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ATUALIZADA - FMU demite 220 docentes e preocupa alunos com anúncio de reformulação

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FERNANDA PEREIRA NEVES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Estudantes da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) terminaram o semestre com preocupações além das notas e aprovações. O anúncio da demissão de 220 professores e de uma reformulação na grade curricular provocou dúvidas e até revolta entre os alunos.

"São vários professores queridos, bem avaliados, com mestrado e doutorado, que foram demitidos sem nenhuma justificativa, e a carga horária, que era de 3 horas e meia por dia, agora vai para 2 horas e 48 minutos, pra ser preciso", afirma Roberto Montanari Custódio, 20, que irá para o sétimo semestre de direito em agosto.

Segundo comunicado divulgado aos alunos, a faculdade afirma que as mudanças acontecerão a partir de 1º de agosto já com os novos horários, que corresponderão a uma aula a menos por dia –de quatro, agora serão três. Para não ter perda de carga horária, o semestre passaria a ser mais longo.

Cursos como administração, biomedicina e enfermagem serão afetados em todos os semestres, com exceção dos dois últimos. Outros cursos, como direito, tecnologia em hotelaria e tecnologia em gestão em comércio exterior, só não terão o último semestre afetado com as mudanças.

A faculdade afirma que o novo modelo, que inclui ainda mudanças no currículo "propõe uma nova forma de trabalho, mais moderna, flexível e voltada para o desenvolvimento de competências relevantes para o mercado de trabalho", e ressalta que a carga horária total dos cursos continua a atender diretrizes do MEC.

Contra as demissões e alegando que os alunos não foram consultados sobre a reformulação, Custódio iniciou um abaixo-assinado há uma semana contra as medidas. Na noite desta quinta (6), ele já acumulava mais de 6.780 adesões –a faculdade tem 70 mil alunos.

"Todos nós fomos pegos de surpresa. Ninguém falou nada oficialmente, começou em grupos de WhatsApp. Já é muito conteúdo para as aulas presenciais. Imagine trocar o formato diminuindo a carga horária", avalia Bruno Pellizzari, 21, que vai agora para o oitavo semestre de direito.

Além do abaixo assinado, os estudantes também marcaram um ato para o próximo dia 15 na praça da Sé, com caminhada até o campus da universidade na região da Liberdade, centro de São Paulo.

Na última quarta-feira (5), um grupo esteve na Alesp (Assembleia Legislativa de SP) para pedir uma investigação do que eles chamam de precarização da faculdade. O deputado Carlos Giannazi (PSOL) chegou a dizer no plenário que está acontecendo um "desmonte da FMU".

A faculdade foi adquirida pelo grupo americano Laureate em 2013 por R$ 1 bilhão. Desde então, uma outra reformulação já tinha sido feita há cerca de dois anos, quando parte das aulas presenciais foram substituídas por EAD (educação a distância).

Segundo Regina Maria Lancellotti, 61, que acaba de concluir o curso de direito, as aulas presenciais, que antes representavam a totalidade do curso, passaram a acontecer apenas quatro vezes por semana, com a implantação de aulas à distancia uma vez por semana. Ela afirma que essa mudança também aconteceu sem que os alunos fossem consultados.

"Nesses dias as salas que ficam vagas [por conta das turmas com aulas à distância] são ocupadas por turmas que passaram a ser itinerantes, ou seja, não têm uma sala de aula fixa, consequência da super lotação das salas devido ao excesso de alunos admitidos. Há salas com mais de 150 alunos no direito da Liberdade", afirma.

O MEC disse à reportagem que as instituições têm autonomia para alterar a grade curricular, mas acrescentou que os alunos devem ter a opção de concluir o curso que iniciaram. "Para transferência para outro curso, como na modalidade EAD, por exemplo, o MEC orienta que as instituições consultem previamente o estudante", afirmou.

Procurada pela reportagem, a faculdade diz que nessa nova reformulação, as aulas a distância não são uma substituição das presenciais, mas sim a inclusão de disciplinas on-line.

"A FMU já disponibiliza essas disciplinas [a distância] em seus cursos, por considerá-las fundamentais para desenvolver competências necessárias para o mercado de trabalho", afirma.

PROFESSORES

Apesar das mudanças na grade curricular, alguns alunos afirmam estar mais preocupados com a demissão dos professores. "São mestres e doutores demitidos para a recontratação de professores em início de carreira. Quem acaba sendo afetado são os alunos", afirma Pellizzari.

A Folha falou com três professores demitidos nas duas últimas semanas de junho, que pediram para não ter os nomes divulgados. Todos disseram ter perguntado à coordenação a razão da demissão, mas não tiveram resposta. A um dos professores, o coordenador teria dito que, além de não ter uma razão, não concordava com a demissão.

"Nesses três anos em que estive na FMU, cumpri minha jornada, conteúdo programado, cursos obrigatórios. Nesse ano, inclusive, fui premiado em um evento, mas na terça fui chamado para uma conversa com o coordenador e demitido", afirma um dos professores, que também foi aluno da faculdade.

Outros professores relataram ainda demissão por telegrama e o vazamento de uma lista de dispensas antes delas começarem. "Os alunos já estavam perguntando pelo Facebook se eu tinha sido demitida antes de o coordenador me chamar para conversar. Foi humilhante", diz uma ex-professora da faculdade.

A FMU afirmou que realiza pesquisa com os alunos e "analisa profundamente diversos aspectos do processo de ensino e aprendizagem, dentre eles o desempenho, a didática e a assiduidade do corpo docente. A partir de toda esta análise é que definimos os docentes que permanecerão conosco".

O Sinpro (Sindicato dos Professores de SP) afirmou que fez uma assembleia com os professores demitidos e com os que tiveram a carga horária reduzida, na última segunda-feira (3), onde ficou definida uma paralisação no início do próximo semestre caso não haja uma retratação da faculdade.

"A FMU e a Laureat resolveram economizar nos custos e aumentar o lucro. Então reduziram a grade horária dos cursos ao mínimo possível. Perderam a vergonha. Fazer uma coisa dessa em meio ao semestre é coisa de quem não tem escrúpulo", afirmou Celso Napolitano, diretor do sindicato e presidente da Federação dos Professores do Estado.

O sindicato afirmou que seus advogados encaminharam, no início da tarde desta sexta, ao TRT (Tribunal Regional do Trabalho), uma ação contra as demissões.

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