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Carroceiro morto pela PM dizia sofrer perseguição da polícia após prisão

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MARIANA ZYLBERKAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Carroceiro há mais de treze anos, Ricardo Silva Nascimento, 38, andava com medo da polícia. "Uns meses atrás a gente conversava e ele dizia que estava sendo perseguido pela polícia. Dizia que estavam armando uma arapuca para ele", disse o carroceiro Jessé Rodrigo da Silva, 29, colega na oficina de reciclagem onde Nascimento vendia o material de reciclagem que juntava nas ruas.

Há dois anos, ele foi condenado e ficou seis meses preso por ter atirado pedras a uma base da GCM na prefeitura regional de Pinheiros e agredido dois policiais. "Ele vivia com medo desde que saiu da cadeia. Uma vez ele contou que policiais colocaram fogo no colchão onde ele dormia na frente do [colégio estadual] Fernão Dias. Depois, ele passou a dormir na [rua] Sebastião Velho", conta o carroceiro Fabiano da Silva Soares, 25.

Com problemas mentais e alcoolismo, o carroceiro era famoso na região por seu comportamento diferente. "Ele passava rindo quando estava de bom humor e xingando sozinho quando estava bravo. Mas nunca fez nada para ninguém. Ficava no canto dele", diz uma moradora do bairro, que se identificou apenas como Kelen.

"Conheci esse cidadão. Ele já ameaçou uma funcionária minha por causa de cigarro mas nada justifica ele ter sido morto. Ele ameaçou o policial e em nenhum momento recuou. Ele estava agressivo ou com problema mental", diz a consultora de marketing Vivian Pereira, 46.

"E pensar que eu morava em uma cobertura de 360 graus em Amsterdã e agora essa baixaria em frente ao meu prédio. Estou mandando um monte de currículo para ver se saio daqui e volto para a Europa."

No dia em que morreu, passou no ferro-velho para vender um box de alumínio com uma camiseta do time gaúcho Grêmio, apesar de ser corintiano. Ele tinha tinha três carroças e costumava trabalhar à noite. "Ele catava o material reciclável das lojas que ficam na rua Teodoro Sampaio. Todo mundo conhece ele por lá", diz o dono do ferro-velho, Marcos Paulo Pereira, 27.

O carroceiro chegava a juntar até 200 quilos de material reciclado em um dia. Ganhava de R$ 40 a R$ 200 por dia. "Ele tinha uns problemas de cabeça, mas era um cara legal. Falava sozinho, mas todo dia estava aqui às 7h30 para vender o material", diz o dono do ferro-velho.

Os colegas da reciclagem organizaram um protesto no fim da tarde.

Carroceiros que trabalhavam com Ricardo Silva Nascimento, 38, em um ferro-velho em Pinheiros trocaram o entulho para carregar cartazes de protesto no fim da tarde desta quarta-feira.

Em carreata, ao menos quinze deles seguiram até a esquina das ruas Mourato Coelho e Navarro de Andrade, onde Nascimento foi morto a tiros por um policial militar na tarde de terça-feira (12). O comboio foi liderado pela carroça de Nascimento, que foi pintada de branco e presa com uma corrente a um poste, a poucos metros de onde foi morto.

Ao lado, foi montado uma espécie de altar com flores e velas deixados por moradores dos prédios no entorno. "Somos nós que fazemos a limpeza de São Paulo, não podem nos matar como animais", disse o carroceiro Aparecido dos Santos, 65.

Uma professora pegou flores no jardim do prédio onde mora, a poucos metros da cena do crime, e colocou na calçada. "Disseram que ele sofria de esquizofrenia. Meu filho também sofria, mas já morreu. Cheguei quando ele estava estirado no chão com o olho vidrado", disse, entre lágrimas. O protesto fechou a rua Teodoro Sampaio entre as ruas Mourato Coelho e Fradique Coutinho por volta das 18h40.

Segundo testemunhas, a polícia foi chamada no fim da tarde de quarta-feira (12) pela atendente de uma pizzaria onde ele tinha ido pedir um pedaço de pizza. Dois policiais que estavam fazendo ronda a pé chegaram rápido.

Alterado, o carroceiro os ameaçou com um pedaço de pau. Um deles mandou ele abaixar o pau antes de disparar duas vezes à queima-roupa. O corpo foi colocado inerte no porta-malas de uma viatura da Força Tática e levado ao Hospital das Clínicas, onde chegou sem vida.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, os dois policiais e a equipe da Força Tática envolvidos na ocorrência foram afastados do trabalho nas ruas. Foram instaurados inquéritos policial e criminal e câmeras de segurança da região serão analisadas pela polícia, de acordo com a pasta.

O Ministério Público aceitou denúncia da Ouvidoria da PM e o promotor Goiaci Leandro de Azevedo Júnior irá investigar o caso.

De acordo com o ouvidor da PM, Julio Cesar Fernandes Neves, policiais dificultaram as investigações ao remover o corpo do carroceiro antes da chegada da perícia, "Isso foi feito para descaracterizar a realização de uma perícia completa do local", diz o ouvidor. Júlio César Fernandes Neves.

Vídeo feito por uma moradora e disponibilizado nas redes sociais mostra os policiais colocando o corpo do carroceiro no porta-malas de uma viatura. "Eles desrespeitaram uma resolução do próprio secretário de segurança feita justamente para evitar interferências nas investigações em casos de homicídio", diz o ouvidor.

No caso, os policiais devem acionar socorro e o Copom (Centro Operacional da Polícia Militar). A cena do crime deve ser preservada até a chegada da perícia. "Nada disso foi feito", diz Neves.