de moeda forte no país.

"O dinheiro aqui precisa ser simples, não pode ter esse custo de produção, mas não acho que o Banco Central fará algo assim."

440 NOTAS

A Venezuela é um dos países campeões em volume de papel-moeda por habitante no mundo. Para cada um dos 31 milhões de venezuelanos, existem cerca de 440 notas de bolívares em circulação.

No Brasil, essa ordem é de pouco mais de 28 cédulas por habitante. As novas notas emitidas pelo Banco Central venezuelano correspondem a 66% do meio circulante em valor no país, mas, ao mesmo tempo, a apenas 5% do número de cédulas que estão nas mãos dos venezuelanos.

Na prática, as cédulas que circulam pelo país hoje não valem praticamente nada.

Sem papel-moeda, os bancos começaram a limitar a retirada diária a 30 mil bolívares (pouco menos que US$ 2) no início da semana. Nesta sexta (25), o limite havia caído para 10 mil bolívares (US$ 0,65) em muitos bancos.

"Todos os dias eu passo mais de uma hora nessa fila, não consigo viver sem dinheiro, ninguém consegue", dizia o analista de TI Victor Bueno, enquanto esperava na fila do banco estatal Bicentenário.

Sem dinheiro nas ruas, o papel-moeda se transformou em mais um item negociado no mercado negro. Diversas lojas, quiosques e pequenos estabelecimentos comerciais burlam as novas regras e repassam bolívares com ágio.

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