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ATUALIZADA - Ação anti-droga da PM mata jovem em favela

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MARIANA ZYLBERKAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma ação da Polícia Militar em uma favela do centro de São Paulo suspeita de fornecer drogas à cracolândia terminou nesta terça-feira (19) com a morte de um rapaz de 19 anos, protesto de moradores e troca de acusações.

Leandro de Souza Santos foi morto a tiros após correr de agentes da Rota (grupo de elite da polícia) na favela do Moinho, em Campos Elíseos.

A PM diz que ele atirou contra policiais, que revidaram.

Já moradores da favela dizem que Leandro não tinha arma, mas que era usuário de drogas e correu para dentro de um barraco, onde teria sido agredido e assassinado.

Três pessoas deram entrevistas à Folha dizendo terem presenciado a entrada de policiais da Rota no local onde Leandro se escondeu. Elas afirmam que ouviram gemidos por mais de meia hora --e, em seguida, tiros.

Dentro do barraco sobraram marcas de sangue na cozinha (do chão ao fogão) e de tiros no armário e geladeira.

Após a ação, moradores do Moinho protestaram, interromperam a circulação de trens em um trecho da linha 8-diamante da CPTM e entraram em confronto com a PM. À tarde, cerca de 50 pessoas fecharam a avenida Rio Branco. Algumas jogaram pedras em policiais, que usaram bombas de gás lacrimogêneo.

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O tenente-coronel Miguel Daffara, da PM, afirmou que "a favela do Moinho é uma das fontes de abastecimento de drogas da alameda Cleveland", na cracolândia, região alvo de operações das gestões tucanas de Geraldo Alckmin e João Doria desde maio.

"Nós temos que sufocar o tráfico de drogas. No meio das pessoas de bem, há traficantes que se aproveitam e se escondem nos barracos", disse.

Pela versão apresentada por dois policiais na delegacia, Leandro correu para dentro de um barraco na favela. No local, com a entrada da Rota, teria dado dois tiros. Os dois policiais disseram ter disparado quatro vezes cada um.

Moradores dizem que a arma foi plantada pela polícia e que não houve confronto.

Letícia de Souza, 22, irmã de Leandro, afirma que ele era viciado em cocaína.

"Ele estava virado, tinha cheirado a noite toda."

Letícia diz que viu um grupo de policiais gritar para seu irmão parar. "Ele estava transtornado e entrou na casa da vizinha." A dona do barraco, Lucimar Oliveira Santana, foi retirada pelos policiais com truculência, segundo seu marido, Cristiano Santana, borracheiro que estava na oficina vizinha na hora da invasão.

Cristiano afirma que o som do local estava ligado, mas que o volume foi elevado de repente. "Foi para ninguém ouvir as agressões", avalia.

"Só dava para ouvir ele [Leandro] gemendo e chamando a mãe", diz Rafael Liberato, 35, também vizinho do rapaz.

Moradores se aglomeraram na frente do barraco para tentar resgatar a vítima. Letícia afirma que ouviu tiros abafados e se desesperou. Seu irmão, Lucas de Souza Santos, tentou entrar no local, mas foi impedido. "Os policiais deram uma gravata e ele desmaiou."

A mãe de Leandro, a ajudante de cozinha Maria Odete Gonzaga de Souza, 46, acompanhou a ida do filho até o pronto-socorro da Santa Casa, mas ele já chegou morto. "Meu filho foi torturado e assassinado pela polícia."

No corpo, havia cinco perfurações por bala na região do abdômen, além de sangue na boca, inchaços no rosto e dentes quebrados. "Deram marteladas no meu filho", afirmou Maria Odete, em referência a um martelo cheio de sangue encontrado no barraco.

Usuário de drogas desde os 12 anos, Leandro vendia sucata para sustentar o vício. "Ele começou cheirando cola e passou para a cocaína. Vendia sucata para não roubar", disse a mãe do rapaz.

A PM diz que a ação dos policiais está sendo investigada em inquérito policial militar.

Ela disse que Leandro "teria se recusado à abordagem, levantando suspeitas". Duas pessoas foram presas na operação. Uma com uma moto furtada e outra com entorpecentes e um celular roubado.

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