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Vereador é preso por cobrar propina para liberar cadáveres no Rio

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LUIZA FRANCO

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Três pessoas, entre elas um vereador, foram presas na última terça (8), no Rio, acusadas de integrar uma quadrilha que cobrava propina para liberar corpos no IML (Instituto Médico Legal) de Campo Grande, na zona oeste do Rio.

A operação foi intitulada Cérbero, nome do cão tricéfalo guardião dos infernos na mitologia grega.

Na ação, foram presos preventivamente o vereador e policial civil Gilberto de Oliveira Lima, que é médico perito e presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal do Rio; Sérgio William Silva Miana, diretor-geral do Instituto de Criminalística Carlos Éboli e Franklin Silva da Paz, chefe de administração do Posto Regional de Polícia Técnica de Campo Grande.

Eles foram denunciados por associação para prática criminosa e concussão -quando o agente público comete crime de extorsão. De acordo com denúncia apresentada à Justiça pelo Ministério Público, eles recebiam R$ 150 mil por mês em propina.

Segundo os investigadores, o vereador Gilberto Lima, que já chefiou o IML de Campo Grande, liderava o esquema criminoso.

O esquema, que segundo a denúncia era conhecido como "máfia dos papa-defuntos", funcionava pelo menos desde 2014, e envolvia cinco empresas funerárias (Santa Madalena, Fonseca, Flor de Campo Grande, Itaguaí e Rio Pax), todas da zona oeste, e quatro hospitais públicos (Hospitais Pedro II, Rocha Faria, Albert Schweitzer e Eduardo Rabelo).

Por meio do depoimento de testemunhas e da análise de conversas telefônicas interceptadas com autorização judicial, os investigadores chegaram à conclusão de que as funerárias envolvidas no esquema eram autorizadas a trabalhar na preparação de corpos dentro do IML, para que eles fossem diretamente para o funeral, o que é proibido por lei. Em troca, os três acusados recebiam propina. Para aumentar os lucros, os hospitais enviavam ao IML corpos de pessoas que tiveram morte natural, sem violência, que não precisariam, em tese, passar por necrópsia. Assim, a demanda era sempre alta.

O que chamou a atenção dos investigadores foi justamente o alto número de corpos sem sinais de violência levados para a unidade. Em 2015, por exemplo, o IML de Campo Grande recebeu 2.020, dos quais 746 estavam relacionados a crimes. Em 2016, foram 2.310 mortos por causas naturais e 872 por violência.

Para enterrar uma pessoa, o familiar precisa de um atestado médico. Como os corpos eram enviados sem necessidade pelos hospitais para o IML, esse atestado teria que ser entregue pelo próprio IML. Porém, o órgão só entregava o atestado se o familiar pagasse pelo serviço de preparação do corpo. Esse serviço era cobrado, na verdade, não pelo IML, mas pelas funerárias que irregularmente atuavam dentro do IML. Parte do dinheiro deste serviço, era pago em forma de propina aos denunciados.

As investigações mostram que até funcionários terceirizados do IML de Campo Grande, contratados originalmente para manutenção e limpeza do prédio, faziam, na verdade, o trabalho de auxiliares de necropsia. Eles ajudavam na lavagem, arrumação, preenchimento e maquiagem dos cadáveres para entregá-los preparados, dentro dos esquifes.

Segundo o Ministério Público, os acusados vinham expandindo o esquema de arrecadação de propina para os demais postos regionais de polícia técnica no Estado do Rio de Janeiro. O MPRJ também requereu o afastamento dos três denunciados de suas funções públicas.

A reportagem não localizou as defesas dos três denunciados até esta publicação.

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