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Aposentada que discursou sobre racismo é requisitada para selfies

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SÓ PODE SER REPRODUZIDA COM ASSINATURA

PATRÍCIA CAMPOS MELLO, ENVIADA ESPECIAL

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - A professora aposentada Diva Guimarães, 77, transformou-se na celebridade mais requisitada da Flip para selfies, autógrafos e muitos abraços emocionados de desconhecidos na rua. Na sexta-feira (28), a professora comoveu o ator Lázaro Ramos e foi ovacionada por mais de 500 pessoas ao dar um depoimento sobre racismo. O vídeo de sua fala teve 4,4 milhões de visualizações no site da Flip.

No sábado, já consagrada como a musa da Flip, ela caminhava com dificuldade pelas pedras das ruas de Paraty, com ajuda de uma bengala, e era abordada a todo o momento por pessoas que queriam abraçá-la ou parabenizá-la. Um séquito de repórteres disputava sua atenção. "Estou assustadíssima, não tive intenção nenhuma, foi só um desabafo", dizia. Ao ver a reportagem do jornal "Folha de S.Paulo" com o título "Divou na Flip", ela começou a rir, tímida, e disse: "Eu virei verbo, olha só. Mas é isso aí, divei mesmo."

Diva foi conhecer a escritora e ativista dos direitos dos negros Conceição Evaristo, uma das autoras convidadas da Flip. A professora ficou fã da escritora por causa de uma entrevista de Conceição a que ela assistiu.

"Diva é minha sister, minha malunga", disse Conceição Evaristo, usando o termo empregado pelos escravos para definir aqueles que chegaram ao Brasil no mesmo navio ou no mesmo dia. Emocionada, Diva abraçou Conceição longamente e chorou. "Eu me reconheci no depoimento de Diva. A história de Diva é nossa história", disse Conceição, que deu três de seus livros à professora.

Na manhã de sexta, antes de fazer o depoimento que a alçaria à fama instantânea, Diva mais uma vez sofreu o preconceito que vem abordando. Estava na "feirinha" de Paraty, um agrupamento de barraquinhas perto da ponte que leva ao centro histórico, quando um vendedor veio andando, colérico, e a interpelou, apontando para um cachorro que estava ao lado dela: "Esse cachorro aí é seu? Você não limpa o cocô do seu cachorro não, deixa ele ficar aí solto?" A professora não se intimidou. "Eu sei por que você está dizendo que esse cachorro é meu. Eu sei exatamente por quê. Não, esse cachorro não é meu, eu não sou daqui, eu vim para a Flip", respondeu. 

No depoimento que viralizou, Diva conta sobre o preconceito que sofreu enquanto vivia em uma creche com freiras e ressaltou a importância da educação. Ela é neta de escravos e filha da lavadeira, que lavava roupa em troca de material escolar parta a filha. Diva se formou em educação física e foi professora durante 40 anos, e também trabalhou anos com alfabetização de crianças.

"Quando eu era criança, as freiras me contaram uma história de como Deus abençoou um rio e mandou todos os homens tomarem banho nele. Os mais trabalhadores e inteligentes chegaram primeiro, mergulharam no rio e saíram brancos. Já os mais preguiçosos chegaram tarde e só havia um restinho de água. Por isso continuaram negros, só com a palma das mãos e a planta dos pés brancos", disse, entre lágrimas. "Os negros não são preguiçosos, este país vive hoje porque meus antepassados trabalharam muito", disse Guimarães, que foi aplaudida de pé.

Diva está dividindo quarto com a amiga Maria Alice Correia Pedotti em uma pousada. Vieram de avião de Curitiba até o Rio e depois encararam cinco horas de ônibus até a Flip. Não conseguiram comprar ingressos para a programação principal, então assistem aos eventos na tenda externa. Ela gostou muito da mesa com líderes indígenas e a discussão com a autora ruandesa Scholastique Mukasonga.

A mãe de Diva era lavadeira na casa da mãe de Maria Alice e as duas são amigas desde a infância. A professora disse que quer aproveitar a oportunidade de todo mundo querer entrevistá-la para fazer críticas que sempre quis fazer. "É um absurdo estereotiparem a mulher negra por seu corpo, por seu traseiro. A gente é muito mais que isso". Ela também defendeu o regime de cotas para negros e criticou o presidente Michel Temer, dizendo que ele deu um golpe.

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