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Premiado com livro sobre surfe, autor pensou que não seria levado a sério

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FERNANDA MENA E MAURÍCIO MEIRELES, ENVIADOS ESPECIAIS

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - A escritora sul-africana Deborah Levy e o jornalista norte-americano William Finnegan encerraram o terceiro dia da Festa Literária Internacional de Paraty na mesa "Por Que Escrevo".

Os dois tiveram uma longa conversa sobre a experiência literária e o prazer surgido da busca pelo belo -na arte ou no esporte.

O título da conversa foi emprestado do famoso ensaio autobiográfico de George Orwell de 1946, que inspirou o livro "Coisas que Não Quero Saber" (Ed. Autêntica), de Levy, autora já indicada duas vezes para o prêmio Man Booker Prize.

No texto, Orwell aponta quatro motivações para escrever -impulso histórico, entusiasmo estético, propósito político e puro egoísmo-, algumas das quais a autora sul-africana diz terem guiado também sua escrita.

"Meu livro começa com uma narradora de meia-idade. Volta a sua infância e então a acompanha até seus 15 anos. E eu tinha puro egoísmo quando nesta idade."

Levy e sua família abandonaram a África do Sul e imigraram para a Inglaterra depois que seu pai fora preso por seu ativismo pelos direitos humanos. "Ele ensinava crianças negras e pobres a ler e a escrever e isso era proibido pelo regime do apartheid. E meu pai foi preso. Eu tinha cinco anos e passei a falar muito pouco na escola", conta ela.

"Um dia, o professor sugeriu que, já que eu não falava, escrevesse meus pensamentos. Fiz isso, e percebi que aquelas palavras que eu escrevia gritavam. E gostei."

A autora cita uma frase de Virginia Woolf em que ela sugere que mulheres não devem escrever motivadas pela raiva porque isso tornaria sua escrita estridente demais, sem nuances ou complexidade. "Mas eu acredito na raiva como um motor da literatura porque é poderoso e você sempre pode retomar o texto para lapidá-lo."

Finnegan conta que, quando presenciou a violência do apartheid durante uma temporada na África do Sul ele abandonou a própria subjetividade, expressa na escrita de poesia, e desenvolveu um grande interesse pelo mundo que o levou ao jornalismo.

Ainda que o autor tivesse uma vasta trajetória como correspondente de guerras e conflitos na África e na América Central desde os anos 1980 -boa parte dela publicada na revista "The New Yorker", onde trabalha-, foi com seu livro sobre o surfe e a busca de ondas míticas que Finnegan, "Dias Bárbaros" (Ed. Intrínseca), ganhou o prêmio Pulitzer em 2016.

Ele explicou que foi muito difícil para ele sair do armário como surfista porque o estereótipo ligado à prática não combinava com livros e com a escrita informada sobre política internacional que ele fazia.

"Eu queria escrever sobre essa coisa inútil e irresponsável que eu fazia quando não estava trabalhando como jornalista, mas isso me fazia pensar que não seria mais levado a sério como comentarista político. Mas não foi nada disso o que aconteceu."

Finnegan contou que, quando estava cobrindo a guerra civil em El Salvador, ficou bastante impactado e decidiu surfar. "A praia estava vazia. Havia uma guerra ali. E eu tinha o mar todo para mim. Chorava na praia, chorava na água, mas seguia surfando e tudo aquilo no que eu conseguia pensar era que surfar era o que eu precisava fazer mais e mais."

Depois de uma questão do mediador, Finnegan disse ver sua aventura com a escrita -e com o surfe- como uma busca por ficar "encharcado" de beleza. Não à toa, ele compara sua experiência com o mar àquela de ler um livro incrível.

"Muita gente descreve o prazer de surfar com metáforas sexuais, do tipo, é como fazer amor com o oceano e bobagens do tipo. Para mim, surfar é como ler algo muito bom. São sensações muito parecidas."

Deborah também descreveu sua experiência de forma semelhante. "Escrever é a grande aventura da minha vida. Às vezes, eu me afogo", disse ela.

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