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'Posso sofrer desencanto com muita coisa, mas não com política', diz Pondé

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AMANDA RIBEIRO MARQUES, ENVIADA ESPECIAL

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Convidado a relacionar a política à sua teoria do marketing existencial, o filósofo, professor e colunista da Folha de S.Paulo Luiz Felipe Pondé argumentou que a falta de noção clara de como a sociedade se organiza e a expectativa política que acaba decorrendo disso pode produzir uma sensação de vazio. "Isso aconteceu com quem tinha expectativa de que o PT ia salvar o Brasil. Muitas pessoas entraram em crise com isso."

Afirmou, no entanto, não padece desse mal-estar. "Posso sofrer desencanto com muita coisa na vida, mas com política é muito difícil. Com política eu não tenho muita esperança."

Parta ele, a escolha da curadoria desta edição da Flip, de trazer mais negros e mulheres como convidados, é um exemplo claro de como a sociedade de mercado rompe conceitos, afirmou o filósofo, em debate na Casa Folha neste sábado (29).

A mesa Filosofia do Marketing Existencial, mediada pelo jornalista Lucas Neves, editor-adjunto da "Ilustríssima", discutiu como o marketing se apropria da sensação de vazio intrínseca ao homem para vender bens de sentido que gerem bem-estar.

Questionado sobre como se sentia com relação a esta edição inclusiva e representativa da Flip, já que é conhecido por adotar em suas colunas um discurso contra o politicamente correto, Pondé citou seu livro mais recente, "Marketing Existencial - A Produção de Bens de Significado no Mundo Contemporâneo". Afirmou que a escolha da curadoria se enquadrava no conceito de marketing de causa.

Impelida pelas críticas à edição passada, que não convidou autores negros, a curadoria da festa decidiu vender a ideia de inclusão e representatividade. Ao mesmo tempo em que a Flip é uma feira literária, disse, é também uma feira de marketing, onde se vendem ideias.

"Em meio a esse comércio de ideias, não existe motivo para não trazer pessoas que têm ideias para vender, mas não têm oportunidade para isso. Não faz sentido se existir quem queira comprar."

Durante a palestra, o filósofo também destrinchou os principais aspectos de seu livro, lançado pela Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha. Ele afirma que, em uma sociedade que sofreu desencaixes por causa do capitalismo, existe uma desconstrução dos bens sociais que leva a um vazio existencial.

O marketing atua para preencher esse vazio, mas acaba criando um ciclo vicioso que só causa mais mal-estar. "A partir desse momento, o marketing começa a vender o mal-estar como produto".

Dentro desse ciclo, acaba se formando o fenômeno da "marketização da vida", defende. Os principais bens existenciais vendidos, de acordo com Pondé, são as sensações, a ética –um estilo de vida em que a pessoa se sinta bem– e o aspecto religioso.

A sensação de bem-estar vendida, no entanto, tem obsolescência programada e acaba levando a pessoa a ir cada vez mais longe. "Chega a um ponto em que você tem que ir para a Lua. Se você já se hospedou em uma tenda na Mongólia em busca de si mesmo, se já conheceu o mundo e não tem mais para onde ir, pode-se dizer que esse bem-estar tem hora para acabar."

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