Geral

Exposição de estreia do novo Instituto Moreira Salles reúne retratos de um país que agoniza

.

SILAS MARTÍ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Num Congresso pegando fogo, políticos de terno trocam bilhetinhos e apertos de mão. Nas ruas, garotos negros têm o rosto esfregado no asfalto em linchamentos transmitidos ao vivo nas redes sociais, enquanto outros rapazes da mesma cor na mesma cidade posam para câmeras de um reality show ostentando cordões de ouro, bonés de grife, tatuagens e cabelos coloridos.

Esses retratos de um Brasil tão violento quanto teatral ilustram como a sociedade aprendeu a tomar as rédeas do espetáculo para firmar identidades de lados opostos da fama, do dinheiro e do poder.

Juntas numa das três mostras de estreia do novo Instituto Moreira Salles, que abre as portas em agosto na avenida Paulista, novas fotografias e filmes de Bárbara Wagner, Jonathas de Andrade, Letícia Ramos, Sofia Borges e dos coletivos Garapa e Mídia Ninja vão analisar a linguagem imagética surgida na ressaca das chamadas Jornadas de Junho.

Dos mais brutais e potentes desses registros, as transmissões dos protestos que tomaram as ruas do país, com câmeras quase coladas na pele de manifestantes, servem de âncora conceitual de uma exposição que tenta entender o novo papel do corpo na construção de narrativas visuais.

Não qualquer corpo. Está em foco tanto o corpo vulnerável de ativistas em confronto com a polícia quanto o corpo fechado de políticos tecendo conchavos. Há ainda o corpo despido de quem sente na carne o racismo e o corpo espetacularizado da indústria da música gospel e do funk.

"É o corpo como instrumento de atuação política e teatralização do conflito", afirma Thyago Nogueira, que organiza a mostra. "Nesse contexto em que todo mundo vem sendo engolido pelo outro, vemos a emergência de novas formas de representação. É como se esse corpo fosse a câmera."

Nesse sentido, as imagens sôfregas e tremidas do Mídia Ninja, transmitidas direto do calor do conflito, dão o tom dessa urgência. São enquadramentos acidentais, moldados pela troca de balas de borracha, ataques de gás lacrimogêneo, algemas e estilhaços.

Narrados em tempo real por cinegrafistas envolvidos na ação que documentam, esses registros dissolvem limites entre sujeito e objeto, elevando não só aquilo que aparece em cena mas também os acidentes, falhas e percalços à condição de discurso.

O glitch, ou defeito na imagem, também se torna parte estrutural da obra do coletivo Garapa. Vídeos de linchamento encontrados on-line são reprocessados pelos artistas. Eles infiltram no código digital das imagens as mensagens de ódio associadas a esses flagras, que ressurgem com suas cores e enquadramentos distorcidos.

"O linchamento tem uma dinâmica própria, imita a linguagem televisiva", diz Paulo Fehlauer, do Garapa. "É a violência da representação da violência, uma teatralidade."

SUPER-HOMEM

Letícia Ramos leva esses conflitos ao laboratório. Numa série de imagens quase abstratas, a artista simula em estúdio como o corpo reage quando alvejado por jatos de água usados para conter manifestantes. Outras fotografias dissecam ainda a coreografia de movimentos do ativismo digital --ou seja, uma análise de dedos deslizando sobre telas para postar textos, vídeos e imagens.

"É uma pesquisa sobre como se defender e criar um super-homem, um corpo forte para reagir às agressões que estamos sofrendo", diz Ramos. "Tudo parece levar a um futuro de homens-máquina."

Também um tanto artificiais, os candidatos a nova estrela do funk retratados por Bárbara Wagner em chave seca, quase etnográfica, dão outra dimensão do papel do corpo no olho do furacão, no caso, como vetor de desejos de ascensão econômica.

"Queria fazer uma catalogação dessas pessoas, só que despidas da fantasia da fama, do dinheiro e do sucesso, sem essa embalagem", diz a artista. "São performers que cresceram numa situação política e econômica em que trabalhar com o corpo e com o espetáculo já é uma possibilidade."

Na contramão do espetáculo, Jonathas de Andrade também mostra corpos crus, distantes de qualquer embalagem ou idealização. Atualizando uma pesquisa da década de 1950, em que entrevistados eram convidados a opinar sobre pessoas só por sua aparência, revelando altas doses de racismo, ele retratou negros e brancos, pondo em evidência existências díspares, em grande parte moldadas pela cor da pele.

"É um estudo de comportamento do corpo", diz Andrade. "São expressões que se repetem num cruzamento da questão racial com a classe."

Distantes das ruas, sob a redoma da arquitetura de Niemeyer, os políticos retratados por Sofia Borges no Congresso também são analisados a partir de gestos que se repetem. São mãos e braços flagrados ao pontuar discursos, detalhes de uma gramática do poder aquartelado, indiferente ao calor das ruas lá fora.