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Mostra permite um olhar novo e sem moralismos sobre o artista

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FABIO CYPRIANO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ousada. A retrospectiva da obra de Mauro Restiffe, "Álbum", afasta-se de forma radical de mostras do gênero.

Primeiro, porque apresenta só obras inéditas do artista, o que fere de cara o conceito de típica retrospectiva. Depois, por reunir também 25 pinturas do acervo da Pinacoteca e do Masp, criando diálogos inesperados. E, finalmente, por revelar de maneira corajosa a intimidade do artista e sua família, sem considerações moralistas.

Com curadoria de Rodrigo Moura, "Álbum" ocupa três amplas salas da Estação Pinacoteca, em cada uma delas com um tema: Paisagens e multidões; Álbum; Enquadramentos e construções. No total, reúne 143 imagens a partir de uma pesquisa de três anos, que veio da observação de um universo de cerca de 30 mil registros, realizados em 35 mm e 120 mm.

Restiffe é conhecido por seu trabalho documental, que descarta manipulação, realizado com câmeras analógicas, em preto e branco, e ângulos, em geral, que se afastam do espetacular. Sua série mais conhecida é "Empossamento" -realizada na posse do primeiro mandato de Lula, em 2003, não tem imagens do presidente eleito, apenas da multidão que tomou Brasília naquele dia.

A costumeira frieza em suas imagens -por conta do preto e branco, de distanciamento no registro das imagens e na recusa do que Cartier Bresson chama de "instante decisivo"- é totalmente revertida na retrospectiva. Ponto para a curadoria, que em vez de reunir obras conhecidas, permite um olhar completamente novo do artista. É até comovente perceber o desprendimento do artista, que exibe seus momentos mais íntimos a partir de uma produção constante de imagens, em uma forma de diário que o aproxima de Nan Goldin, quem diria.

Isso se vê na maior sala, que dá nome à mostra, onde de fato a montagem é a mais surpreendente: uma espécie de linha do tempo com dezenas de fotografias da família, do parto natural do filho Francisco a fotos de seus pais.

Tudo isso, misturado a pinturas de outros artistas que também trabalham em ritmo intimista, como o autorretrato de Pancetti com menina, da década de 1940, ao lado de um autorretrato de Restiffe com Lianna, de 2012.

Na sala dedicada a Paisagens e Multidões, as aproximações entre fotos e pinturas ganham até contornos políticos, quando Moura exibe ao lado de uma nova imagem da série "Empossamento" a tela de Benedito Calixto "Proclamação da República", de 1893. Pinturas de Pancetti, Castagneto, Guignard e Frans Post dão ainda mais solenidade a esta sala.

Já Enquadramento e Construções é onde estão as mais próximas ao repertório que se conhece de Restiffe, com imagens de espaços arquitetônicos, ou do Rijksmuseum, em Amsterdã, de onde sai uma de suas obras mais famosas.

Imperdível, "Álbum" se junta a mostras de impacto que a Pinacoteca vem realizando, como a retrospectiva de Ana Tavares, aberta em 2016.

MAURO RESTIFFE: ÁLBUM

ONDE Estação Pinacoteca, largo General Osório, 66, tel. (11) 3335-4990

QUANDO de qua. a seg., das 10h às 17h30; até 6/11

QUANTO grátis

AVALIAÇÃO ótimo

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