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Festa falha em debates, mas acerta em curadoria diversa

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MAURÍCIO MEIRELES, ENVIADO ESPECIAL

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - A proposta da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de fazer neste ano uma festa com convidados menos conhecidos não deu liga -e isso não tem a ver com qualidade literária ou intelectual.

A organização acertou ao ampliar a diversidade de autores e editoras. Mas a festa sofreu com falta de entrosamento ou incompatibilidade de perfis entre debatedores em parte das mesas. Mediações ruins em debates importantes também contribuíram.

O encontro entre Marlon James e Paul Beatty no sábado (29) ilustra as fragilidades. Os dois lançaram no país romances elogiadíssimos, que renderam o Man Booker Prize.

Mas, enquanto James tratou de forma perspicaz as questões literárias trazidas à tona, Beatty não desenvolveu suas ideias, iniciando grande parte de suas respostas com um "eu não sei", quando não seguia um raciocínio tortuoso.

O encontro entre Deborah Levy e William Finnegan, bem como o de Carlos Nader e Diamela Eltit, eram apostas certas, mas também não decolaram.

Houve mediações marcadas por perguntas frívolas e genéricas, em que os moderadores indicavam não ter lido a obra dos entrevistados ou improvisavam em tom excessivamente informal.

Outro ponto negativo foi a ausência de um momento arrebatador protagonizado por um dos convidados, a exemplo da comoção causada por Karl Ove Knausgard em 2016.

"Essa crítica de não haver mesa de destaque tem a ver com termos trazido autores que não se enquadram no padrão do mercado, logo são mais desconhecidos", diz Joselia Aguiar, curadora da Flip. "Com o autor mais conhecido você entra em outro nível de interação."

Em 2017, a escalação da Flip trouxe um recorde de mulheres. Elas eram 23, contra 22 homens --sem considerar o compositor André Mehmari, que fez o concerto de abertura. Os negros representavam 30%.

Com olhar para fora do eixo, a curadoria acertou ao valorizar o trabalho de editoras independentes --diminuindo de forma radical a concentração histórica de grandes casas.

O trabalho de pesquisa realizado é outro ponto positivo. A literatura de língua inglesa, sempre a estrela da festa, desta vez estava bem menos representada. Entre os convidados, além de Beatty e James, os únicos a escrever no idioma eram Finnegan e Levy.

Ao longo dos anos, sempre que foi criticada pela falta de diversidade, a Flip reconhecia o problema, mas dizia ser reflexo do catálogo das editoras.

PÚBLICO E DESTAQUES

O público pagante parece não ter se empolgado com a programação. Na igreja, onde os ingressos custavam R$ 55, era comum lugares vazios entre as 450 cadeiras e saída de pessoas no meio do debate. Já na tenda do telão, com 700 lugares, ocorria o contrário -cheia, com público vibrante. A Flip diz que passaram 20 mil pessoas pela festa literária neste ano -em 2016, foram 23 mil.

As redes de ativismo negro se mobilizaram para comparecer à "Flip da diversidade". Na mesa da escritora Conceição Evaristo, a plateia era mais negra do que em qualquer outro debate.

Houve bons momentos na festa. A começar pela abertura, com uma aula dramatizada de Lilia Moritz Schwarcz e Lázaro Ramos sobre Lima Barreto. A novidade substituiu a tradicional conferência sobre o autor homenageado.

O encontro entre Noemi Jaffe e Scholastique Mukasonga -com destaque para a mediação sensível de Anabela Mota Ribeiro- comoveu o público.

Outro momento a ser lembrado é a intervenção da professora aposentada Diva Guimarães numa das mesas abertas, entre Lázaro Ramos e Joana Gorjão Henriques. Ela levou o ator e o público às lágrimas ao contar como enfrentou o racismo em sua vida e virou uma celebridade instantânea.

Em nota dissonante da Flip da diversidade, o escritor carioca negro Anderson França precisou cancelar sua participação na programação paralela após receber uma ameaça de morte --ele havia denunciado mensagens de ódio.

IGREJA

A igreja funcionou como espaço para os debates principais e deixou vivo o movimento na Praça da Matriz --mas o aperto, a visibilidade e a acústica do templo foram problemáticos. O formato de anfiteatro da tenda, não montada neste ano, ajudava quem estava nas fileiras do fundo.

A Flip optou por usar o templo católico por falta de verba. O orçamento da festa vem diminuindo R$ 1 milhão a cada ano, desde 2014, e desta vez foi de R$ 5,8 milhões -50% de patrocínio via Lei Rouanet.

Do total, R$ 3,7 milhões são despesas do evento em si, e os demais são custos fixos da Casa Azul, organização que produz o evento.

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