Mais lidas
Geral

ATUALIZADA - Apesar de vitória de Macri, votação dá sobrevida a Cristina Kirchner

.

SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O dia seguinte da eleição primária argentina foi todo o contrário das semanas que a precederam. Buenos Aires amanheceu confusa com as notícias da madrugada, e a votação era o assunto nas ruas, bares e programas televisivos.

Contrastava com o ambiente de antes, em que havia uma apatia no ar por conta de uma sensação de que essa votação decidiria pouca coisa -trata-se de uma prévia em que os partidos deveriam eleger internamente seus representantes, mas que virou uma enquete oficial, uma vez que as principais siglas tinham apenas um candidato.

Tudo começou quando o governo de Mauricio Macri decidiu armar uma grande festa antes de seu triunfo estar de fato consolidado.

No bunker de sua aliança, o Cambiemos, presidente e seus apoiadores festejavam uma vitória que se confirmou em várias partes do país, e que se for repetida na eleição de 22 de outubro colocará o Cambiemos como principal força política do país -terá maioria na Câmara dos Deputados e aumentará seu tamanho no Senado.

A comemoração teve outras razões para existir. O governo também foi vitorioso em um número maior de províncias, entre elas as mais importantes, como as de Santa Fe, Córdoba, Mendoza, Corrientes, Entre Ríos, Jujuy, La Pampa, Neuquén, San Luis, Santa Cruz e na cidade de Buenos Aires (que tem status em província).

Enquanto isso, o peronismo encolheu em várias províncias-chave, embora tenha saído ganhador em regiões mais humildes, como Catamarca, Chaco, Chubut, Formosa, La Rioja, Misiones, Río Negro, Salta, San Juan, Santiago del Estero e Tierra del Fuego.

PROVÍNCIA DE BUENOS AIRES

A ducha de água fria, porém, foi a votação na Província de Buenos Aires. No começo da apuração, o candidato governista, Esteban Bullrich, aparecia com 6 pontos de dianteira com relação à ex-presidente Cristina Kirchner.

No bunker do Cambiemos, se celebrou essa distância como definitiva. Bullrich discursou como vitorioso, e Macri deu um entusiasmado discurso considerando seu êxito um sinal de que a "mudança pela qual os argentinos votaram em 2015 está consolidada, cada vez com mais gente se juntando a ela".

Houve balões de plástico coloridos no ar, como de costume em suas comemorações, dança dos candidatos e do presidente no palco, chuva de papel picado e gritos da militância de "não vão voltar, não vão voltar", referindo-se aos kirchneristas.

Muitos argentinos foram dormir com essa notícia, e acordaram nesta segunda-feira (14) surpresos.

Afinal, depois da meia-noite, as luzes do bunker do Cambiemos foram apagadas, e no de Cristina, no estádio Arsenal, em Sarandí, no conurbano bonaerense, jornalistas e militantes também foram indo embora -chegaram a aparecer os funcionários da limpeza para varrer o palco.

Até que começaram a se fazer públicos os resultados dos municípios mais populosos da Província, como La Matanza e Avellaneda. A distância entre Bullrich e Cristina começou, então, a diminuir com uma intensa rapidez.

Quem estava acordado, ficou preso aos canais televisivos, que iam atualizando os números e mostrando Cristina cada vez mais próxima de Bullrich.

A música e os jingles de campanha kirchneristas, então, voltaram a tocar no Arsenal. A militância reapareceu, começou a dançar e a cantar "vamos voltar, vamos voltar". Às 3h30 da madrugada, já com um empate técnico, e quase literal, declarado, Cristina apareceu para discursar. A ex-presidente acusou o governo de haver manipulado o "timing" da divulgação dos resultados, deixando as mesas de locais de tradição peronista para depois. Os delegados kirchneristas pediram a recontagem dos votos.

Na manhã desta segunda-feira (14), por fim, com 95,68% dos votos apurados, a diferença entre Bullrich e Cristina era mínima. O candidato governista estava na frente, mas com 34,19% contra 34,11% da ex-presidente.

O secretário de assuntos políticos e institucionais do ministério do interior -que organiza o pleito-, Adrián Pérez, afirmou que a contagem pararia aí e que seria feita uma recontagem, por considerar que houve um "empate" e que havia dúvidas no modo como estavam sendo contabilizados os votos das 1.537 mesas que faltavam.

A sensação no dia seguinte da eleição, porém, era de que Macri, apesar de ter saído ganhador em todo o país, tinha comemorado cedo demais, e de que Cristina não está morta.

Ganhar em número de candidatos e em mais províncias é sem dúvida uma vitória. Mas, na Argentina, vencer na Província de Buenos Aires é considerado muito importante, moral e numericamente -é o principal reduto eleitoral do país e atualmente é governado por uma importante aliada de Macri, Maria Eugenia Vidal. Mostrar fraqueza nessa província pode ser um baque para o governo.

Os olhos, agora, se voltam para o comportamento dos derrotados nessa Província. Para quem irão os 15% dos votos de Sergio Massa, que é peronista, mas anticristinista? E os de Florencio Randazzo, que teve 6% e tem um eleitorado mais alinhado à presidente? Eram as perguntas com as quais os analistas e a população se debatiam neste começo de semana.

×

Newsletter

Conteúdo direto para você:

Quero Receber