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Tornar ciência partidária seria decretar o seu fim

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REINALDO JOSÉ LOPES, ENVIADO ESPECIAL

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - A biomédica Helena Nader, que presidiu durante seis anos a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), principal órgão representativo da comunidade científica do país, diz que a ideia de criar um partido político voltado para defender os interesses dos cientistas seria péssima para a área.

"Na minha visão, seria o fim da ciência porque, no momento em que ela se torna partidária, ela passa a separar as pessoas", declarou ela à Folha de S.Paulo durante a 69ª reunião anual da sociedade na Universidade Federal de Minas Gerais.

O encontro, que termina neste sábado (22), marca a despedida da pesquisadora da Unifesp do cargo -ela será substituída pelo físico Ildeu Moreira, da UFRJ.

Como presidente, Helena foi criticada por defender a necessidade de negociar com o governo Temer. Na entrevista, ela afirma que a polêmica está superada e que os cientistas precisam continuar dialogando com todos os setores da sociedade, embora não possam admitir retrocessos em áreas como o ambiente e os direitos humanos.

Durante a reunião da SBPC do ano passado, em Porto Seguro, a sra. foi duramente criticada por negociar com o governo Temer, chegou a ser chamada de pelega e quase entregou o cargo. Desta vez, manifestações contra Temer terminaram com elogios à sra. A sensação é de volta por cima?

Eu acho o seguinte: o que aconteceu em Porto Seguro ficou em Porto Seguro. Essa nova postura é a prova de que as pessoas entenderam que há necessidade de diálogo para se construir o Brasil que a gente deseja ter. Mais importante que isso, porém, foi o reconhecimento de que, ao lado dos erros, eu tive uma série de acertos que vão impactar de modo positivo o futuro da ciência brasileira.

Se a gente não tivesse mantido esse diálogo, o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação [que deu mais liberdade para interações entre cientistas e setor privado] talvez tivesse sido outro, e quem teve protagonismo nesse processo foi a sociedade, não o Estado.

Diante dos cortes orçamentários brutais que afetaram o financiamento público da ciência no Brasil, a sra. acha que faltou planejamento nos anos de expansão da área no país, no segundo governo Lula e no primeiro governo Dilma? Teria sido possível evitar o pior desses cortes hoje se esse crescimento tivesse sido planejado com mais cuidado?

Eu acho que não. O presidente Lula não abriu a porta do cofre imediatamente. Primeiro veio a busca pela estabilidade. No segundo mandato, houve um aumento impressionante do financiamento da ciência e tecnologia, bem como uma expansão do sistema educacional que era necessária.

Nossa economia, porém, ainda não é estável. Tivemos um pico de investimentos no mandato da presidenta Dilma, que ainda era reflexo do mandato de Lula, mas, quando a economia começa a patinar, vêm também as quedas no orçamento para a pesquisa.

Inicialmente, isso não ficou tão claro porque o montante destinado ao Ciência Sem Fronteiras era muito elevado, mas isso mascarou uma queda cada vez mais vertiginosa do dinheiro que ia para o CNPq [principal órgão federal de fomento à pesquisa]. Ficou claro que precisamos de fontes mais constantes de financiamento.

Isso acabou culminando com o que a gente chamava de PEC do Fim do Mundo, que hoje já é a emenda constitucional do teto de gastos. A SBPC se posicionou claramente contra incluir a educação, a ciência, a tecnologia e a inovação nesse teto, e a nossa intenção é continuar lutando para que isso seja revertido. Como eu sempre digo, educação e ciência não são despesa, são investimento, e são o único caminho para colocar o Brasil no rumo certo de novo.

A sra. acha realista manter a campanha por essas alterações na emenda? Mesmo com as dificuldades políticas do governo Temer, tem sido difícil evitar que o Congresso aprove medidas de austeridade.

Acredito que sim. Na terça e na quarta passadas, tivemos dois dias fantásticos no Congresso, em reuniões organizadas pela Frente Parlamentar de Ciência, Tecnologia, Pesquisa e Inovação, com todos buscando alternativas e novas fontes de financiamento.

O papel do deputado Celso Pansera [PMDB-RJ, ex-ministro da Ciência] tem sido muito importante. Tivemos a Marcha Pela Ciência na Câmara, pela qual passaram os líderes de todas as bancadas. Acho que isso ajudou o pessoal a perceber que o diálogo é que constrói os avanços.

Durante a reunião deste ano houve discussões de bastidores sobre a possível criação de um partido político dos cientistas brasileiros, e há quem defenda o seu nome como candidata a deputada federal. Como vê essa movimentação?

Olha, está escrito no estatuto da SBPC que ela não tem partido. Essa discussão, portanto, é de pessoas, não da SBPC. Na minha visão, seria o fim da ciência porque, no momento em que ela se torna partidária, ela não inclui, passa a separar as pessoas. É muito mais importante um movimento pela ciência percolando todos os partidos.

Pode escrever: não sou candidata e, aliás, fiquei chateada com essa história toda.

Voltando ao seu otimismo em relação ao diálogo com o Legislativo, essa conversa não tem ficado mais difícil durante o governo Temer? No que diz respeito à legislação ambiental e à questão indígena, a impressão é que tem aumentado a resistência do Congresso a levar as evidências científicas em conta.

Concordo, mas por isso mesmo o diálogo é importante. De fato, é preocupante quererem voltar atrás em aspectos do Código Florestal. Eu defendo a agropecuária brasileira, mas ela não pode tirar direitos humanos nem ferir o ambiente -aliás, ela já provou que pode ser muito produtiva sem causar esses problemas.

Se ainda demonstrassem que flexibilizar a legislação ambiental seria melhor para o povo brasileiro, traria mais educação, mais moradia, mais bem-estar social -tudo bem, então me tragam argumentos convincentes. O problema é que o que alguns querem fazer só vai aumentar as diferenças sociais e concentrar riqueza.

Está mais difícil mobilizar cientistas politicamente hoje? A descrença generalizada em relação à política também afetou a comunidade científica, certo? Não é estranho, diante dos cortes de verba, que a mobilização não seja mais intensa?

Não sei te explicar o porquê dessa situação. As pessoas talvez estejam desanimadas, com aquela sensação de que não adianta mais lutar, então que cada um cuide de si. Para mim o que importa é que a gente pode, sim, tentar unir as pessoas num projeto comum. É importante que nas próximas eleições presidenciais a gente exija de cada candidato que assuma uma plataforma clara, verdadeira, do que pretende fazer em relação à ciência e deixe isso por escrito, de maneira que os cientistas possam cobrar. É algo que infelizmente não constou do programa de governo da presidente Dilma de forma clara, nem da Ponte para o Futuro do Temer, na qual não havia uma palavra sobre o tema.